Capítulo 5

Maya Vicary

Passei os últimos três dias enviando currículos. Se Freddy Zampieri acha mesmo que vai me dobrar, ele está muito enganado. Já me mandou flores, junto com um celular novo e o meu carro. Mandei tudo de volta.

Não era orgulho besta. Era dignidade. Que tipo de relação eu teria com alguém em quem não confio? As atitudes dele só reforçam o quanto estou certa. Freddy não assume o erro, não se responsabiliza. Ele tenta banalizar tudo, como se eu estivesse fazendo tempestade em um copo d’água.

Estava sentada no sofá com o notebook no colo quando meus olhos começaram a pesar. Fechei o aparelho e me deitei ali mesmo, adormecendo em seguida.

Foi o toque suave da campainha que me acordou.

Ao olhar pelo olho mágico, vi que era ele.

Abri a porta e Jhonny praticamente caiu sobre mim. Seu corpo pesado encostou no meu e, no mesmo instante, senti o calor intenso que irradiava da sua pele.

Febre.

Arrastei aquele homem grande até o banheiro. Ele precisava de um banho urgente para baixar a temperatura. Ainda bem que eu tinha uma banheira. Consegui colocá-lo sentado dentro dela e, apesar de claramente debilitado, ele ainda conseguia fazer alguns esforços.

Tirei o suéter e a camisa que ele vestia. No braço havia uma tatuagem bem desenhada e, apesar de estar um pouco magro, era possível perceber o porte físico forte e definido.

Percebi que estava observando demais.

Ao invés de me afastar, fiz ao contrário, deslizei minha mão por toda extensão da tatuagem percorrendo os músculos do braço de Jhonny,.eu fiquei com a boca seca.

Molhei a cabeça dele com cuidado. A intenção era baixar a temperatura. No entanto, enquanto fazia isso, não conseguia para de registrar o quanto o homem na minha banheira, era másculo. Tive que sair da hipnose que o corpo dele estava me provocando. Depois fui buscar algo para ele vestir. Por sorte, Freddy tinha deixado algumas roupas aqui. Peguei um short e uma camiseta, deixei no banheiro junto com um sabonete antisséptico e pedi que ele lavasse bem o corpo, principalmente a ferida. Eu precisava sair de perto, estava tentada, era tão estranho. Deixei também uma toalha e saí.

Quando ouvi a porta do banheiro se abrir, fui ajudá-lo. O banho parecia ter feito efeito.

— Vou pegar algo para você comer e, logo depois, tomar os remédios.

— Obrigado… mas estou sem fome.

— Para tomar essa medicação é necessário comer. Vou fazer um creme de legumes bem leve, com frango desfiado. Algo fácil de engolir.

Ele assentiu, mas aquilo não parecia exatamente concordância. Parecia mais falta de ânimo para negar de novo.

Preparei o caldo de legumes e levei até ele. Não comeu tudo, mas o suficiente para conseguir tomar os remédios.

Depois fui refazer os curativos… e entendi o motivo da febre.

Os pontos estavam inflamados. Mais um pouco e aquilo poderia infeccionar seriamente.

Quando joguei o produto para higienizar a ferida, ele urrou de dor e segurou meu braço com força.

Seu toque foi repentino… quente… firme. Suas mãos firmes acabaram segurando nossos corpos próximos demais.

O Meu corpo reagiu antes que minha razão pudesse entender. Um arrepio percorreu minha pele e meu coração acelerou dentro do peito, como se algo invisível tivesse atravessado o espaço entre nós.

Era absurdo.

Eu mal conhecia aquele homem.

No mesmo instante senti algo estranho.

Uma tensão diferente.

Minha pele se arrepiou, meu coração acelerou, e uma espécie de corrente elétrica pareceu passar da mão dele direto para o meu sangue.

Engoli em seco e respirei, tentando me controlar.

— Calma… agora não vai doer mais. É só uma pomada.

— Desculpe — ele disse, soltando meu braço.

Coloquei a pomada, depois as gazes e fechei o curativo com fita microporosa. Verifiquei a temperatura novamente. Agora ele estava apenas febril, nada tão alto quanto quando chegou.

— Vou tomar um banho e dormir. Qualquer coisa, me chama.

— Mais uma vez… obrigado.

Quando saí do banheiro, ele já dormia no sofá, coberto pelo edredom. Mesmo com a meia-luz e parte do rosto escondido pela barba longa, eu conseguia enxergá-lo bem.

E havia algo inquietante naquela sensação.

Parecia que eu o conhecia.

Mas não lembrava de onde.

Afastei o pensamento e fui para o quarto. Dormi quase imediatamente.

Eram três da madrugada quando ouvi murmúrios vindos da sala.

Levantei, calcei as pantufas e fui até ele.

Jhonny estava suando e delirando de febre. Talvez fosse melhor levá-lo ao hospital.

Peguei uma tigela com água gelada, coloquei algumas pedras de gelo e uma toalha. Molhei o pano e o coloquei na testa dele. Depois posicionei o termômetro em sua axila.

Enquanto esperava, tentei entender o que ele murmurava.

— Não… não… vocês não vão me internar… não vão…

Franzi a testa.

— Internar? Será que ele é doido?

— Não sou doido! — ele resmungou, ainda delirando. — Você é que é uma puta falsa… quer ficar com o meu dinheiro…

— O quê?!

O termômetro apitou.

