Mundo ficciónIniciar sesiónAurora Whitmore
No almoço, Emily mal tocou na comida. Ela brincou com os talheres, passou a ponta do dedo na borda da taça com suco de Ruby Red, que é uma das variedades de toranja vermelha muito comum no Texas, observou o pai, depois me observou e permaneceu quieta. Magnus parecia tenso como se qualquer momento de leveza pudesse se transformar em tragédia. E isso deixava a situação mais difícil do que parecia ser. — Você não está com fome, minha linda? — perguntei olhando pra ela. Emily balançou a cabeça negativamente. — Quando fico triste, a barriga fecha — ela disse e eu senti um nó se formar na minha garganta. Magnus ergueu o olhar na mesma hora. Ele não pronunciou uma única palavra, mas eu senti o impacto que aquelas palavras de Emily causaram nele. Adultos acham que crianças não percebem o que acontece ao redor, mas crianças sentem tudo, e muitas vezes enxergam coisas que nós demoramos muito mais tempo para ver. — Bebe um pouquinho do suco. Está uma delícia — eu insisti, bebendo um pouco do suco que estava na minha taça na tentativa de anima-la. — Eu não quero — ele disse dessa vez com a voz mais baixa. Olhei para Magnus, e ele estava tentando manter a postura fria e firme de sempre, mas eu consegui perceber que a tristeza de Emily estava afetando aquela estrutura de aço que ele procurava sempre demonstrar. — Isso logo vai passar — eu disse mais para Magnus do que para Emily. Ele me olhou por alguns instantes, poucos, mas suficiente para eu compreender o que estava acontecendo dentro dele. Magnus estava tentando ajudar a filha a superar a perda da mãe, mas no fundo, nem ele mesmo sabia o que fazer. Emily voltou a brincar com os talheres. Naquele momento o meu apetite já havia desaparecido, e aparentemente o de Magnus também. Ele cruzou os talheres dentro do prato e se afastou um pouco da mesa ficando pensativo. Eu fiz o mesmo e aguardei o momento certo para me retirar. Minutos depois, Magnus autorizou que saíssemos da mesa, e então levei Emily para o quarto. Sentamos na cama, cercadas de livros que pareciam novos demais para terem sido lidos. Peguei um ao acaso e comecei a ler em voz alta, inventando vozes, mudando finais, e então Emily sorriu de verdade pela primeira vez desde que cheguei. Um riso baixo, tímido, como se ainda estivesse aprendendo a usá-lo. — Você vai embora? — ela perguntou, do nada. Aquela pergunta não tinha drama, mas tinha medo. Emily temia sofrer mais uma perda, e ouvir isso tão cedo era o que eu tanto temia desde que cheguei aqui. Respirei fundo buscando as palavras certas antes de responder. Porque não era justo e correto criar expectativas numa criança que já havia sofrido com uma perda, para depois quebrá-la novamente. — Não hoje — falei sinceramente. — E amanhã? — ela insiste e me encara com os olhos arregalados. — Amanhã eu ainda estarei aqui. Ela assentiu, parecendo satisfeita apenas com essa resposta. Crianças não precisam de promessas longas, elas precisam de presença diariamente, e era isso que eu tentava oferecer a Emily. Quando ela adormeceu, fiquei ali sentada, observando seu rosto relaxado. Crianças dormindo sempre me partiram em dois. Lembrei de mim mesma aos oito anos, deitada em uma cama que não era minha, tentando não fazer barulho para não incomodar ninguém. Lembrei do dia em que aprendi que silêncio era sobrevivência. E quanto mais eu olhava para Emily mais eu me enxergava nela. Desci para a sala e encontrei Magnus sozinho, olhando pela janela. Ele não parecia confortável com a própria casa, era como alguém que construiu tudo, mas não sabe mais onde se encaixa. — Ela dormiu — falei. — Obrigado. A palavra saiu dura, não por falta de gratidão, mas por falta de prática. — Ela sente falta da mãe — arrisquei prolongar o assunto. O maxilar dele se contraiu. — Eu sei — ele responde friamente sem olhar para mim. — Mas ela não fala sobre isso — insisto. E novamente tenho uma resposta ácida e cortante. — Nenhum de nós fala. O silêncio que se seguiu foi pesado, mas honesto. — Crianças precisam de espaço para sentir — continuei. — Fingir que não sente nada dói ainda mais. Agora ele se virou em minha direção e me encarou com intensidade. Por um segundo, achei que ia mandar eu cuidar da minha vida. Em vez disso, perguntou: — Você fala por experiência? Sorri, sem humor. — Sempre senhor Blackwood. Magnus não insistiu no assunto, talvez ele tenha percebido que certas dores não se arrancam com perguntas, ou já saiba o suficiente sobre a mulher que cuidará de sua filha até o momento que ele desejar. — Com licença. Se precisar de alguma coisa estarei no meu quarto — falo e me afasto. Sinto o olhar dele fixo em mim enquanto subo os degraus da escada. Não arrisco olhar para confirmar as minhas suspeitas, porque por hoje a minha cota de problemas já havia terminado. Horas depois, eu estava deitada, tentando buscar um sono que não chegava quando ouvi um barulho próximo ao quarto. Era Emily que havia tido um pesadelo. Ela acordou chorando, mas sem gritar. Rapidamente corri para o quarto e a encontrei sentada perto da cabeceira da cama, abraçando os joelhos. — Ela foi embora de novo — ela murmurou. Sentei na cama e a puxei para perto. — Eu estou aqui, minha linda — eu disse, beijando o alto da sua cabeça. Emily se agarrou a mim como se eu fosse uma âncora, automaticamente os meus olhos se encheram de lágrimas, e tudo o que eu queria era garantir que tudo ficaria bem, e que eu sempre estaria ali com ela e para ela Magnus apareceu na porta e ficou parado por um tempo, parecendo inseguro, como alguém que não sabe se tem permissão para entrar no próprio quarto. Fiz um gesto silencioso para que se aproximasse. Ele entrou, mas sentou do outro lado da cama, com o corpo rígido. Emily estendeu a mão para ele. — Fica, papai Ele hesitou por um instante. Depois segurou a mão dela com cuidado, como se pudesse quebrá-la. — Estou aqui — ele disse. E naquele momento, vi algo mudar. Emily voltou a dormir entre nós dois, segurando nossas mãos como se tivesse medo de que qualquer um soltasse primeiro. Fiquei ali, imóvel, sentindo o peso daquela confiança silenciosa que ela havia depositado em mim. Eu sabia que aquilo era perigoso, que Magnus não queria essa proximidade e que em algum momento alguém iria se machucar. Mas também sabia que aquela criança precisava de alguém que ficasse, e talvez, eu também precisasse. Quando finalmente saí do quarto, meu peito doía de um jeito estranho, não era tristeza, era reconhecimento de tudo o que estava acontecendo. A criança silenciosa não era só a Emily, aquela mesma criança ainda morava em mim, e o mais assustador era perceber que, naquela casa grande demais, pela primeira vez em anos, ela estava começando a se sentir menos sozinha, e no fundo eu também me sentia assim.






