Mundo de ficçãoIniciar sessãoLORENA MARTINS
— Só precisa assinar aqui, amor. Rafael falou segurando a caneta diante de mim. Olhei para o espaço reservado para minha assinatura. Se eu não tivesse escutado a conversa dele com Bianca, talvez assinasse sem pensar. Eu confiava cegamente no homem com quem estava há dez anos. Mas aquele homem nunca existiu. — Vou ler os documentos primeiro — respondi. O sorriso de Rafael diminuiu. — Não precisa se preocupar. É apenas uma autorização para eu assumir a gestão. — Mesmo assim, quero ler com calma. — Você não confia em mim? A pergunta quase me fez rir. — Claro que confio, amor — menti quase vomitando por chamá-lo de "amor". — Mas estamos falando da empresa que fundamos. Não posso assinar sem entender tudo. Rafael permaneceu em silêncio por alguns segundos. Vi a irritação escondida em seu olhar, mas ele logo voltou a sorrir. — Tudo bem. Vou esperar que analise com cuidado. — Obrigada. — Só não demore. Quero começar a ajudar o mais rápido possível. Ele se inclinou para beijar minha testa. Precisei controlar o corpo para não recuar. — Estou fazendo isso por você, Lorena. — Eu sei. Rafael saiu do escritório. Assim que fiquei sozinha, guardei o documento na bolsa junto com as amostras. Antes de sair de casa, encontrei todos reunidos para o café da manhã. Bianca servia leite para Leo enquanto minha sogra cortava algumas frutas. — Dormiu bem, amiga? — Bianca perguntou, sorrindo docemente. Quem poderia imaginar que por trás desse sorriso meigo esconde tanta sujeira? — O suficiente. — Você ainda parece cansada. Posso levar o Leo para a escola hoje. — Eu quero ir com a tia Bibi! — Leo pediu imediatamente. — Sua mãe pode levar você — respondi, querendo observar sua reação. Bianca derrubou um pouco de leite sobre a mesa. — O que você disse? — perguntou, assustada. — Eu disse que posso levar o Leo. Sou a mãe dele. Ela relaxou quando percebeu que eu estava falando de mim. — Claro, amiga. Só estava tentando ajudar. — Eu quero ir com a tia Bibi! — Leo insistiu. — Ela prometeu comprar um jogo novo pra mim. — Você já ganhou um jogo essa semana. — Mas eu quero outro! — Leo, não faça birra. Leonardo cruzou os braços e fez uma expressão irritada. — Você nunca deixa eu fazer nada! Minha sogra suspirou. — Deixe o menino se divertir, Lorena. Você é muito rígida com ele. Bianca acariciou os cabelos de Leo tentando tranquilizá-lo. — Vamos fazer o seguinte: você vai pra escola com a sua mãe, te busco na saída e compramos o jogo. — Promete? — Prometo. Leo sorriu para ela. Depois, pegou a mochila e caminhou até a porta sem olhar para mim. Mais uma vez, Bianca era a pessoa boa e eu era a mãe ruim. Depois de deixar Leo na escola, fui até um laboratório particular. Entreguei as escovas de dentes e os fios de cabelo para a atendente. — Preciso de dois exames de parentesco — expliquei. — Um de paternidade e outro de maternidade. Quanto tempo demora? — Podemos entregar em dois dias. — Preciso que seja rápido. — Você pode receber amanhã se os resultados forem enviados para o seu e-mail. — Perfeito. Paguei os exames e segui para o escritório do doutor Mendes. Ele me recebeu e assim que sentei coloquei a pasta de Rafael e a cópia do meu exame diante dele. — Estes são os documentos que Rafael quer que eu assine. O advogado começou a ler. Sua expressão ficou mais séria a cada página. — Você fez bem em não assinar. — O que ele conseguiria fazer? — Praticamente tudo. Movimentar as contas, contratar empréstimos, fechar negócios e afastar você da administração. Rafael teria o controle da empresa. — O doutor Mendes fechou a pasta e olhou para mim. — Tome cuidado naquela casa, Lorena. Não sabemos do que eles são capazes. — Vou me cuidar. Os dois dias seguintes pareceram uma eternidade. Continuei trabalhando e agindo como se nada tivesse acontecido. Rafael perguntou várias vezes se eu já havia lido os documentos. Respondi que estava ocupada com um projeto e precisava de mais tempo. Bianca continuava circulando pela casa como se já fosse a dona, sempre fingindo ofensa quando eu mencionava uma possível partida. Na tarde do segundo dia, recebi os resultados. Rafael era o pai biológico de Leo. Bianca era a mãe biológica. Os dois exames apresentavam uma probabilidade de 99,99%. Não existia mais nenhuma dúvida. Pouco depois, o doutor Mendes me entregou os documentos do divórcio e voltei para casa. Rafael, Bianca, Leo e minha sogra estavam reunidos na sala de jantar. Havia uma travessa de carne no centro da mesa, junto com salada e uma garrafa de vinho. Sentei-me sem dizer nada. Rafael sorriu. — Conseguiu revisar os documentos? — Sim. Li tudo com muita atenção. Os olhos dele brilharam. — Ótimo. Trouxe com você? — Trouxe. — Sabia que entenderia minhas intenções. Depois que eu assumir a gestão, você poderá descansar. Bianca e minha sogra trocaram um olhar satisfeito. Pelo jeito ela também sabia do envolvimento dos traidores. Nesse caso, Leo é o único que não deveria presenciar o que acontecerá a seguir. — Leo, por favor, vá para o seu quarto. Ele franziu a testa, ao invés de fazer o que pedi. — Por quê? — Porque os adultos precisam conversar. — Eu ainda não terminei de comer. — Retrucou novamente. — Pode terminar depois. — Não quero! — Leo, obedeça. Ele bateu a mão sobre a mesa, como se tentasse se impor sobre mim. — Você sempre manda em mim! Eu quero ficar aqui! Minha sogra me lançou um olhar de reprovação e Bianca tocou o ombro dele. — Leozinho, faça o que sua mãe pediu. Vá brincar no quarto. Depois, eu levo a sobremesa pra você. A raiva dele desapareceu imediatamente. — Está bem, tia Bibi. Leo levantou e saiu sem reclamar novamente. Esperei até ouvir seus passos subindo a escada. Então abri a bolsa, retirei os documentos preparados pelo doutor Mendes e os coloquei sobre a mesa. O sorriso de Rafael desapareceu ao ler o título da primeira página. — Não vou assinar a transferência, Rafael — declarei, encarando-o. — Estes são os únicos documentos que você receberá de mim. Eu quero o divórcio!






