Eu tentei manter o controle de mim mesma durante todo o trajeto, lutando para não deixar que ele estragasse o único motivo que ainda me dava um fio de esperança. Mas Arthur, como sempre, fazia questão de esmagar qualquer resquício de paz que eu tentasse construir. Foi o caminho todo repetindo as mesmas ameaças, naquele tom frio e cortante que eu conhecia tão bem, que eu não ousasse tentar nada contra ele, que seguisse exatamente as suas ordens ou pagaria um preço que eu não seria capaz de suportar.
— Olha ali — apontou com a cabeça, desviando o olhar apenas por um segundo, e eu vi os seguranças parados na entrada principal da instituição. — Hoje à noite vamos jantar na casa dos seus pais, para comemorar essa sua nova conquista. Esse cargo vai me abrir portas que valem muito mais do que você imagina.
— Eu preciso ir agora — falei, apressada, abrindo a porta do carro antes mesmo que ele parasse completamente, desesperada para me afastar daquele ar pesado.
— Calma, deixa dessa pressa — segurou-me pelo pulso, fechando a porta novamente e me trancando ali dentro com ele. — No próximo final de semana terá um jantar na casa do senhor Lombardi. Ele quer te apresentar à esposa. Você vai ser simpática, vai fazer amizade com a família, e principalmente, vai se aproximar da filha dele. Essa menina, a Carolina, vai herdar tudo o que o pai construiu. Ela será dona de tudo aquilo que move a cidade. — Deu uma risada curta, cheia de arrogância, e cuspiu as palavras como se fossem ordens de batalha. — Nem me olhe com essa cara de nojo. Você está ali dentro apenas para cumprir um papel. Será que pensou, por um segundo, que eu faria tudo isso por amor a você? Não seja ingênua, Susana.
— Eu não penso em absolutamente nada que venha de você. Tenha um péssimo dia — tentei me soltar, mas ele travou o cinto de segurança, impedindo a minha saída.
— Mal começou e já está querendo mostrar as asinhas? — aproximou o rosto, o hálito quente e fedorento me fazendo recuar. — A Carolina não é uma garota fácil de lidar. É exigente, mandona e acostumada a ter tudo o que quer. Se precisar, dê nota máxima para ela mesmo que ela não acerte uma única questão. Elogie, concorde, seja a melhor amiga que ela nunca teve. Você foi colocada lá para servir aos meus interesses.
Ele não esperou que eu respondesse, saiu do carro, deu a volta e abriu a porta do meu lado, obrigando-me a sair sob o olhar de quem passava.
— Não quero erros — segurou-me pelo queixo com força, apertando até que eu senti dor nos maxilares, e olhou ao redor para garantir que ninguém estivesse prestando atenção demais. — Grave bem isso na sua cabeça oca: eu mando, você obedece. E a minha ordem agora é: aproxime-se da Carolina Lombardi, ganhe a confiança dela e me traga informações.
Quando um pequeno grupo de pessoas passou ao lado, ele mudou de postura num passe de mágica, abraçou a minha cintura com falsa ternura e sorriu para mim como se fôssemos o casal mais apaixonado do mundo.
— Vai lá, meu amor. Tenha um ótimo dia — murmurou docemente, antes de segurar o meu rosto e pressionar os lábios contra os meus num beijo falso, úmido e repugnante.
Senti-me suja. No momento em que ele finalmente me soltou e virou as costas, eu só conseguia pensar em uma coisa: precisava escovar os dentes. Com toda a força. Até arrancar da pele qualquer rastro dele. O ódio que eu sentia daquele homem era maior do que qualquer medo que ele pudesse me causar.
Respirei fundo, sentindo o ar puro da manhã encher os meus pulmões como um alívio temporário, e caminhei apressada até o banheiro mais próximo. Peguei a escova e o creme dental da minha bolsa, esfregando com tanta força que a gengiva chegou a sangrar um pouco. Limpei o rosto, arrumei os fios de cabelo e tentei, diante do espelho, apagar o rastro de sofrimento que ele deixou em mim. Hoje eu seria apenas a professora Susana. Hoje eu viveria a minha vida, nem que fosse por poucas horas.
