Mundo de ficçãoIniciar sessãoMaya Vicary
Enquanto subia no elevador do prédio ao lado daquele homem desconhecido, não consegui evitar o pensamento de que talvez eu tivesse enlouquecido. Levar um estranho para dentro da minha casa… um homem que eu conhecia havia poucas horas. Um homem que nem sequer tinha um nome. Mesmo assim, havia algo nele. Algo que me fazia sentir… segura. Era estranho. Talvez fosse apenas admiração. Afinal, ele tinha se arriscado por mim sem pensar duas vezes. Talvez fosse apenas gratidão. Mas quando eu olhava para ele… havia algo familiar naquele olhar profundo e silencioso. Como se eu o conhecesse de algum lugar que minha mente não conseguia alcançar. Ele continuava quieto. Durante todo o caminho não reclamou de nada, não fez perguntas, não demonstrou curiosidade excessiva. Apenas me acompanhava em silêncio. E me olhava. Mas não era um olhar vulgar. Não havia desejo. Era… curioso. Gentil e respeitoso demais. Mesmo depois do banho que havia tomado no hospital e da roupa simples que tinham lhe dado, uma camiseta larga e uma calça de moletom, ele ainda parecia um homem das cavernas. Os cabelos continuavam desgrenhados. A barba era enorme. Espessa. Indomável. Abri a porta do meu apartamento e acendi as luzes. O cheiro familiar da minha casa me trouxe um breve conforto. — Você pode se sentar — falei, tentando parecer natural. Ele entrou devagar, olhando ao redor com uma calma silenciosa. — Eu vou pegar algumas coisas para você dormir no sofá. Ele apenas assentiu. — Se quiser água… — apontei para a cozinha — pode pegar na geladeira. Tem frutas e iogurte também. Ele me olhou por um segundo antes de responder. — Obrigado. A voz era grave. Baixa. E surpreendentemente educada. Peguei um travesseiro, um cobertor e deixei tudo preparado para ele. — Qualquer coisa que precisar… é só chamar. Ele apenas assentiu novamente. Sem perguntas. Sem exigências. Sem nada. Entrei no meu quarto e tranquei a porta. Era uma segurança tola. Eu sabia disso. Se ele decidisse me atacar enquanto eu estivesse acordada, eu teria pouca chance. Dormindo… não teria nenhuma. Mas mesmo assim virei a chave. Deitei na cama. Meu corpo estava exausto. Mas minha mente não. A imagem de Freddy e Valerie se beijando voltava repetidamente à minha cabeça. A traição. A humilhação. As ameaças. Minha vida parecia ter mudado completamente em menos de vinte e quatro horas. Agora eu estava desempregada. Se não encontrasse outro trabalho rápido, teria que devolver esse apartamento e voltar para a casa dos meus pais. — Droga… — murmurei para o teto. Virei de um lado para o outro durante muito tempo. Nem percebi quando finalmente dormi. Acordei assustada. Um barulho violento ecoava pela casa. BAM! BAM! BAM! Alguém estava espancando a porta do meu quarto. — MAYA! A voz do outro lado da porta não deixava dúvidas. Meu estômago gelou. Freddy. Levantei da cama e abri a porta. Ele entrou no quarto como um furacão, o rosto vermelho de raiva, olhando ao redor como se procurasse algo. — O que você está fazendo aqui, Freddy? — falei com frieza. — Você e eu não temos mais nada para conversar. Ele me ignorou completamente. — Quem dormiu aqui com você? A pergunta me pegou de surpresa. Foi então que lembrei de Johnny. Meu coração deu um salto. Saí rapidamente para a sala. O sofá estava vazio. Olhei o banheiro. Nada. Ele não estava ali. Freddy apareceu atrás de mim. — Não enrola, Maya. Quem dormiu aqui com você? Cruzei os braços. — Foi o… — Parei. Respirei fundo. — Não te interessa. — Ele estreitou os olhos. — Eu te disse