A culpa

POV André

— Quando eu tinha oito anos, meus pais morreram num acidente de carro. — começo, minha voz carregada pelo peso da memória.

Sinto um nó na garganta, mas continuo, mesmo que cada palavra pareça uma lâmina.

— Eu sinto muito. — Angeline diz, afastando-se ligeiramente para olhar meu rosto.

Seus olhos verdes me perfuram. Não consigo desviar, mas também não quero que ela veja o que há por trás da minha máscara.

— Tudo bem. — respondo com um sorriso que mal disfarça a tristeza. — Depois disso, fui morar com meu tio, o irmão da minha mãe. Ele era padre e me ensinou a ter amor pela batina, pela fé… e pelo celibato.

— Celibato? — ela pergunta, sua voz carregada de um tom zombeteiro que faz meu estômago revirar. — Isso significa que você é virgem?

— Claro que sou! — digo, com firmeza, embora sua incredulidade me irrite de um jeito inexplicável.

— Não acredito!

Desvio o olhar, sentindo meu rosto arder.

— Posso voltar à história? — pergunto, seco. Não gosto do rumo que a conversa está tomando.

— Desculpe. Claro que pode. — ela diz, suavizando o tom ao deitar a cabeça em meu ombro.

Tento me concentrar novamente, mas a proximidade dela torna isso quase impossível. Sua respiração quente contra meu braço faz minha pele arrepiar, e odeio a fraqueza que sinto por isso.

— Estudei a vida inteira ao lado do meu tio. Quando fiz 16 anos, fui para o seminário. Ele foi tudo para mim. Quando meu tio morreu, assumi a paróquia dele. Era o que ele desejava, e eu não podia decepcioná-lo.

— O último desejo do seu tio era que você fosse padre? — ela pergunta, agora com a voz baixa, como se lutasse contra o sono.

— Não exatamente. Ele apenas queria que eu fosse feliz. — respondo.

— Seu tio parecia ser um homem bom. — Angeline murmura antes de cair no sono.

Eu a observo enquanto ela adormece, mas, em vez de sentir paz, sou consumido por algo que me corrói.

Ela está tão perto… tão vulnerável. O simples fato de pensar nela de forma inadequada é um pecado.

E eu pensei.

Não consigo negar.

Lembro-me de como sua risada preencheu o quarto há pouco, de como ela me provocou tirando a roupa na minha frente. Não foi só por isso; foi o jeito como ela olhou para mim, como se estivesse desafiando tudo o que sou.

Deveria ter a expulsado. Deveria ter imposto distância. Mas, em vez disso, permiti que ela descansasse a cabeça em meu ombro.

Meu corpo reage de forma que não posso ignorar. O calor de sua proximidade, o perfume suave que parece impregnar o ar ao meu redor… É inadmissível.

Levanto-me com cuidado para não acordá-la e caminho até o outro lado do quarto. Cada passo parece um fardo, como se eu estivesse carregando uma cruz invisível.

Ajoelho-me ao lado da cama, juntando as mãos com força.

— Meu Deus… perdoe-me. — sussurro, a voz quase falhando.

Fecho os olhos com força, tentando expulsar as imagens dela da minha mente, mas quanto mais luto, mais claras elas se tornam. Seu sorriso, sua voz… até o som suave de sua respiração agora parece um tormento.

— Pai, pequei em pensamento. Não sou digno de sua misericórdia, mas imploro… tire essas tentações de mim. Não permita que eu caia na armadilha do diabo.

Minha respiração está pesada, quase sufocante.

— Como posso ser um padre digno se permito que esses pensamentos me contaminem? — pergunto, quase em um grito, embora minha voz saia abafada pelo quarto vazio.

Lembro-me das palavras do meu tio: “A fé é um compromisso diário, André. Haverá momentos em que você se sentirá fraco, mas é nesses momentos que deve se apoiar em Deus.”

Fecho os punhos, quase machucando as palmas das mãos. Eu falhei. Não sou forte o suficiente.

Passo as mãos pelo rosto, sentindo a umidade das lágrimas que não percebi que estavam ali. A frustração me consumindo, o que está acontecendo?

— Por que, Senhor? Por que colocaste essa provação diante de mim? — murmuro, quase inaudível.

Caminho até a pequena cruz pendurada na parede do quarto e a seguro com força, como se pudesse extrair dela a força que me falta.

Angeline é um teste. Um lembrete cruel de que ainda sou humano, de que minha carne é fraca.

Mas eu não posso ceder.

Não posso decepcionar minha paróquia… meu Deus.

Volto ao lado da cama e a observo novamente. Ela está tão serena, tão alheia à tempestade que causa em mim. Sinto uma pontada de raiva, mas não é dirigida a ela. É dirigida a mim mesmo.

— Sou um padre. — digo em voz alta, como se precisasse reafirmar quem sou. — E não serei derrotado por você.

Ajoelho-me novamente e recomeço minha prece, desta vez mais firme.

— Senhor, me dê forças. Purifique meu coração e minha mente. Não permita que o inimigo encontre espaço dentro de mim.

Rezo até que a exaustão me consuma, até que a culpa diminua, ainda que apenas um pouco.

Quando finalmente volto à cama, sinto-me vazio, mas decidido.

Amanhã, manterei a distância. Amanhã, serei mais forte.

Porque não há espaço para pecados como este na vida que escolhi levar.

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