POV — Daniel
A porta da sala de reuniões fechou-se atrás de mim.
Por alguns segundos, permaneci parado no corredor, olhando para o celular que ainda estava na minha mão.
A chamada tinha durado menos de um minuto.
Tempo suficiente para mudar completamente o meu humor.
Não era o tipo de ligação que eu recebia durante uma reunião. Não naquele número. Não daquela forma.
Desbloqueei a tela e olhei novamente para o registro da chamada.
Número desconhecido.
Tentei retornar.
Chamou uma vez.
Duas.
Na terceira, caiu na caixa postal.
— Ótimo...
Passei a mão pelo rosto e respirei fundo.
Eu deveria voltar para a sala.
Mayla provavelmente estava me esperando.
E eu conhecia aquele olhar dela. Não precisava de palavras para saber que, assim que eu entrasse, ela perguntaria o que tinha acontecido.
Ela sempre percebia.
Talvez fosse uma das coisas que eu mais amava nela.
Mayla podia passar horas analisando contratos, números e relatórios, mas comigo bastava um segundo.
Ela me conhecia.
Olhei através do vidro da sala.
Ela estava sentada à cabeceira da mesa, ouvindo um dos diretores falar. A postura impecável, os cabelos presos de maneira elegante, uma das mãos apoiada sobre o documento enquanto a outra girava distraidamente uma caneta entre os dedos.
Minha esposa.
Ainda era estranho pensar naquela palavra.
Não porque eu não a amasse.
Mas porque, às vezes, eu ainda me pegava olhando para ela e pensando que tinha sido a melhor coisa que já havia acontecido comigo.
Sorri sozinho.
O celular vibrou novamente.
Dessa vez, uma mensagem.
Precisamos conversar. Pessoalmente. É importante.
Fiquei olhando para aquelas palavras.
Não havia nome.
Apenas a mensagem.
Meu primeiro impulso foi ignorar.
Meu segundo foi lembrar que a pessoa conhecia meu número particular.
E isso não era normal.
Digitei:
Quem é?
A resposta veio quase imediatamente.
Venha sozinho.
Franzi a testa.
Aquilo estava ficando estranho.
Guardei o celular no bolso.
Eu poderia chamar alguém.
Poderia pedir para a segurança verificar o número.
Poderia simplesmente não ir.
Mas havia alguma coisa naquela mensagem que me incomodava.
Não medo.
Curiosidade.
E talvez tenha sido esse o meu erro.
Voltei para a sala.
Mayla levantou os olhos assim que entrei.
— Está tudo bem?
A pergunta veio baixa, apenas para mim.
Aproximei-me dela e me inclinei discretamente.
— Preciso sair por alguns minutos.
Ela estreitou os olhos.
— Agora?
— Agora.
— Daniel...
Segurei a mão dela por baixo da mesa.
— Eu volto logo.
O olhar dela suavizou.
— Promete?
Sorri.
— Prometo.
Inclinei-me e beijei sua testa.
Foi um gesto simples.
Tão simples que, naquele momento, eu não poderia imaginar que seria a última vez que faria aquilo.
— Termina a reunião sem mim — murmurei.
— Você vai me contar o que aconteceu?
Hesitei por um instante.
— Quando eu voltar.
Ela não gostou da resposta.
Eu sabia.
Mas soltou minha mão.
— Então volta rápido.
— Sempre.
Saí.
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Quarenta minutos depois, eu estava dirigindo pela rodovia.
O céu havia escurecido.
A chuva começava a cair, fina no início, aumentando aos poucos.
Meu celular permanecia no banco ao lado.
Nenhuma nova mensagem.
Tentei ligar novamente para o número desconhecido.
Nada.
— Quem diabos é você?
A estrada estava relativamente vazia.
Aumentei o volume do rádio, tentando afastar a sensação incômoda que havia se instalado no meu peito.
Foi quando percebi os faróis.
Um carro vinha atrás de mim.
Rápido demais.
Olhei pelo retrovisor.
O veículo se aproximou.
Não reduzi.
Ele continuou vindo.
— O que você está fazendo?
O carro entrou na faixa ao lado.
Por um instante, pensei que fosse apenas ultrapassar.
Então ele voltou para a minha frente.
Bruscamente.
Pisei no freio.
O pneu perdeu aderência no asfalto molhado.
— Merda!
Girei o volante.
O carro derrapou.
A traseira bateu na proteção lateral da ponte.
O metal rangeu.
Meu coração disparou.
Tentei recuperar o controle.
Não consegui.
O carro atravessou a barreira.
Por uma fração de segundo, tudo ficou silencioso.
Eu vi a chuva.
As luzes distantes da cidade.
O vazio abaixo de mim.
E pensei em Mayla.
Mayla.
Meu carro despencou.
O impacto contra a água apagou tudo.
E, depois...
silêncio.