ontem, Freddy. Acabou. — Minha voz tremia, mas eu continuei. — Traição eu não perdoo. —Apontei para a porta. — Me deixa em paz e vai ficar com a cínica da Valerie. Ele passou a mão pelo rosto, irritado. — Ela não significa nada para mim. —nSe aproximou. — Você é quem eu amo. E, para minha vergonha, meus olhos se encheram de lágrimas. Eu odiava aquilo. Odiava ainda sentir alguma coisa. Freddy percebeu imediatamente. E interpretou como fraqueza. Ele se aproximou e me abraçou. — Você também me ama, Maya — murmurou perto do meu ouvido. — Para de bobeira e esquece esse deslize. Empurrei ele com força. — Não é bobeira! — Minha voz ecoou pelo apartamento. — Eu não vou voltar para você!b— Meu peito subia e descia com força. — Acabou, Freddy! Você me feriu! Ele ficou me olhando por alguns segundos. Então sua expressão mudou. Fria. Calculista. — Eu estou tentando te fazer feliz… — disse com desprezo — mas pelo visto você não quer. —Cruzou os braços. — Não vou ficar me humilhando. — Depois completou, com um sorriso cruel: — Mas fique ciente de uma coisa.b—Meu estômago apertou. — Se você não voltar para mim… sua carreira na área de finanças em todo o Reino Unido acabou. Senti um choque percorrer meu corpo. — Você está me ameaçando? Ele sorriu. — Não, amor. — A palavra saiu venenosa. — Estou te dando direito de escolha. — Deu um passo mais perto. — Ser feliz comigo. — Fez uma pausa.— Ou viver uma vida medíocre. Minha raiva explodiu. Apontei para a porta. — Sai da minha casa. — Empurrei o peito dele. — Vai embora, Freddy! Ele me encarou por um longo momento. Depois virou e saiu. Assim que a porta se fechou, eu a tranquei por dentro. Agora ele não conseguiria entrar com a chave. Encostei a testa na madeira e sussurrei para mim mesma: — Eu vou dar a volta por cima. — Minhas mãos tremiam. — Você não vai me destruir, Freddy. Caminhei até o sofá e me sentei. E então chorei. Chorei como não chorava há anos. Até sentir uma mão grande com unha encardidas tocar meu ombro. Levei um susto. Olhei para cima. Johnny. Ou Johnny Duo. — Onde você estava? — perguntei, enxugando o rosto. Ele respondeu com calma: — Quando vi alguém abrindo a porta… me escondi na área de serviço. Soltei um pequeno riso cansado. — Nossa… você falou uma frase inteira. Ele não sorriu. Apenas ficou me olhando. Depois disse: — Eu preciso ir embora. — O quê? — Obrigado por tudo. Balancei a cabeça. — Não… a gente precisa procurar um abrigo para você. E comprar seus remédios. Ele desviou o olhar. — Não precisa. — Precisa sim. Ele voltou a me encarar. — Eu preciso ir embora daqui agora. Aquilo me deixou inquieta. — Olha… vamos fazer assim. Peguei minha bolsa. — Eu vou até a farmácia comprar seus remédios. — Abri a porta. — Pelo menos isso. — Fiz uma pausa. — Depois você pode ir. Ele assentiu lentamente. Troquei de roupa rapidamente e saí. A farmácia ficava perto. Não demorei quase nada. Comprei os remédios e voltei. Mas quando entrei no apartamento… Ele não estava mais lá. O sofá estava vazio. O cobertor dobrado. Meu coração apertou. Foi então que notei algo na geladeira. Um bilhete preso ao ímã decorativo. Caminhei até lá e peguei o papel. A caligrafia era firme. Elegante. De alguém claramente bem instruído. Abri o bilhete. E li: “Mais uma vez obrigado. Mas eu realmente precisava sair da sua casa.Desculpe.” Fiquei parada olhando para aquelas palavras por um longo tempo. Segurando o papel entre os dedos. Com uma sensação estranha crescendo dentro de mim. Porque aquele homem… definitivamente… não parecia um morador de rua comum.






