Mundo de ficçãoIniciar sessãoMaya Vicary
Naquela noite parecia que o destino tinha decidido destruir minha vida… e, ao mesmo tempo, colocar outra nas minhas mãos. Enquanto eu pressionava a ferida daquele homem desconhecido que parecia um.morador de rua, a chuva escorria pelo meu rosto misturada às minhas lágrimas. O sangue quente dele manchava minhas mãos e o tecido do meu roupão. — Aguenta… por favor… — eu repetia, desesperada. Ele havia me salvado. Um estranho. Um homem que não tinha nada. E mesmo assim se colocou entre mim e aquele monstro. Eu não podia deixá-lo morrer ali. Fiquei gritando por ajuda até minha garganta arder. — SOCORRO! ALGUÉM, POR FAVOR! Por um momento achei que ninguém viria. Até que faróis surgiram no final da rua. Um carro desacelerou. O motorista abriu o vidro, olhando a cena com espanto. — Meu Deus… o que aconteceu aí? — Por favor! — eu implorei, quase chorando de alívio. — Ele foi esfaqueado… ele me salvou… precisamos levá-lo para um hospital! O homem saiu rapidamente do carro. Era um ser bom, não se importou em ajudar a quem necessitava. — Vamos, me ajuda aqui. Levantar aquele homem não foi fácil. Ele era grande, pesado, e estava quase inconsciente. Com muito esforço conseguimos colocá-lo no banco traseiro. Eu entrei ao lado dele, pressionando novamente a ferida enquanto o carro arrancava. O cheiro de chuva, sangue e asfalto molhado parecia impregnar tudo. Eu repetia sem parar: — Aguenta… por favor… só mais um pouco… Finalmente as luzes de um hospital surgiram à frente. Só quando paramos na entrada eu percebi o letreiro iluminado. Hospital particular Respirei fundo. Não importava. Ele tinha salvado minha vida. Era justo que eu salvasse a dele. Assim que entramos na emergência, tudo aconteceu muito rápido. O ambiente era frio e iluminado por lâmpadas brancas intensas. O cheiro forte de antisséptico invadia o nariz. O som constante de monitores cardíacos apitando, telefones tocando e passos apressados criava um caos organizado típico de hospitais. Eu estava a ponto de enlouquecer, que dia era aquele, eu esperava magia e prazer. Tudo saiu ao contrário. — Paciente com perfuração por lâmina! — gritou o motorista para a equipe. Dois enfermeiros vieram imediatamente com uma maca. — Coloca aqui! Em segundos eles o colocaram sobre a maca e começaram a empurrá-la pelo corredor. — Sala de emergência três! Eu fiquei parada, ofegante, vendo a maca desaparecer por uma porta dupla. Minhas mãos ainda estavam cobertas de sangue. O motorista se aproximou. — Acho que ele está em boas mãos agora. Eu olhei para ele com gratidão. — Muito obrigada… se você não tivesse parado… Ele sorriu de forma simples. — Qualquer um faria o mesmo. Mas eu sabia que não era verdade. Ele me deu um leve aceno e foi embora. Foi então que percebi algo. As pessoas na recepção estavam me olhando. Muito. Só então lembrei. Eu estava apenas de roupão. Molhada. Cabelos desgrenhados. Descalça. Parecendo uma completa louca no meio de um hospital elegante de Londres. Cruzei os braços, tentando me cobrir. Enquanto aguardava notícias, uma mulher de terninho cinza, com um crachá do hospital preso na lapela, caminhou até mim. Seu sorriso era profissional. — Boa noite, senhora. A senhora trouxe o paciente que acabou de entrar? — Sim. — A senhora é a responsável pelos custos do atendimento? A pergunta me pegou desprevenida. Por um segundo eu apenas pisquei. Mas então respondi: — Sim… sou. — Abri minha bolsa e peguei meu documento. Por sorte, apenas a carteira de cartões ficou no meu trabalho — Aqui. Ela analisou rapidamente. — Precisaremos de uma garantia de pagamento. Respirei fundo. — Eu vou em casa buscar meu talão de cheques. Enquanto ela anotava meus dados, um pensamento incômodo surgiu na minha mente. Tantos hospitais públicos em Londres… E