Mundo de ficçãoIniciar sessãoAurora Whitmore
Emily não fala muito quando estamos sozinhas, talvez pelo fato de ainda estar me conhecendo de verdade. Ela sorri, corre, aponta coisas no rancho e faz perguntas pequenas do tipo que crianças fazem quando ainda acreditam que o mundo é seguro, mas há silêncios longos entre uma coisa e outra, daqueles que são atentos e observadores, como se ela estivesse sempre avaliando se pode confiar em mim. Eu não a julgo por isso, até porque, eu só consigo reconhecer isso nela porque eu também já fui assim. Infelizmente as dores e frustrações da vida automaticamente tem o poder de nos blindar para evitar novas decepções e perdas. E essa pequena já perdeu muitas coisas nessa vida. Perdeu a pessoa que deveria estar ao seu lado em todos os aniversários, em todos os primeiros dias de aula, em todas as noites de tempestade. Perdeu o colo que acalmava seus medos e a voz que provavelmente cantava para ela dormir. Emily tem apenas sete anos, mas seus olhos carregam uma tristeza que nenhuma criança deveria conhecer tão cedo. Às vezes, quando ela acha que eu não estou olhando, seu sorriso desaparece por alguns segundos. É como se uma lembrança atravessasse seu coração de repente. Então ela fica quieta, distante, observando algum ponto qualquer do horizonte. Nesses momentos, eu percebo o tamanho da ausência que Eleanor deixou para trás. Eu nunca conheci sua mãe, mas conheço o amor dela através da filha que deixou. Está nos pequenos gestos, na educação impecável, na forma delicada como Emily segura a mão de alguém, na gentileza com que trata os animais do rancho. A mãe de Emily pode não estar mais aqui, mas ainda existe em cada pedaço daquela menina. Talvez seja por isso que eu me pego sentindo uma vontade absurda de protegê-la. Não porque ela precise de alguém para substituir sua mãe, ninguém poderia fazer isso, mas porque toda criança merece pelo menos um lugar seguro para descansar o coração. E se eu puder ser isso para Emily, mesmo que apenas por algumas horas do dia, então já terá valido a pena. Quando ela se aproxima de mim para mostrar uma flor que encontrou ou me chama apenas para que eu veja algo que considera importante, sinto que estou recebendo um presente silencioso, pequeno, quase imperceptível, um pedaço da confiança dela, e confiança, para alguém que já conheceu a perda, vale mais do que qualquer coisa. Por isso não tenho pressa e não me importo com os silêncios e com a distância cautelosa que ela ainda mantém. Eu vou esperar porque algumas flores desabrocham devagar, e algumas crianças, depois que seus corações são partidos pela primeira vez, precisam ter certeza de que não serão abandonadas novamente. Na primeira manhã no rancho, acordei cedo demais. O Texas ainda bocejava, e o céu tinha aquele tom rosado que só existe antes do calor dominar tudo quando ouvi passos leves no corredor e, quando abri a porta devagar, encontrei Emily parada ali, abraçando a boneca quebrada. — Você também não consegue dormir? — perguntei em voz baixa. Ela balançou a cabeça negativamente. Não parecia assustada, ela parecia acostumada com aquela rotina dolorosa e silenciosa. Sentamos no chão, encostadas na parede. Eu não perguntei nada, porque aprendi cedo que crianças machucadas falam quando querem, não quando são pressionadas. Peguei a boneca com cuidado e comecei a mexer nela como se estivesse consertando algo invisível. — Ela era da mamãe — Emily disse, de repente. O coração apertou no mesmo instante. — Era? — A mamãe dizia que ela precisava de amor pra não quebrar de vez. Engoli em seco. — E você acha que ela quebrou? Emily deu de ombros. — Papai diz que todo mundo quebra um pouco. Aquela frase não saiu da boca de uma criança de sete anos. Saiu de alguém que já perdeu demais, e que inconscientemente, temia perder de novo. Eu me espelhava na Emily, porque já me senti por diversas vezes quebrada e sendo obrigada a juntar os cacos e me reconstruir sozinha. Sorri para ela, mesmo com os olhos ardendo. — Então a gente conserta juntas — falei. Não foi ali que nos conectamos, porque a nossa conexão já existia desde o primeiro momento que cheguei no rancho, mas foi a partir dali que ela decidiu me deixar ficar próxima a ela e fazer parte do seu mundo, nem que fosse por algum tempo. Passamos a manhã no jardim. Emily me mostrava coisas pequenas: uma pedra diferente, uma flor escondida, um inseto que parecia importante demais para ser ignorado. Ela falava pouco, mas quando falava era com cuidado, como se escolhesse palavras que não machucassem ninguém, e perceber isso me doeu mais do que qualquer choro, porque o silêncio dela não era timidez, e sim uma defesa. E eu sabia exatamente como era viver assim. Algum tempo depois, Magnus apareceu de longe, observando como sempre. Ele se movia como alguém que precisa manter controle até da própria respiração. Eu o enxergava como um homem alto, sério, e que sempre carregava o peso do mundo nos ombros largos. Mas havia algo nele que gritava perda, não aquela perda que se lamenta em voz alta, mas a que se enterra fundo para não morrer com ela. Emily correu até ele, puxou sua mão e tentou arrastá-lo para perto. Ele resistiu, no início, mas acabou cedendo. Vi nos olhos dele o mesmo conflito que vejo em adultos que não sabem mais como ser gentis sem sentir culpa. Minutos depois, Magnus se afastou e Emily se aproximou de mim dizendo: — Papai não gosta de silêncio — Emily comentou comigo em voz baixa, como se fosse um segredo. — E você gosta? — perguntei no mesmo tom. Ela pensou por alguns segundos e então respondeu: — Eu gosto quando o silêncio não machuca. Ouvir aquilo foi como levar um soco lento no estômago. Como era possível uma criança tão encantadora feito a Emily carregar o uma carga tão pesada nas costas? Durante toda manhã fiquei pensando em suas palavras, e como elas haviam mexido comigo. E cheguei a uma conclusão: enquanto estiver aqui farei de tudo para tornar os dias dessa pequena, leves e felizes. Nem que para conseguir isso eu tivesse que enfrentar o senhor das trevas, Magnus Blackwood.






