Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Angeline
Acordei com um barulho alto, chato e estridente. Sabe aquele som que parece que alguém está serrando a sua caixa craniana de dentro para fora com uma faca de serra cega? Era exatamente isso. Parecia que um bando de corvos enraivecidos estava bicando a bunda da Nicki Minaj enquanto ela tentava desesperadamente cantar Super Bass em um megafone rachado. Abri os olhos com um sobressalto, mas me arrependi no milissegundo seguinte. A luz que filtrava pelas cortinas baratas da casa paroquial atingiu minhas pupilas como brasas vivas. Desisti de tentar dormir. Não havia silêncio no mundo que sobrevivesse àquela cacofonia. Sentei-me na cama, levando as mãos à cabeça e deixando escapar um gemido baixo que era metade dor, metade puro ódio. Minha cabeça parecia que ia explodir, cada batida do meu coração enviando uma onda de choque que fazia meus dentes latejarem. E o barulho lá fora? Ah, o barulho não ajudava em nada. Com uma dificuldade digna de quem sobreviveu a um naufrágio em um mar de tequila, cambaleei até a porta do quarto. A entreabri apenas o suficiente para espiar o que diabos estava causando aquele alvoroço. A pequena sala estava entupida. Um exército de beatas, vestidas com suas melhores roupas de "ir à igreja em dia de semana", movia-se para lá e para cá. Elas fofocavam na velocidade da luz, tomavam chá como se fosse o elixir da imortalidade e fingiam arrumar o lugar, batendo vassouras e espanadores com uma energia que eu não tinha nem em um dia bom. Bufei, sentindo o gosto amargo da ressaca na boca, e me voltei para a cama. Elas não poderiam fazer silêncio? Mas que droga! Tinha uma pessoa de ressaca aqui! Ou, pelo menos, uma pessoa que precisava de um pouco de paz antes de decidir se voltava a ser uma pecadora ou se pedia um milagre para a enxaqueca passar. — Elas te acordaram? — perguntou uma voz. Não era qualquer voz. Era uma voz rouca, sexy, linda, excitante, gostosa e todos os outros adjetivos que fariam qualquer mulher sensata — ou insensata — esquecer o próprio nome. Me virei e lá estava ele. André. O "Santo" Padre André acabara de entrar no quarto. Ele vestia aquela batina preta que parecia ter sido desenhada por algum estilista sádico que queria destacar exatamente o que um padre deveria esconder: os ombros largos, a postura ereta e aquele corpo que, vamos ser honestas, não deveria estar em lugar nenhum perto de um altar. Olhei para ele e, por um momento, a dor na minha cabeça ficou em segundo plano. Sabe, às vezes eu realmente me perguntava se ele era bem dotado. Se é que me entendem. Se a fé dele fosse do tamanho da largura daqueles ombros, o homem era um titã. — Não — menti, desabando na cama de novo e cobrindo os olhos com o braço. Eu não queria admitir que aquelas senhoras estavam vencendo. — O que elas estão fazendo aqui? É dia de missa? O apocalipse começou e eu não fui convidada? — Não. Elas vieram me ajudar na arrumação da igreja e se reunir para fofocar — ele disse, soltando um suspiro pesado e revirando aqueles olhos castanhos maravilhosos. — Venha comer algo, Angeline. Você precisa de sustento. Eu o olhei de alto a baixo, medindo cada centímetro daquela batina. Eu não queria comer pão, "Padre". Eu queria ser comida. Literalmente. E de preferência por ele, ali mesmo, entre os lençóis de linho áspero que cheiravam a sabão de coco e castidade. — Estou com preguiça... — murmurei, usando minha melhor voz manhosa, aquela que eu sabia que fazia os pelos do pescoço dele se arrepiarem. Enrosquei-me nas cobertas, deixando meu rosto parcialmente visível, apenas para ver a reação dele. — Ora, deixe disso! Venha! — ele insistiu, cruzando os braços. Ele parecia impaciente, mas eu via o brilho nos olhos dele. Ele estava lutando. André sempre estava lutando contra alguma coisa quando eu estava por perto. — Não! — respondi com um sorriso provocador, esticando as pernas sob o lençol. Ele soltou um ar ruidoso pelas narinas, a mandíbula travada. — Não acha que Daniele pode estar preocupada com você? — Ele mudou de assunto, tentando trazer a moralidade da minha melhor amiga para a conversa. Um golpe baixo, mas esperado. — Não. Ela está acostumada que eu durma fora de casa — retruquei com indiferença. — Daniele sabe que eu sou uma ave