Lavínia sentiu uma pontada no peito.
Débora escondeu a mão atrás do corpo.
— Não foi nada. Lavínia está magoada. Se eu me machucar um pouco, não tem importância.
Pietro olhava para Lavínia com raiva contida.
Nem se deu ao trabalho de pedir uma explicação a ela.
Aceitou a versão de Débora e concluiu que Lavínia era responsável pelos ferimentos.
Lavínia sustentou o olhar dele.
— Se eu disser que Débora não teve cãibra no dia da enchente e que errou o tiro de ontem de propósito, você acredita?
Pietro fechou os punhos, decepcionado.
— Se vai inventar uma história, pelo menos inventa uma que faça sentido! Sei que você está com raiva de mim por causa da Clara, mas isso não te dá o direito de descontar sua raiva nos outros, fazer acusações falsas e machucar alguém!
Ele não acreditava nela.
Ao ver que ele protegia Débora atrás de si, Lavínia se sentiu completamente esgotada.
Não queria discutir. Fechou os olhos para não olhar mais para ele.
Pietro entendeu o gesto como uma recusa em conversar ou admitir o erro.
Ficou ainda mais irritado, mas a palidez dela fez ele conter a raiva.
— Aproveita estes dias para se recuperar. Quando estiver melhor, vai pedir desculpas para Débora!
Ele pegou a mão queimada de Débora.
— Vamos. Vou cuidar disso.
Lavínia acompanhou a saída dos dois.
Não sentiu dor. Só um vazio imenso, como se já não conseguisse sentir nada.
Passou os dias seguintes se recuperando sozinha no hospital.
Quando recebeu alta, voltou para casa e ligou para a delegacia.
Relatou os acontecimentos da enchente e do sequestro.
— Débora cometeu erros graves em serviço, com consequências muito sérias. Exijo que investiguem a conduta dela e tomem as medidas cabíveis.
A resposta veio num tom sério:
— Certo. Vamos apurar os fatos o mais rápido possível.
Uma hora depois, o telefone tocou.
Lavínia atendeu e ouviu a voz baixa, satisfeita, de Débora:
— Achou mesmo que ia adiantar denunciar? Pietro vai me proteger! Não acredita? Então escuta...
A voz dele chegou ao fundo:
— Lavínia é minha esposa. Vou conversar com ela em casa e convencer ela a retirar a denúncia.
Um homem de meia-idade respondeu com firmeza:
— A conduta de Débora realmente apresenta problemas. Desde que entrou, o desempenho dela está abaixo do exigido em todos os aspectos. Precisamos tomar uma providência séria. Já discutimos o assunto na delegacia e decidimos pela demissão...
Pietro interrompeu, aflito:
— Não! Eu não concordo! Chefe, sou o responsável pelo treinamento dela. Se Débora errou, aceito a punição no lugar dela!
Houve um breve silêncio antes que o chefe respondesse:
— Se assumir a responsabilidade, terá que fazer um pedido público de desculpas por escrito. Também será rebaixado. Pense bem!
Ele não hesitou.
— Já pensei. Eu aceito!
Lavínia desligou.
Permaneceu sentada na sala por muito tempo. Só depois percebeu as lágrimas que molhavam seu rosto.
Não chorava por Pietro. Chorava por si mesma e por Clara.
Ela se levantou e levou para o quintal os objetos que tinha separado, todos cheios de lembranças dos dois.
Juntou também os brinquedos que Pietro fizera para Clara.
Depois, ateou fogo em tudo.
O portão foi aberto com violência. Pietro entrou, furioso.
— Por que você denunciou Débora? Tem ideia de que podia acabar com a vida dela?
Lavínia olhou para trás, iluminada pelas chamas. Sua voz saiu fria:
— Se ela não tivesse feito nada de errado, por que minha denúncia teria levado a alguma providência? Além disso, você já não resolveu tudo para ela?
Pietro quase não reconhecia aquela pessoa tão distante diante dele.
As mudanças dos últimos dias voltaram a inquietá-lo.
Ele franziu a testa, mas procurou suavizar o tom:
— Sei que você ainda não conseguiu superar o que aconteceu, mas Débora não fez nada por mal. Vamos deixar isso para lá desta vez. Não faz mais uma coisa dessas, está bem?
Lavínia sustentou o olhar dele por um instante.
— Está bem.
Não voltaria a brigar com Pietro.
Não haveria mais um futuro para os dois.
Ela voltou para o quarto.
Ele permaneceu diante das cinzas, com a testa franzida.
Queria ir atrás de Lavínia e perguntar o que ela tinha queimado, mas o telefone tocou.
Dois assassinatos tinham ocorrido na cidade, um depois do outro. Era urgente, e Pietro saiu às pressas.
Depois que ele foi embora, a responsável pela companhia de dança ligou.
— Sua vaga para estudar em Belmária foi aprovada. Prepare tudo. A viagem deve ser daqui a uma semana.
Lavínia apertou o telefone, emocionada.
— Certo! Vou estar pronta!