justo naquela emergência particular nós tínhamos parado. Mas no fundo eu sabia que não importava.Aquele homem tinha arriscado a vida por mim. O mínimo que eu podia fazer era garantir que ele fosse tratado. Mesmo assim, uma apreensão crescia dentro de mim. Na faculdade de finanças eu havia aprendido uma regra básica. Nunca emita um cheque sem ter certeza de que haverá fundos. E agora? Eu estava desempregada. Tinha acabado de abandonar minha carreira. Não fazia ideia do que seria do meu futuro. Mas isso era um problema para depois. Pedi a um rapaz na recepção: — Você poderia me emprestar o celular por um minuto? Ele hesitou, mas acabou entregando. Entrei no aplicativo de carona com meu login e pedi um carro para minha casa. Quando o carro chegou, entrei rapidamente. Durante todo o trajeto fiquei olhando pela janela, ainda atordoada com tudo o que havia acontecido naquela noite. Traição. Quase estupro. Uma tentativa de homicídio. Era difícil acreditar que tudo isso havia acontecido em poucas horas. Quando chegamos em frente à minha casa, virei para o motorista. — Você poderia me esperar alguns minutos? Eu pago uma gorjeta. — Claro. — ele respondeu educado. Corri para dentro. Troquei o roupão por uma roupa simples: calça jeans, blusa e casaco. Peguei dinheiro. Meu talão de cheques. E um celular antigo que ainda guardava em casa. Voltei para o carro. — Podemos ir. (...) O hospital parecia ainda mais silencioso quando retornamos. Assim que entrei novamente na emergência, uma enfermeira me abordou imediatamente. — A senhora é responsável pelo rapaz que entrou com perfuração por lâmina? Meu coração disparou. — Sou. — Venha comigo. Meu estômago se contraiu. O pior passou pela minha mente. Não sei como me sentiria se soubesse que alguém morreu por minha causa. Ela me conduziu por um corredor até a enfermaria masculina.Parou diante de um leito isolado por um biombo e puxou a divisória. E eu congelei. O homem que poucas horas antes estava sangrando na rua agora estava sentado na cama. Limpo. Os cabelos ainda longos e a barba espessa permaneciam, mas seu rosto estava lavado. Ele comia um sanduíche com uma calma eu finess impressionante. Eu pisquei algumas vezes. — Ele… ele está bem? A enfermeira sorriu. — Sim. Muito bem. Respirei aliviada. — Ele já está de alta, inclusive. — De alta? — O corte foi superficial. Pegou de raspão. Só tem perigo de infecção se não tiver o trato adequado — Ela cruzou os braços. — Ele desmaiou porque, apesar de ser um homem parrudo… provavelmente está há muitos dias sem comer direito. Meu coração apertou. O homem levantou os olhos para mim. E novamente aquele olhar me impressionou. Profundo. Silencioso. Intenso. A enfermeira continuou: — A doutora gostaria de falar com você. Assenti e a segui até um pequeno consultório. A médica, uma mulher de meia-idade com expressão firme, me entregou uma folha. — Estes são os medicamentos que ele precisa tomar. — Olhei a lista. — Ele precisa trocar os curativos todos os dias. E manter a ferida limpa. Ela me encarou. — Ele não pode voltar para as ruas agora. Franzi a testa. — Desculpe…? — Procure um abrigo para ele. Pisguei, surpresa. — Eu procurar um abrigo para ele? — Sim. — Ela suspirou. — Nós até podemos tentar encaminhá-lo, mas sabemos como funciona. — A médica apoiou os cotovelos na mesa. — Com a demora da burocracia, ele vai acabar voltando para a rua. Ela apontou para a lista de remédios. — E se essa ferida infeccionar… Fez uma pausa. — Pode gangrenar e ele morrer de assepsia. O peso da responsabilidade caiu sobre mim como uma pedra. De repente percebi. Aquele homem não tinha apenas salvado minha vida. De alguma forma… agora a vida dele estava nas minhas mãos. Eu fiquei alguns segundos em silêncio, segurando aquela folha com a lista de remédios enquanto