P.D.V de KaidenA casa estava mais silenciosa do que o normal quando cheguei. Um silêncio espesso carregado. Como se algo no ar estivesse esperando para acontecer.Mal fechei a porta atrás de mim, Gustav, nosso mordomo, apareceu no corredor com o semblante tenso.— Seu pai pediu pra você ir até o escritório assim que chegasse.Assenti, engolindo o nó que começava a se formar no estômago. O corredor até o escritório parecia mais longo do que nunca. Cada passo ressoava pesado, como se meu corpo já soubesse que algo importante estava prestes a acontecer — mesmo que minha mente tentasse negar.Bati na porta uma vez.— Entre — disse a voz grave do meu pai.Abri. Kayla já estava lá dentro.Meu peito apertou só de vê-la. Sentada na poltrona ao lado da mesa, os olhos arregalados, como se lutasse para entender algo grande demais. Richard estava de pé, braços cruzados, rosto mais sério do que o habitual. Quase sombrio.— Senta, filho — ele disse, apontando para a cadeira vazia à minha frente.F
P.D.V de KaidenMeu lobo foi desperto há três anos atrás, eu tava completando dezessete anos, foi incrível quando o descobri a primeira vez, mas meu pai e minha mãe acharam ele diferente. Meu pai sorriu, minha mãe ficou mais cautelosa e cuidadora e tudo mudou. As garotas também ficaram ao meu redor como mariposas em volta de um lampião. FLASHBACK A lua cheia pairava alta, pesada, derramando sua luz prateada sobre a clareira ancestral. Eu já sabia o que esperar. Desde que me entendo por gente, fui preparado para aquele momento. Meu pai dizia que lobos como eu não esperavam pelo chamado — nós o sentíamos desde o ventre. E ele estava certo.Naquela noite, o chamado era ensurdecedor dentro de mim.Minha mãe me envolveu num abraço silencioso antes de se afastar apenas o necessário, posicionando-se ao lado do meu pai. Os dois estavam ali, firmes, como pilares ancestrais. Meus pais não me protegiam daquela dor — eles me honravam por enfrentá-la.Eu respirei fundo.A pulsação se acelerou, e
P.D.V de KaidenE então ela chegou. E tudo dentro de mim mudou. Tudo em Perses mudou também.O cheiro dela era inacreditável. Não era apenas agradável — era viciante, primordial, como o perfume de uma floresta viva depois da tempestade. Um chamado ancestral. O calor que emanava de seu corpo me aquecia por dentro, derretendo as paredes que eu havia construído ao redor do meu instinto. Mas o que me quebrava por completo era a voz dela.A voz de Kayla tinha o poder de acalmar a fúria de Perses com um sussurro. Ela pacificava minha alma quando eu estava à beira do colapso. E mesmo que sua loba ainda dormisse em silêncio dentro dela, eu sentia que ela me reconhecia. Que me queria.Eu a queria com cada fibra do meu ser. E Perses?Perses a desejava com um fervor que jamais tivera antes. Ele a escolheu no primeiro instante.Faltava apenas uma semana para o despertar da loba dela, ela completaria dezessete anos e haveria a lua de sangue. E nesse tempo, Stella ainda rondava. Tentava manter sua
P.D.V de Stella SullivanEles chegaram juntos mais uma vez.Kayla, com aquele sorriso fácil e a risada leve, andando ao lado de Kaiden como se estivessem em seu próprio mundinho particular. Ela brincava, empurrava de leve o ombro dele, e ele sorria, aquele sorriso que costumava ser só meu, se bem que, analisando bem, ele nunca sorria assim para mim. Meu peito apertou de novo.Eu estava ali, parada no pátio, fingindo conversar com minhas amigas, mas meus olhos estavam fixos nos dois. Desde que Kayla apareceu — ou melhor, desde que foi trazida de volta como parte da família Prescott — tudo começou a mudar. Ela chegou como quem não queria nada, frágil, perdida e agora está ali, dominando os olhares, o espaço, o tempo dele. Do meu Kaiden.Nós namoramos por quase um ano. Eu conheço o cheiro dele, o toque dele, os humores dele. Eu conheço o jeito que ele olha quando está prestes a se transformar, o modo como seu lobo, Perses, reage ao toque. Ele era meu. Era.Eu me preparei a vida inteira p
