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LORENA MARTINS
Minhas mãos tremiam tanto que o exame parecia prestes a rasgar entre meus dedos. Eu estava estacionada no pátio do laboratório, e mal conseguia respirar. Aquelas palavras, em um piscar de olhos, acabavam de destruir completamente os últimos sete anos da minha vida. Probabilidade de Maternidade: 0,00% Impossível. Isso não podia estar certo. Eu havia carregado o Leonardo no meu próprio ventre por nove meses. Eu senti cada enjôo, cada desejo e cada pequeno chute. Eu suportei sozinha as dores insuportáveis daquele parto demorado e difícil, gritando até perder a voz. Eu chorei lágrimas de amor e alívio quando o médico cortou o cordão umbilical e colocou aquele bebezinho chorão nos meus braços. Como o meu filho não era meu? Como eu poderia não ser a mãe da criança que eu pari? Enquanto minha mente buscava uma explicação minimamente lógica para aquele absurdo, uma memória há muito enterrada invadiu meus pensamentos. Espremendo as primeiras lágrimas depois do choque. Oito anos atrás. Foi pouco tempo antes de eu descobrir a gravidez. Eu estava passando por uma fase terrível de estresse e não conseguia dormir direito há semanas. Bianca, minha melhor amiga, apareceu no apartamento. Ela trouxe um sorriso doce e reconfortante no rosto, além de um pote de vidro cheio de folhas secas nas mãos. — Olha isso, amiga. Fiz esse chá artesanal especialmente pra você — a voz dela era muito carinhosa na minha lembrança, enquanto fervia a água na minha cozinha. — É uma receita infalível de família para insônia. Você precisa descansar, Lore. Prometo que vai dormir como um anjo. Eu confiei nela e tomei tudo de uma vez só, muito grata pela preocupação. Mas a sensação que veio a seguir não foi a de um sono relaxante. Foi um torpor estranho. A última coisa que vi foi o rosto de Bianca me observando de perto. Ela não sorria mais. Tive um apagão completo. Quando abri os olhos novamente, eu estava deitada em uma cama estreita de clínica, com uma agulha grossa presa na veia do meu braço esquerdo, ligada a um soro. Meu corpo inteiro doía de uma forma bizarra. — Amor? Finalmente você acordou — a voz de Rafael, meu marido, soou preocupada ao meu lado. Virei o rosto devagar e o vi sentado na poltrona. Ele se levantou rápido e segurou minha mão. — O que... o que aconteceu comigo? — Você teve uma queda de pressão. Desmaiou no meio da sala de casa — ele explicou, acariciando meus cabelos com suavidade. — Você dormiu por quase dois dias inteiros, Lorena. Bianca ficou apavorada. Ela me ligou e como não consegui te acordar tive que trazer você para cá às pressas. Dois dias desacordada por uma simples queda de pressão? Agora que penso aquilo não fazia sentido nenhum. Mas eu não questionei. Eu era cega, ingênua e confiava naquelas pessoas com a minha própria vida. Poucas semanas depois desse episódio nebuloso, o exame de farmácia deu positivo para gravidez. Então, o que realmente aconteceu? Confusa demais com essa descoberta, apertei o exame de DNA e liguei o motor do carro, preciso falar com Rafael sobre isso, talvez nosso Leo tenha sido trocado na maternidade ou algo assim. Mas Leo é idêntico ao Rafa... Dirigi de volta para casa rapidamente. Ao abrir a porta da frente, vi uma cena que já havia se tornado cotidiana, mas que nunca havia me incomodado tanto quanto hoje. No meio do tapete da sala, Rafael ria alto, cheio de vida, enquanto segurava Leo no ar pelas axilas e Leo dava gargalhadas. E, sentada confortavelmente no nosso sofá, com um sorriso doce nos lábios e interagindo com eles, estava Bianca. Meus olhos foram puxados imediatamente do rosto sorridente de Leo para o de Bianca. Reparei no formato dos olhos amendoados do meu menino. O formato arrebitado do nariz. Depois, encarei o rosto da mulher sentada no sofá. Entre eles havia uma semelhança que eu passei sete anos ignorando. Ah, o resultado desse exame está mexendo com a minha cabeça. Como isso seria remotamente possível? Como Bianca poderia ser a mãe do menino que cresceu na minha barriga? — Mamãe chegou! — Leo foi o primeiro a me notar perto da porta. Ele apontou o dedinho na minha direção, mas não havia alegria nenhuma em sua voz infantil. O tom era muito diferente do de segundos atrás, como se a minha chegada tivesse estragado sua diversão. Ouvindo o aviso de Leo, Rafael se virou para mim. O sorriso aberto e feliz no seu rosto diminuiu consideravelmente e quase desapareceu por completo. Ele soltou Leo no chão e levantou, vindo me cumprimentar. No entanto, enquanto se aproximava seu olhar caiu no exame apertado em meus dedos e seus olhos me alcançaram com curiosidade: — Lorena... o que é esse papel na sua mão?






