Mundo ficciónIniciar sesiónMagnus Blackwood
Eu só queria recuperar o silêncio e o controle que mantinham Emily segura, mas a mulher que insistia em desafiar cada regra da casa já transformava risadas em ameaças e cada olhar dela em um risco que eu não podia calcular. Permaneço na mesma posição depois do jantar, observando tudo, principalmente a agente do caos que não baixa a guarda. Quando Aurora diz que minha filha precisa de mais risadas, o golpe chega antes da compreensão. O que me incomoda não é a frase. É o fato de ela estar certa. E eu odeio quando alguém acerta sobre mim sem ter o direito. O silêncio que se segue não é educado. É tenso. Termino a refeição mais cedo do que pretendia. Carrego Emily até o quarto. O corpo dela é leve, quente, familiar. Ajeito o cobertor. Ela segura minha mão um segundo a mais. — Aurora vai ficar, papai? Não respondo de imediato. Aprendi a não prometer o que não sei se posso cumprir. — Vamos ver. Ela aceita. Mas eu sei que já criou expectativa. E expectativas quase sempre machucam. Saio do quarto e sigo para o escritório. Fecho a porta. Sirvo uma dose generosa de bourbon. O líquido queima a garganta, mas não queima as lembranças. Aproxima-me da janela. O rancho se estende na escuridão, torres de petróleo ao longe como sentinelas. — Construí um império inteiro — murmuro — e de nada serviu para proteger a minha família. Bebo de uma vez. O calor desce, mas Eleanor continua ali: sorrindo na cozinha, deitada no hospital, imóvel no banco do carro com o vestido branco manchado. Amar foi o erro que me trouxe até aqui. Aurora não sabe disso. Não sabe que cada riso que oferece à minha filha carrega o risco de outra perda. E eu não sobreviveria a mais uma. Saio do escritório. No corredor encontro Aurora saindo do quarto de Emily. Ela me encara sem desviar. Outra falha grave. Não digo nada. O cansaço pesa mais que a irritação. — Não confunda as coisas — aviso, a voz baixa. — Minha filha se apega fácil. Ela cruza os braços. Não recua. Não pede desculpas. — E o senhor? Também se apega fácil? A pergunta me atinge em cheio. Não pela audácia. Pela precisão. Há anos ninguém me pergunta nada que importe de verdade. Encaro-a por alguns segundos. Penso em responder na mesma moeda. Em cortar as asas antes que ela aprenda a voar. Em vez disso, dou as costas. O silêncio ainda é a única defesa que me resta. Mais tarde, sozinho de novo, tento trabalhar. Abro relatórios. Faço anotações. Atendo ligações. Tudo funciona como sempre. Mas a casa não está no ritmo habitual. Parece acordada. E isso não é bom. Sirvo outro copo. Desta vez até a borda. O líquido queima, mas não resolve. Fecho os olhos e vejo Eleanor. Sempre a vejo. Às vezes sorrindo. Às vezes no hospital. Às vezes no segundo exato em que tudo acabou. Ouço risadas vindo do andar de cima. Aurora canta algo desafinado. Emily acompanha. A música atravessa o corredor como algo vivo. Fecho os olhos com força. Emily deveria estar dormindo. Levanto. Passos firmes até a porta. Intenção clara de pôr ordem. Então o silêncio volta. Fico parado no corredor, ouvindo. A porta do quarto de Emily abre e fecha. Só então retorno à cadeira. Passo a noite inteira tentando encontrar uma maneira de me livrar da petulância de Aurora Whitmore e recuperar a paz que ela está desmontando peça por peça. No dia seguinte acordo cedo. Café forte. Nenhuma comida. Vou ao estábulo. Lá sempre foi o lugar preferido de Eleanor. E o meu. Os cavalos não pedem explicações. Não fazem perguntas. Funcionam com disciplina e rotina. Eu gosto disso. Aurora aparece pouco depois. Roupa simples. Cabelo preso de qualquer jeito. Nenhuma intimidação no jeito de andar. Apresenta Emily aos animais como se aquilo fosse natural. Eu observo de longe, tentando manter distância. Com essa mulher a distância se tornou impossível. — Achei que magnatas não acordassem cedo — ela comenta, aproximando-se. — Achei que babás dormissem mais — respondo. Ela sorri. Sempre o mesmo tipo de sorriso. Não é sedutor. É desarmante. E isso é pior. Emily corre pelo campo, cabelo solto, rindo. Algo se move dentro de mim. Um desconforto antigo. Um peso no peito. Aurora percebe. Claro que percebe. Essa mulher parece ler o que eu não digo. — Ela está feliz — diz, como se fosse simples. — Felicidade é passageira. — Mas necessária. Olho para ela de verdade pela primeira vez desde que chegou. Além da leveza e da ousadia, vejo firmeza. Convicção. Uma força que não depende de status nem de dinheiro. E isso é perigoso. Aurora Whitmore não se encaixa na minha casa, na minha rotina, na vida que construí para sobreviver. Talvez seja exatamente por isso que ela ameaça destruir tudo o que levei anos para manter de pé. É a babá errada. A escolha mais errada. Mas pela primeira vez em muito tempo não tenho certeza se ainda sei o que é certo. E pior: não tenho a convicção de que afastá-la seja a melhor coisa a fazer. Ela se abaixa para ajudar Emily a montar o pony mais calmo. As mãos dela firmes na cintura da menina. O sol da manhã pega o perfil delas. Emily ri alto quando o animal dá o primeiro passo. O som corta o ar limpo do estábulo. Eu aperto a mão no cabresto de couro até a costura marcar a palma.






