Mundo de ficçãoIniciar sessãoHoje é o grande dia. Finalmente. Irei conhecer pessoalmente essa tal “interesseira”, como eu mesma a nomeei. Quero olhá-la nos olhos, cara a cara, e mostrar que aqui, na minha faculdade, na minha cidade, ela não vai conseguir nada do que pensa. Vou fazer da vida dela um verdadeiro inferno: provocar, desafiar, testar, até que ela mostre quem realmente é.
— Bom dia! — falo alto, animada, com um sorriso largo no rosto, ao me sentar à mesa do café. Meus pais me olham surpresos, parados com as xícaras na mão. É raro, quase impossível, me ver assim: sempre acordo de mau humor, emburrada, principalmente para ir à aula. Hoje, porém, é diferente. — Bom dia, filha — minha mãe responde, com aquele jeito doce e ingênuo de sempre. Tem horas que penso que sou adotada, de verdade. Não me encaixo nessa família: eu sou esperta, perspicaz, observadora… eles são muito lentos, vivem no mundo da lua, preocupados só com aparências. — Vejo que está muito animada. Aconteceu algo importante? — Não… mas vai acontecer — respondo, sorrindo de lado e mexendo o café devagar. Ela não insiste, sabe como eu sou: quando não quero falar, ninguém arranca nada de mim. — Hoje a esposa do Arthur começa a dar aulas — meu pai comenta, com aquele tom de voz que conheço muito bem, olhando-me de canto de olho. Olho firme para ele. O homem não disfarça nada. Os olhos brilham de um jeito sujo e ganancioso ao falar dela. E a minha mãe, ao lado, não percebe absolutamente nada, continua sorrindo e tomando o chá. Que vergonha. Ah, e não esqueci o meu plano principal: vou levar aquela mulher, a minha nova professora, para a cama. Farei ela se render, farei ela me querer, e depois… vou fazer questão absoluta de que o meu pai saiba de tudo. Imagina só a frustração dele: perder a sua nova futura amante, o seu “presente”, para a própria filha. Isso será, sem dúvida, a coisa mais divertida que já fiz. — Se o senhor conseguiu um cargo tão bom para a esposa do seu advogado… consegue uma vaga para uma pessoa que eu indico? — pergunto, casualmente, sem olhar diretamente para ele, mas sentindo os dois me observarem atentos. — Nada de alto nível, não precisa ser docente. Apenas um posto na administração ou como secretária. Levanto o copo até a boca, bebo um gole devagar, e os encaro bem nos olhos. — Espero que não esteja aprontando nada, Carolina — ele avisa, com a voz mais dura. — Se for, te mando de volta para a Itália na mesma hora. Meus irmãos foram enviados para lá há anos, como punição por desobediência. Hoje estão casados, ricos e administram a filial que ele tem por lá. Mas comigo… comigo será diferente. Ele nunca conseguiu me controlar direito. — Ela está precisando muito de trabalho, pai. É uma moça boa, honesta e trabalhadora. É parente de uma amiga minha, e o currículo é ótimo, tem muita experiência. Seria uma boa contratação para a faculdade. Ele fica pensativo, coçando o queixo e avaliando a ideia. — Vou falar com o reitor ainda hoje — ele diz, e eu já seguro o riso de satisfação. — Ele me contou que a secretária atual vai se afastar por problemas de saúde, então vou indicar a sua amiga. Mas… — aponta o dedo para mim — apenas se, a partir de hoje, você se esforçar de verdade nos estudos. Nada de faltas, nada de confusões. — Claro, paizinho — respondo com o meu melhor sorriso de menina boazinha, doce e obediente. — Prometo que, de agora em diante, serei a filha exemplar e darei o meu melhor em tudo. O idiota sorri, convencido que me venceu. Mal sabe ele que está caindo direto no meu jogo. — Bom, vou me arrumar, não quero me atrasar no primeiro dia — aviso, levantando-me da mesa. [...] Pela primeira vez na vida, entro no campus animada, com um brilho diferente nos olhos e o coração disparado de curiosidade. Confesso que estou bem mais ansiosa do que imaginava. Vejo o meu grupo