Mundo de ficçãoIniciar sessãoLORENA MARTINS
— Lorena... o que é esse papel na sua mão? Meu coração acelerou. Amassei rapidamente o exame e o escondi no bolso do casaco antes que Rafael tivesse curiosidade em ler. — É apenas um orçamento da nova galeria que estamos projetando — menti, tentando parecer cansada em vez de apavorada. Rafael pareceu acreditar. Um sorriso surgiu em seus lábios e ele se aproximou para beijar minha bochecha. — Você chegou cedo hoje, amor. — Estou com muita dor de cabeça. Achei melhor vir descansar um pouco. — Está trabalhando demais outra vez — ele comentou, como se realmente estivesse preocupado comigo. — Eu sempre digo que você precisa diminuir o ritmo. Se eu não fizer meu trabalho, quem fará? Minha sogra Cássia, surgiu no alto da escada. Ela estava hospedada conosco havia alguns dias. Desceu lentamente, segurando o corrimão e olhando para mim como se minha presença a incomodasse. — Que bom que chegou. Já estava me perguntando que horas teríamos jantar nesta casa. Olhei para o relógio em meu pulso. Ainda não era nem seis da tarde. — Eu acabei de entrar. — E daí? Já que chegou mais cedo, vá preparar alguma coisa. Rafael passou o dia trabalhando e merece encontrar comida pronta em casa. A injustiça daquela frase me irritava. Rafael havia ficado na empresa por menos de duas horas. Chegara perto do almoço, participara de uma reunião e saíra logo depois. Eu, por outro lado, trabalhara durante todo o dia, mas ninguém parecia se importar com o meu cansaço. Rafael não disse nada para me defender. Quando meu olhar encontrou Bianca, ela se levantou do sofá imediatamente. Seu rosto demonstrava preocupação enquanto se aproximava de mim. — Deixa que eu faço o jantar. A Lorena não parece estar bem. — Não precisa — murmurei. — Claro que precisa — minha sogra rebateu. — Olhe pra você. Tá com uma cara péssima! — É só uma dor de cabeça. Bianca tocou meu braço com delicadeza e sorriu compreensiva. — Vá descansar, amiga. Vou fazer aquela massa de que o Rafael gosta. Minha sogra abriu um sorriso satisfeito. — Você é um anjo, Bianca. Pelo menos alguém nessa casa sabe cuidar de uma família. A crítica foi bem direta, mas engoli a resposta. Rafael voltou a brincar com Leo, como se o comportamento da mãe fosse perfeitamente aceitável. — Imagina... — Bianca disse, colocando uma mecha de cabelo na orelha, envergonhada. — Preparar o jantar é o mínimo que posso fazer enquanto vocês estão me hospedando. Foi naquele momento que lembrei do tempo em que ela estava instalada em nossa casa. Bianca chegara nove dias antes. Primeiro, contou que um cano havia estourado em seu apartamento e inundado parte dos cômodos. Quatro dias depois, quando questionei, ela disse que o vazamento provocara mofo nas paredes. Desde então, alegava que a manutenção ainda não havia liberado o imóvel. Sempre surgia um problema novo que a impedia de voltar. Olhei para ela com mais atenção. A mala continuava perto da escada, mas todas as roupas já estavam no quarto de hóspedes. Seus produtos ocupavam o banheiro. Até os alimentos de que gostava estavam guardados em nossa cozinha. Ela não parecia uma visita. — Quando você pretende voltar pra sua casa, Bianca? — perguntei. — Já passou mais de uma semana. O sorriso dela vacilou. Seus olhos ficaram imediatamente marejados, como se eu tivesse acabado de expulsá-la. — Eu não sabia que a minha presença estava incomodando tanto. Se você me quiser fora daqui, posso procurar um hotel — respondeu com a voz trêmula como se pudesse chorar a qualquer minuto. — Só não sei se vou conseguir pagar tantos dias. O conserto do apartamento já está custando mais do que imaginei. — Que pergunta foi essa, Lorena? — Rafael se levantou, tocando o ombro de Bianca para consolá-la. — Uma pergunta normal. Bianca disse que ficaria dois dias. Já se passaram nove. — Justifiquei, sem tirar os olhos da sua mão esfregando o ombro dela, enquanto Bianca fungava. — E qual é o problema? Temos espaço de sobra. Bianca tem cuidado de mim, do Leo e até da minha mãe enquanto você passa o dia inteiro no escritório — Rafael declarou. — Ela não tá incomodando ninguém. A frase doeu mais do que deveria. — Eu passo o dia no escritório trabalhando pela nossa empresa. — Ninguém está criticando o seu trabalho — ele respondeu, embora fosse exatamente o que estava fazendo. — Mas não precisa descontar seu estresse na Bianca. Minha sogra se aproximou e colocou a mão no outro ombro de Bianca. — Você não precisa ir a lugar nenhum, querida. Esta casa também pertence ao meu filho. Pode ficar pelo tempo que for necessário. — Obrigada — Bianca sussurrou, enxugando uma lágrima que nem sequer chegou a cair. Leo correu até ela e abraçou suas pernas. — Eu quero que a tia Bibi more aqui pra sempre! Bianca se abaixou e beijou o rosto dele. — Eu também adoro ficar com você, meu bebê. Meu bebê... senti algo estranho ao ouvi-la chamá-lo daquela maneira. Em qualquer outro dia, eu não teria dado importância. Bianca era madrinha de Leo e o acompanhava desde que ele nasceu. Mas agora tinha no bolso um exame afirmando que eu não era a mãe dele. E Leo tinha muita semelhança com Bianca. — Façam o que quiserem — murmurei, cansada. Subi as escadas. Nenhum deles tentou me impedir. Entrei no banheiro e fiquei debaixo do chuveiro por vários minutos, deixando a água quente cair sobre mim. Minha cabeça realmente doía, mas não era por causa do trabalho. Depois do banho, peguei o exame e escondi no fundo da gaveta, debaixo de algumas roupas. Eu falaria com Rafael depois de investigar um pouco mais sobre isso. Talvez existisse uma explicação. Uma troca na maternidade. Um erro do laboratório. Qualquer coisa era mais fácil de aceitar do que a possibilidade louca que começava a crescer dentro da minha cabeça. Deitei apenas para descansar e acabei adormecendo. Quando abri os olhos novamente, o quarto estava escuro. Peguei o celular e vi que já passava das onze da noite. O lado de Rafael continuava vazio. Sentei-me na cama, ainda sonolenta. Talvez ele tivesse adormecido no sofá. Isso já acontecera algumas vezes. Coloquei o robe e saí para procurá-lo. Quando passei pelo quarto de hóspedes que Bianca ocupava, percebi que a porta estava entreaberta. Uma voz masculina veio lá de dentro. Era Rafael. Parei imediatamente e me aproximei devagar. Foi então que ouvi Rafael dizer com clareza: — Calma, meu amor. Falta pouco. Em breve, vou me livrar da Lorena.






