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Tem roupas de mulher no seu guarda-roupa, padre?

– Posso ficar aqui? – pergunto por entre os dentes que batem de tanto frio, a chuva escorrendo pelo meu corpo e deixando minha roupa colada à pele.

– Claro! – ele responde sem hesitar e abre mais a porta, me dando passagem. Ao entrar, roço intencionalmente meu corpo no dele, sentindo o calor que emanava de André em contraste com o frio da noite.

– Vamos! Você precisa se aquecer! – diz ele, me guiando para uma porta que dava acesso a uma escada estreita, que levava ao primeiro andar. O cheiro da madeira envelhecida misturava-se ao perfume sutil que parecia vir dele. Era uma combinação perigosa.

Ele me levou até um quarto simples, mas acolhedor. – Você tem que tirar essa roupa molhada – ele diz, o tom preocupado contrastando com o desconforto evidente em seus olhos.

– Se quiser, pode tirar para mim – murmurei provocando, com um sorriso malicioso que o fez corar furiosamente.

– Acho que tem algo aqui que possa servir em você – responde ele ignorando meu comentário safado, desviando o olhar e indo até o guarda-roupa.

Retira uma grande caixa de papelão e a coloca sobre a cama. De dentro, tira um vestido branco simples, de tecido leve. – O que acha desse? – pergunta, estendendo-o para mim.

– Tem roupas de mulher no seu guarda-roupa, padre? – pergunto, fingindo surpresa e sorrindo de lado ao ver que ele fica ainda mais constrangido.

– São para a caridade – responde rispidamente.

– Então acho que não devo vesti-lo – retruco, devolvendo o vestido a ele, deixando minha provocação no ar.

– Claro que deve! – diz ele, agora sorrindo levemente. – Isso é uma caridade!

– Tudo bem… – digo, aceitando o vestido, mas, antes que ele consiga sair, puxo o meu vestido molhado pela cabeça, deixando-o cair ao chão.

Fico apenas de calcinha, e na penumbra do quarto percebo seus olhos escuros, que brilham como os de um felino na escuridão. Ele tenta desviar o olhar, mas falha. Sua atenção está presa nos meus seios nus.

– O que……o que está fazendo? Vou… vou sair para você se trocar em paz – balbucia nervoso, dando passos apressados em direção à porta.

Antes que consiga sair, me coloco em sua frente, bloqueando o caminho. Ele me encara, perplexo.

– Por quê? Você já viu mesmo – digo com um sorriso travesso.

– Pare com isso! Me respeite. – responde ele, tentando passar por mim, mas mais uma vez o impeço.

– Ver uma mulher seminua não é pecado, Padre! – digo, aproximando-me ainda mais, até nossos corpos quase se tocarem. Fico na ponta dos pés e sussurro em seu ouvido: – Sentir desejo por ela é.

Ele recua um passo, a tensão evidente em cada movimento. – Não sinto desejo pela senhorita! – diz ele, a voz firme, mas o olhar vacilante.

Rio baixinho, encarando-o com curiosidade. – Não? – pergunto, inclinando a cabeça, como se desafiá-lo.

– Não! Agora, saia da minha frente! – ele diz, desviando o olhar e me puxando delicadamente para o lado. Sai apressado, fechando a porta atrás de si.

Suspiro, pegando o vestido e o vestindo com calma. Você ainda será meu, Padre André…

Na sala, ele estava sentado em uma cadeira, o rosto escondido nas mãos, lutando contra os pensamentos que eu sabia ter plantado nele. A lembrança do meu corpo parecia marcá-lo, perturbá-lo de uma forma que ele não conseguia disfarçar.

– Senhor, dai-me força… – murmurou para si mesmo, mas a imagem de Angeline, com sua pele branca contrastando com os cabelos ruivos, o sorriso malicioso, e a ousadia… tudo isso o assombrava.

Quando terminei de me vestir, desci as escadas e o encontrei assim, perdido em pensamentos.

– Padre? – chamei, me aproximando com passos leves.

Ele abriu os olhos, olhando para mim, mas desviou o olhar rapidamente. O vestido era mais curto do que eu imaginava, deixando minhas coxas à mostra.

– Sim? – respondeu, a voz um pouco rouca.

Ajoelhei-me à sua frente, sem pensar duas vezes. Ele ficou imóvel, tenso. Toquei suavemente sua perna, minha mão percorrendo um círculo lento e invisível em sua coxa.

– Espero que me perdoe – sussurrei, erguendo os olhos para encontrar os dele. – Por ter me despido na sua frente. Sei que foi falta de respeito.

Ele limpou a garganta, tentando afastar o desconforto. – Foi uma falta de respeito… com você mesma.

Suspirei, inclinando a cabeça. – Eu sei. Mas esse é o único mundo que conheço… – minha voz vacilou.

Padre André ficou rígido, mas em um gesto hesitante, passou os dedos pelos meus cabelos ruivos. Era como se ele tentasse me consolar, mas o toque dele era suave demais, quase protetor.

– Você não precisa seguir por esse caminho – disse ele, a voz baixa, quase um sussurro.

Eu me levantei e, sem aviso, sentei-me no colo dele. Ele ficou paralisado,seu corpo inteiro tenso como uma corda prestes a arrebentar. Encolhi-me como uma criança, escondendo o rosto na curva do seu pescoço. Ele começou a todo custo tentar me afastar, mas eu insisti.

– Me abrace, por favor… – pedi, minha voz saindo manhosa. – Por favor, André.

— Não…..pare com isso!— me repreendeu, tentando me afastar.

Ele hesitou por um momento que pareceu eterno, mas, com relutância, envolveu-me em seus braços. O calor que senti em seu toque era reconfortante e perigoso ao mesmo tempo.

– Como decidiu se tornar padre? – perguntei, minha respiração quente tocando seu pescoço.

– É uma história longa… – respondeu ele, com dificuldade, enquanto tentava se concentrar em algo que não fosse o meu corpo tão próximo.

– Conte para mim. Eu quero ouvir.

Ele suspirou, fechando os olhos por um instante, como se tentasse afastar a ideia de que isso era errado.

—Hó Céus…! — sussurrou, respirando fundo logo em seguida.

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