Com raiva pelo que acabara de ouvir, puxei o aparelho da axila dele.

Quarenta graus.

Soltei um suspiro pesado.

Ele estava delirando.

Não tinha ideia do que dizia.

Continuei fazendo compressas geladas até a febre finalmente ceder. Quando ele ficou mais tranquilo, o cansaço me venceu. Acabei adormecendo ali mesmo, no tapete, perto do sofá onde ele estava.

Acordei com o som do celular.

Um e-mail.

Abri rapidamente.

Uma entrevista de emprego para aquela tarde.

Meu sorriso se abriu imediatamente.

Mas, quando levantei os olhos, percebi que Jhonny não estava mais no sofá.

Antes que eu pudesse me preocupar, um cheiro tomou o ar.

Chá.

E ovos.

Levantei, espreguiçando-me, e fui até a cozinha.

— Vejo que está melhor.

— Graças a você — ele respondeu. — Tomei a liberdade de preparar o desjejum.

— Obrigada. E ainda bem… porque daqui a pouco você precisa tomar os remédios, e de barriga vazia não dá.

Ele me observou por um instante.

— Você também parece melhor. Estava triste ontem.

— Consegui uma entrevista de emprego.

Ele ergueu levemente as sobrancelhas.

— Aquele homem que veio aqui… era meu ex-noivo. No dia em que você me salvou daquele homem asqueroso… era nosso aniversário de namoro. E eu o peguei com a secretária.

Respirei fundo antes de continuar.

— A família dele é sócia do banco Nassau. Eu era gerente de uma unidade… mas me demiti. Mesmo sabendo que honrei meu trabalho, foi Freddy quem me colocou lá. E naquele dia, quando esteve aqui, ele jurou que eu nunca mais conseguiria emprego na área.

Dei de ombros.

— Bom… ainda não consegui. Mas pelo menos tenho uma entrevista.

Jhonny ouviu tudo em silêncio, com uma expressão atenta, quase analítica.

— Então vamos tomar chá.

Sentamos à mesa. Entre um gole de chá e uma rápida olhada nas notícias pelo celular, resolvi perguntar:

— Você realmente não lembra do seu nome?

Ele abaixou os olhos e desviou o olhar.

Eu iria insistir… mas uma notícia no celular chamou minha atenção.

— Nossa… eles conseguiram.

— Quem conseguiu o quê? — Jhonny perguntou curioso.

— Lembra que falei que meu ex-noivo é sócio de um banco? Existe uma família que é dona da maior parte… cerca de setenta por cento. A família Nassau. A herdeira morreu e deixou um marido e um filho.

Ele permaneceu em silêncio, ouvindo.

— O filho estudou fora e parecia ter outra carreira. O padrasto era quem administrava a fortuna, mas a mãe deixou tudo para o filho… e apenas uma mesada que o próprio filho deveria pagar ao marido dela. Entendeu?

— Claríssimo — ele respondeu.

Continuei lendo.

— O problema é que esse filho desapareceu no mar durante um passeio de iate. Ele deixou uma noiva. Não chegaram a se casar, mas moravam juntos. Agora, depois de um ano do desaparecimento, a justiça vai declarar o herdeiro morto e reconhecer união estável com a noiva.

Jhonny, que parecia bem até então, começou a tremer.

Mas não parecia febre.

Parecia… raiva.

— Está tudo bem? — perguntei.

— Sim… está. Acho que preciso de outro banho. Talvez a febre esteja voltando.

Ele se levantou e foi para o banheiro.

Não sei por quê… mas tive a sensação de que aquela história o tinha abalado.

Talvez fosse apenas coincidência.

Terminei meu chá e fui escolher a roupa para a entrevista.

Mas antes que pudesse fazer isso, outra mensagem chegou.

Cancelamento.

A entrevista havia sido cancelada.

Tentei segurar o choro, mas não consegui. Minha raiva e frustração se transformaram em lágrimas.

Foi assim que Jhonny me encontrou quando saiu do banheiro.

— O que houve?

— Nada… vá tomar seus remédios.

— Só depois que você me disser o que aconteceu.

Respirei fundo.

— Cancelaram a entrevista. Eu não sei o que vai ser da minha vida… tenho dívidas, vou perder meu apartamento. Freddy está fazendo isso comigo. Isso não é justo… e eu não posso fazer nada para impedir.

Ele me encarou.

— Mas eu posso.

— Vai fazer o quê? Encher a cara dele de socos? Seria ótimo… mas no momento você ainda está convalescente.

Ele ficou em silêncio por um instante.

Então disse:

— Eu sei o meu nome. — Levantei os olhos imediatamente. — Meu nome é Ethan Nassau. — O mundo pareceu parar por um segundo. — Eu não morri. Meu padrasto, junto com a mulher que ele colocou na minha vida, armou tudo para mim… para ficar com o meu dinheiro. Eu sou o dono majoritário do banco onde você trabalhava.

Ele deu um passo na minha direção.

— E quero te propor algo. Já que nós dois fomos enganados e feridos… preciso de uma tutora legal, já que eles querem provar que sou louco

Pisquei, confusa. Não estava entendendo nada

— Espera… do que você está falando?

Ele respondeu com calma:

— Estou falando de nós dois nos casarmos. Um casamento por contrato. Um acordo… não de amor. — Seus olhos encontraram os meus. — Mas de justiça. Para mim… e para você.

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