de amigos reunido na entrada: todos parecem eufóricos, falam alto e riem, como se tivessem recebido uma notícia incrível. Me aproximo devagar, querendo saber o motivo de tanta empolgação. — Que animação é essa, hein? — chamo a atenção de todos. — Olha só! — Danilo vira-se para mim, surpreso. — Eu jurava que você não viria hoje. Você falta mais do que vai às aulas, né? Reviro os olhos e caminho até eles. — Meu pai decidiu que eu tenho que “dar uma chance” para ele, vê se pode? — brinco. — Se ele quisesse alguém tão obediente, poderia ter escolhido a minha prima — se ela não fosse insuportável. — Eu mudei, juro — ergo as mãos em sinal de rendição. — Sério, hoje começa uma nova Carol: estudiosa, dedicada e presente. Todos riem alto, negando com a cabeça. — Conta outra, amiga — Bela b**e no meu ombro, divertida. — Vem cá, o que você realmente está tramando? Nós te conhecemos bem — essa bondade toda é armadilha. — Ao invés de ficarem analisando a minha pessoa, me digam: por que toda essa euforia? — volto ao assunto. — Tudo isso é pela nova professora! — responde Marcela, toda sorridente. — Olha só, até parece um sinal… Susana, o nome dela. É uma gata, gente! Bando de exagerados, penso. Não a vi ainda, mas não deve ser tudo isso. — Gata? Uma mulher linda, perfeita, você quis dizer — corrige Danilo, sonhador. — Eu nunca mais vou faltar, não mesmo. Principalmente na disciplina de Matemática Financeira! Vocês acreditam que mais de vinte alunos se inscreveram só para ter aula com ela? — Vocês parecem adolescentes no começo da puberdade — ironizo, cruzando os braços. — Não conseguem ver uma mul bonita que já ficam assim, feito bobos. — Amiga, você sabe que sempre gostei de homens — diz Marcela, se aproximando e abaixando a voz, como se fosse um segredo. — Mas aquela ali… nossa, até eu teria interesse. Isso é, se ela me quisesse, claro. Não dou muita importância ao que dizem — não é a primeira vez que acontece: chega uma novata, e todo mundo fica maluco. Igual uns idiotas. Entro na sala e me sento no fundo, como sempre faço: lugar estratégico, onde vejo tudo e todos. Esperando a entrada da tal “interesseira”, abro o celular para ver fotos dela, só para matar a curiosidade. Mas antes que eu consiga abrir qualquer imagem, uma voz profunda, suave e extremamente doce ecoa pelo espaço, chamando a minha atenção imediatamente. Uma voz que me fez arrepiar dos pés à cabeça, e até suspirar sem querer. — Bom dia, pessoal. Me chamo Susana Hernandez. Levanto o olhar depressa, tentando encontrar a dona daquele tom que é capaz de seduzir qualquer um só de falar. Ela continua, com a mesma calma e intensidade: — Sou a nova professora de Matemática Financeira. Por favor, sentem-se e acomodem-se como preferirem. Como se já não fosse perfeita só na voz, eu finalmente a vejo, assim que todos se organizam nas carteiras. E fico simplesmente encantada, paralisada, sem acreditar no que estou vendo. Não me reconheço mais: eu, que julgava todos, que achava tudo besteira, agora a observo com uma admiração absurda e uma vontade enorme e incontrolável de chegar perto, de tocar, de sentir. Desço o olhar devagar, do rosto ao corpo, analisando cada detalhe. Ela é simplesmente divina. Veste um vestido elegante, que valoriza cada curva; cabelos bem arrumados, postura de quem sofreu muito mas continua de pé. Mordo os lábios, esquecendo completamente o que vim fazer ali, esquecendo todo o meu plano inicial. Ela caminha pela sala devagar, conversando com alguns alunos, respondendo perguntas, e cada passo que dá, eu sinto o coração bater mais forte. A olho com intensidade, com um desejo que não entendo, que nunca senti por ninguém antes. Que droga, como posso ficar assim por uma mulher que mal conheço? Senti o corpo inteiro arrepiar quando, de repente, o seu olhar encontrou o meu, bem no fundo da sala.