tentava organizar meus próprios pensamentos. A noite inteira parecia um pesadelo que se estendia sem fim. Olhei para a médica. — Doutora… — minha voz saiu um pouco rouca, cansada — eu me sinto responsável por ele. Ela ergueu os olhos dos papéis que analisava. — Responsável? Respirei fundo. — Ele… ele me salvou de um estupro. Dizer aquilo em voz alta fez um arrepio percorrer meu corpo novamente. A imagem daquele homem me segurando no chão, o cheiro de álcool, a lâmina brilhando sob a chuva… tudo voltou à minha mente. — Se ele não tivesse aparecido… — engoli em seco — eu não sei o que teria acontecido comigo. A médica me observou com atenção, como se tentasse medir o peso da minha decisão. Passei a mão pelo rosto, exausta. — O problema é que… eu não sei nem o nome dele. A médica soltou um pequeno suspiro, quase cansado. — Isso não é incomum. — Ela se recostou na cadeira. — Na verdade, ele disse exatamente isso quando perguntamos. Franzi a testa. — Disse o quê? — Que não sabia o próprio mome. Meu estômago apertou. — Como assim… ele não sabe o nome? — Ele afirmou que não lembrava. Nenhum documento, nenhum dado, nada. O real realmente não sabe, ou não quer lembrar. — Ela abriu um pequeno sorriso profissional, quase burocrático. — Então registramos ele como Johnny Duo. — Johnny… Duo? — É um código — explicou ela. — Usamos para identificar pacientes desconhecidos. A polícia e os hospitais fazem isso quando alguém chega sem identidade. Aquilo me deixou estranhamente triste. Um homem sem nome. Sem história. Sem ninguém. A médica cruzou os braços. — Mas preciso deixar claro uma coisa, senhorita Vicary. Assenti. — A senhora não é obrigada a assumir responsabilidade nenhuma. Ela falou aquilo com um tom firme, quase gentil. — Podemos simplesmente registrá-lo no sistema e acionar o serviço público. Em algum momento alguém virá buscá-lo. — E ele ficaria aqui até lá? A médica soltou um pequeno riso sem humor. — Em teoria, sim. Depois balançou a cabeça. — Na prática, eu já vi isso acontecer dezenas de vezes. Seu olhar ficou mais sério. — Ele vai embora antes. Fiquei em silêncio. Ela continuou: — Pessoas que vivem na rua não gostam de hospitais. Sentem-se presas, observadas… deslocadas. Fez uma pequena pausa. — Tenho quase certeza de que ele desaparecerá antes que qualquer assistência social chegue. Olhei novamente para a lista de remédios em minhas mãos. Depois para a porta da enfermaria. Aquele homem tinha se colocado entre mim e um criminoso armado. Ele não pensou duas vezes. E agora… ele não tinha nem um lugar para se recuperar. Respirei fundo. — Eu vou levá-lo comigo. A médica ergueu levemente as sobrancelhas. — Tem certeza? — Tenho. Passei a mão pelos cabelos, cansada. — Não vou procurar abrigo agora… — admiti. — Já é madrugada. Meus músculos pareciam pesar toneladas. — Eu estou exausta. Ela me observou por alguns segundos antes de assentir. — Entendo. Olhei para o corredor do hospital. — Amanhã eu vejo isso. Procuro algum abrigo, algum programa social… qualquer coisa. Mas, no fundo, eu sabia que aquela não era a verdadeira razão. A verdade era mais simples. Eu não queria deixá-lo sozinho. Não depois de tudo. A médica pegou uma caneta e assinou alguns documentos. — Muito bem. Ela deslizou os papéis para mim. — Ele está liberado. Assinei rapidamente. Minhas mãos ainda tremiam um pouco. Quando saí do consultório e caminhei de volta até a enfermaria masculina, senti novamente aquele estranho peso no peito. Eu estava prestes a levar um completo desconhecido para dentro da minha casa. Um homem sem nome. Sem passado. Sem explicações. Um morador de rua. Mas, de alguma forma… Eu confiava nele. Talvez porque, naquela noite em que tudo havia desmoronado na minha vida, ele tinha sido a única pessoa que apareceu… para me proteger.