P.D.V de Kayla Ao sair da escola, dei de cara com Kaiden.Meu humor já estava um caos, e o nó no meu peito parecia apertar ainda mais.Como ele pôde esconder de mim que namorava a Stella? Ou que namorou? Já nem sei mais, afinal ela falou que ainda está com ele.Desde o dia em que a conheci — aquele dia maldito —, meu coração ficou com dúvidas e uma sombra se instalou dentro de mim.Uma inquietação que nunca desapareceu. Nenhuma outra garota jamais ousou tocá-lo com tanta intimidade, falar com ele com tanta familiaridade. Só ela.E agora tudo fazia sentido.Poucos minutos antes de encontrá-lo, meu celular vibrou repetidamente, como se estivesse tentando me alertar de uma tragédia iminente.Quando peguei o aparelho, uma enxurrada de prints saltou na tela.Cada imagem era uma facada no meu orgulho, uma confirmação cruel das palavras venenosas que Stella me lançara mais cedo naquele mesmo dia.As mensagens gritavam diante dos meus olhos, em letras afiadas que queimavam como ácido:"— Ste
Chegada de Kayla ao Orfanato St. Joseph’s Haven for ChildrenA neblina pairava baixa naquela manhã fria de outono, envolvendo em silêncio os arredores do St. Joseph’s Haven for Children, um orfanato católico situado nos arredores de uma pequena cidade americana. Os portões de ferro se abriram com um rangido suave, dando passagem ao carro preto do serviço social que avançava lentamente pela alameda coberta de folhas secas.Nos braços da assistente social, uma bebê recém nascida, observava o mundo com olhos azuis límpidos, grandes e silenciosos como um lago em pleno inverno. Seu cabelo loiro, puxado para um tom quase cobre, caía em mechas desalinhadas sobre a testa, contrastando com a palidez impecável de sua pele — branca como porcelana. A única coisa que apertava contra o corpo com força era um ursinho de pelúcia e em seu pescoço um colar fino em ouro, em sua roupa ainda continham marcas de sangue.Na escadaria principal, Irmã Margaret — de hábito azul-escuro e olhar maternal — aguard
Quando Kayla completou quinze anos, o pátio interno do St. Jude se encheu de luzes douradas e flores brancas, cuidadosamente organizadas pelas freiras e pelas colegas de classe. Era uma celebração simples, mas feita com amor. As irmãs haviam pedido doações e preparado tudo em segredo. Quando ela entrou no salão improvisado, de vestido azul claro e os cabelos presos num coque solto com pequenas pérolas, todos ficaram em silêncio por um instante.Ela estava deslumbrante — não só por sua beleza única, mas pela força silenciosa que irradiava. Como uma rainha selvagem em seu momento de glória.Houve música, risos, danças tímidas. E no fim da noite, enquanto Kayla observava a lua cheia no jardim do colégio, Ethan, um colega de turma e amigo próximo, se aproximou com as mãos trêmulas.— Eu… preciso te dizer uma coisa — disse ele, desviando o olhar por um segundo. — Eu te amo, Kayla. Desde o primeiro dia em que você chegou. Você me inspira. Me desafia. Me faz querer ser alguém melhor, e quand
Na manhã seguinte, Kayla desceu as escadas sentindo-se deslocada, como se ainda estivesse dentro de um sonho estranho. A casa era grande demais, silenciosa demais — e cada detalhe parecia saído de uma revista de luxo. Mas era real. A nova vida que acabara de começar.Ao atravessar o arco da sala de jantar, seus olhos encontraram a mesa cuidadosamente posta: sucos, frutas frescas, croissants ainda quentes. E à mesa, os três a aguardavam. O homem e a mulher que haviam dito ser seus pais… e o garoto que mal dissera uma palavra na noite anterior.A mulher de cabelos loiros cor de cobre se levantou com suavidade e sorriu, caminhando até ela.— Bom dia, querida. Sei que ontem foi muita coisa para você e que nem tivemos tempo de nos apresentar corretamente — disse com uma voz suave, porém firme. — Meu nome é Eleanor Prescott. E eu sou sua mãe.O homem ao lado colocou o guardanapo sobre o colo e levantou-se também, vindo em sua direção com passos contidos.— E eu sou Richard Prescott, seu pai