4: A Babá Errada

Magnus Blackwood

Permaneço na mesma posição, observando tudo ao redor, mas principalmente a agente do caos que insiste em me desafiar.

Quando Aurora menciona que minha filha precisa de mais risadas, sinto o golpe antes de entender por quê. O que me incomodou não foi o que ela dizia, mas é o fato de estar certa, e eu odeio quando alguém acerta sobre mim sem ter o direito.

O silêncio que se segue não é educado. É tenso. Eu termino o jantar mais cedo do que pretendia e carrego Emily até o quarto. Enquanto a ajeito na cama, ela pergunta se Aurora vai ficar. Não respondo de imediato, pois aprendi a não prometer o que não sei se posso cumprir.

— Vamos ver — digo.

Ela aceita, mas eu sei que já criou expectativa, e o ruim em criar expectativas é que elas quase sempre machucam.

Saio do quarto de Emily, e sigo até o escritório. Fecho a porta, me sirvo de uma dose de Bourbon e me aproximo da janela observando todo o rancho.

— Construí um grande império, mas de nada serviu para proteger a minha família — falo baixo para mim mesmo.

Bebo o líquido do copo de uma só vez que descem queimando a garganta, mas que não serve para queimar as minhas malditas lembranças.

Permaneço por algum tempo preso em meus pensamentos. E quando saí, no corredor, encontro Aurora saindo do quarto de Emily. Ela me encara sem baixar os olhos, e essa é outra falha grave de comportamento, mas não digo nada, porque o meu cansaço pesa mais do que a minha irritação.

— Não confunda as coisas — aviso. — Minha filha se apega fácil.

Ela cruza os braços, mas não recua, e muito menos pede desculpas.

— E o senhor? — pergunta. — Também se apega fácil?

A pergunta me atinge em cheio. Não pela audácia, mas pela precisão. Há anos ninguém me pergunta nada que importe de verdade.

A encaro por alguns instantes, penso em dar uma resposta a altura daquela petulância, mas não respondo. Por hora é melhor que ela pense que pode me desafiar, mas no momento certo cortarei as asas desse casulo antes que se torne uma borboleta e consiga voar. Automaticamente dou as costas, porque nesse momento o silêncio é a única defesa que ainda me resta.

Mais tarde, sozinho no escritório, tento trabalhar. Eu abro relatórios, faço anotações e atendo ligações. Tudo funciona como sempre, mas eu sei que algo está errado, porque a casa não está no ritmo habitual, ela parece estar acordada, e isso não é bom.

Sirvo um copo de Bourbon, dessa vez encho até a borda, e líquido queima ao descer, mas não resolve nada. Fecho os olhos por um instante e vejo Eleanor, eu sempre a vejo, às vezes sorrindo, em outros momentos a vejo no hospital e também no momento exato em que tudo acabou.

Amar foi o erro que me trouxe até aqui. Aurora não sabe disso. Não sabe que cada riso que oferece à minha filha carrega o risco de outra perda e tão pouco sabe que eu não sobreviveria a mais uma, ou talvez ela saiba e por isso veja mais do que deveria.

Ouço risadas vindo do andar de cima. Aurora canta algo desafinado e Emily acompanha. A música atravessa o corredor como algo vivo e eu fecho os olhos com força.

"Emily deveria estar dormindo."

Penso, e por um instante evito tomar uma atitude brusca, porque isso assustaria a minha filha, e ela já tinha traumas demais.

— Não — fecho a mão sobre a mesa. — Não posso permitir isso.

Quando fico de pé e dou passos firmes até a porta com a intenção de pôr ordem na situação, percebo que o silêncio voltou. Permaneço ali por algum tempo para me certificar de que tudo estava em ordem, até ouvir a porta do quarto de Emily abrir e ser fechada instantes depois.

Mais tranquilo volto para a minha cadeira, e ali permaneço a noite inteira tentando encontrar uma maneira de me livrar da petulância e afronta de Aurora Whitmore, para assim ter a minha paz e sossego de volta.

No dia seguinte, me arrumo cedo, bebo apenas um café forte e vou ao estábulo. Lá sempre foi o lugar preferido de Eleanor e o meu também, porque os cavalos não pedem explicações e não fazem perguntas. Eles apenas funcionam com disciplina e rotina, e eu gosto disso.

Aurora aparece pouco depois, vestida de maneira simples, cabelo preso de qualquer jeito e não parece intimidada por nada. Ela apresenta Emily aos animais como se aquilo fosse um espetáculo. Eu observo tudo de longe tentando manter distância, mas com essa mulher tudo se tornou impossível, principalmente quando o assunto são regras.

— Achei que magnatas não acordassem cedo — ela comenta, aproximando-se.

— Achei que babás dormissem mais — respondo.

Ela sorri facilmente, e sempre é o mesmo tipo de sorriso. Não é sedutor, mas é desarmante, e isso é muito pior.

Quando Emily corre pelo campo, sorrindo, sinto algo se mover dentro de mim. Um desconforto antigo e um peso no peito. E para minha desgraça Aurora percebeu.

"Essa mulher parece ler pensamentos. Isso é uma maldição."

— Ela está feliz — Aurora diz, como se fosse algo simples.

— Felicidade é passageira — respondo.

— Mas necessária — ela retruca de volta.

Olho para ela de verdade pela primeira vez desde que chegou, e agora eu vejo algo além da leveza, do sorriso fácil e da ousadia que ela transmite. Agora eu vejo firmeza, convicção e uma força que não depende de status e nem de dinheiro. E isso… isso é muito perigoso.

Aurora Whitmore não se encaixa na minha casa, na minha rotina e tão pouco se encaixa na vida que construí para sobreviver, e, talvez seja exatamente por isso que ela ameaça destruir tudo o que eu levei anos para manter de pé. É nítido que ela é a babá errada e uma escolha mais errada ainda, mas, pela primeira vez em muito tempo, eu não tenho certeza se ainda sei o que é certo. E pior, é que pela primeira vez eu não tenho a convicção de que afastá-la do Rancho Blackwood seja a melhor coisa a se fazer.

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