noturna, André. Ou uma loba. Depende do quanto eu bebi. — Tanto faz — ele disse, virando o rosto para o lado, aquela máscara de indiferença que ele usava para não me olhar nos olhos. — Eu liguei para ela e avisei que você estava aqui. Disse que você foi pega pela chuva e que era para ela não se preocupar. Senti uma risadinha brotar na minha garganta. — Sabendo disso, aposto que ela ficou preocupada foi com o senhor, Padre. — Comigo? Por quê? — Ele franziu a testa, a confusão nublando seu olhar santificado. Ele era tão fofo quando tentava ser ingênuo. — Porque ela sabe que eu sempre faço mais do que apenas dormir quando passo a noite na casa de um homem — disparei, sem piscar. O efeito foi imediato. O rosto de André passou de um bege pálido para um vermelho vibrante em segundos. Ele ficou corado do pescoço até as orelhas, e eu quase pude ouvir o curto-circuito acontecendo na cabeça dele. — Não quando você está na casa de Deus! — ele rebateu, a voz subindo uma oitava. Corta-clima de uma figa! Esse homem tinha um talento especial para jogar água benta no meu fogo. — Tá! — Revirei os olhos com força, sentindo uma pontada de dor pela ressaca, e virei para o outro lado na cama. Fiquei de costas para ele, mas não sem antes me certificar de que o vestido subisse "acidentalmente" até o meio das minhas coxas. Eu sabia que ele estava olhando. Eu sentia o peso do olhar dele nas minhas costas, na curva do meu quadril. Era um olhar que queimava mais que o sol do meio-dia. Ficamos em silêncio por alguns segundos, apenas o som abafado das beatas rindo lá fora e a respiração pesada de André atrás de mim. Eu estava ganhando. Eu sabia que estava. — Angeline! — ele me chamou. Sua voz estava diferente. Não era a voz do padre dando um sermão, era a voz de um homem tentando manter as mãos nos bolsos. Olhei por sobre o ombro, fazendo meus cabelos ruivos caírem sobre o rosto de um jeito que eu sabia que ele achava pecaminoso. — O quê? — Vamos! — ele disse, e para minha surpresa, ele estendeu a mão. Uma mão grande, com dedos longos e fortes. — Pra onde? — perguntei, sentando-me e ficando de frente para ele novamente, desafiadora. — Quero que faça algo para mim — ele respondeu. Meu cérebro, que já não estava operando sob as leis da moralidade cristã, deu um salto. "Algo para ele". As possibilidades eram infinitas e todas elas envolviam ele perdendo a batina e eu ganhando um lugar VIP no inferno. Sorri, deixando meus pensamentos maliciosos brilharem no olhar. Se o Padre queria um favor, eu seria a paroquiana mais prestativa da história de Ponte Negra. — Tudo bem, André. Se é um desejo seu... — levantei-me da cama com uma lentidão calculada, ignorando a pontada final na cabeça. — Eu faço o que você quiser. POV André Minha mente estava em frangalhos. Eu deveria estar lá fora, coordenando as senhoras da paróquia, discutindo a restauração do altar ou o chá beneficente. Em vez disso, eu estava trancado em um quarto com a própria personificação da tentação. Angeline era um incêndio. O cabelo dela, a cor da pele, o jeito que ela me olhava como se soubesse exatamente quais pecados eu confessava em silêncio todas as noites. Quando ela disse que "fazia mais do que dormir" na casa dos homens, meu sangue ferveu. Não de raiva, embora eu tentasse me convencer disso. Era ciúme. Um ciúme doentio, possessivo e completamente proibido. Eu precisava tirá-la daquele quarto. Precisava que ela parasse de me olhar daquela forma, ou eu acabaria esquecendo todos os meus votos antes mesmo do café da manhã. — Não me olhe assim — murmurei, enquanto ela se levantava. — Assim como, André? Com vontade? — Ela deu um passo em minha direção, o cheiro de perfume barato e álcool ainda exalando dela, mas de um jeito que me embriagava. — Apenas... venha. Preciso da sua ajuda na igreja. As senhoras estão perguntando quem é a "convidada" e eu prefiro que você esteja ocupada do que dando motivos para mais fofocas. — Ah, então eu vou ser sua assistente? — Ela riu, um som que vibrou no meu peito. — Isso vai ser divertido. Eu sabia que não seria. Eu sabia que cada minuto ao lado dela seria um teste para a minha alma. Mas, enquanto ela caminhava na minha frente, eu não conseguia evitar de olhar para onde não deveria. Deus, me perdoe, mas o pecado nunca pareceu tão doce.