— Bom dia — anunciei ao entrar na sala dos professores, atraindo de imediato a atenção de todos os presentes. Pelos olhares cruzados e os cochichos, percebi que a minha presença ali já era motivo de comentários. Um ou outro respondeu baixo, com educação apenas. Sentei-me num canto, recolhi o material que usaria nas aulas e por um momento a realidade pesou sobre os meus ombros, eu estava com medo. Confesso que o receio era grande.
— É uma sorte muito grande ser apadrinhada logo por um dos donos da instituição — uma voz masculina cortou o silêncio, carregada de ironia. Levantei os olhos e vi um homem de braços cruzados me analisando com desdém. — Me diga uma coisa… Susana, não é? Você não se sente mal? Todos nós sabemos que havia cinco candidatas para essa vaga. Cinco pessoas que estudaram, lutaram e esperaram anos por essa oportunidade. E você foi a escolhida, sem prova, sem entrevista, sem passar por nenhum processo seletivo.
— Pedro, deixa a garota em paz — interrompeu uma mulher que se aproximou sorrindo, deixando claro que não concordava com o tom da conversa. — Ele está assim porque a namorada dele foi uma das que não foi aprovada. Não dê ouvidos a ele.
Fiquei paralisada, sentindo a vergonha queimar o meu rosto. Ele tinha toda a razão. Que chance eu teria realmente tido se o senhor Lombardi não tivesse interferido na minha contratação, atendendo ao pedido do Arthur? Senti como se a minha capacidade e os meus anos de estudo tivessem sido apagados apenas pela forma como cheguei até ali.
— Sou a Luiza — ela estendeu a mão, e eu levantei devagar, correspondendo ao cumprimento com gratidão.
— Muito prazer, Luiza. Obrigada por ter me defendido.
— Vamos, eu te mostro tudo. Temos cerca de vinte minutos antes do sinal bater.
Ela foi extremamente simpática, guiou-me por cada corredor, apresentou-me aos funcionários e explicou como funcionava toda a rotina. Eu comentei que havia estudado ali muitos anos atrás, mas que tudo parecia ter mudado tanto que eu mal reconhecia os ambientes. Conheci também alguns alunos durante o percurso, jovens que pareciam carregar o mundo nas costas ou, ao contrário, que não ligavam para nada. Eram ousados, seguros de si, especialmente aqueles que pertenciam às famílias mais ricas da cidade.
— A sua primeira turma do dia não é fácil, Susana — alertou-me Luiza, com um olhar sincero e preocupado. — Você consegue contar nos dedos de uma mão quantos realmente estão ali porque querem aprender. A maioria está cumprindo apenas uma obrigação imposta pelos pais.
— É triste pensar assim, mas eu entendo bem como é — comentei, sentindo uma pontada no peito. Nada era pior do que ter os sonhos roubados ou ter os passos ditados por outra pessoa. — Às vezes os próprios pais esquecem que o maior presente que podem dar aos filhos é a liberdade de escolha.
— Você não tem filhos? — perguntou curiosa. Neguei com a cabeça. Ela sorriu, continuando. — Vi o seu esposo na entrada, acompanhando você. Ele parece te amar muito, devo dizer que é um homem bonito. Vocês formam um par perfeito, dá para ver amor nos olhos de vocês. Devem ter filhos lindos quando decidirem tê-los.
Eu forcei um sorriso amarelo, daqueles que não chegam aos olhos. Tive vontade de dizer a ela que podia ficar com ele de presente, sem nenhum custo, pois eu não desejava a ninguém a vida de prisão e aparências que eu levava.
— Eu tenho uma menina, de sete anos. Qualquer dia marcamos um almoço, para você conhecê-la. Tenho certeza que vão se dar bem.
— Com certeza, vou adorar — respondi, parando em frente à porta da primeira sala de aula.
— Bom, eu fico por aqui. Qualquer dificuldade ou dúvida, é só me procurar. A minha turma já me espera. Boa sorte, Susana. E desculpa a sinceridade, mas você vai precisar dela — ela sorriu, dessa vez com um pouco mais de seriedade. — Mas algo me diz que você tem garra suficiente para conquistar o seu espaço.
Ela afastou-se, deixando-me sozinha diante da porta pesada de madeira. Respirei fundo, enchi-me de coragem e empurrei-a devagar. Ao entrar, vários alunos conversavam alto, alguns em pé sobre as carteiras, outros circulando pela sala. O barulho cessou por completo quando os meus pés tocaram o centro do sala..