Mundo de ficçãoIniciar sessãoLORENA MARTINS
Afastei-me da porta antes que Rafael saísse do quarto de Bianca. Caminhei de volta sem fazer barulho, entrei em nosso quarto, fechei os olhos e me deitei de costas para a porta. Alguns minutos depois, Rafael entrou. Permaneci imóvel, fingindo dormir. Ele deitou ao meu lado e puxou parte do cobertor. O perfume de Bianca estava preso em seu corpo. Senti vontade de me virar e expulsá-lo. Mas se eu os confrontasse naquele momento, Rafael negaria tudo. Bianca choraria e fingiria ser uma vítima. Passei o restante da madrugada acordada. Quando o relógio marcava quase seis, Rafael ainda dormia. Levantei devagar, peguei o exame de DNA e fui até o escritório de casa fazer duas cópias. Escondi o documento original entre papéis antigos e coloquei uma cópia dentro da bolsa. Sentei diante do computador, peguei o celular e liguei para o doutor Mendes. Ele era o advogado que cuidava dos assuntos jurídicos da empresa desde a fundação. Mendes atendeu depois de alguns toques. — Lorena? Aconteceu alguma coisa? Ainda são seis da manhã. — Desculpe pelo horário, doutor, quero pedir que prepare os documentos do meu divórcio. Houve alguns segundos de silêncio. — Divórcio? Posso perguntar o que aconteceu? Olhei para a porta fechada antes de responder. Mantive a voz baixa, com medo de que alguém acordasse e escutasse. — Descobri que Rafael está me traindo com Bianca. — Sua amiga? — Ela nunca foi minha amiga. E a traição nem é a pior parte. Contei sobre o resultado do exame. Depois, relatei tudo o que escutara no quarto de hóspedes. O doutor Mendes demorou a responder. — Lorena, o que fizeram com você é muito grave. Além de te doparem, colocaram um embrião em você sem sua permissão. — Por isso não aceito um divórcio pacífico, quero processar os dois e mandá-los pra cadeia. — Disse entre dentes para conter a raiva. — Eu te entendo. Primeiro precisaremos provar o procedimento — ele explicou. — Seu exame demonstra que você não é a mãe biológica de Leo, mas não prova sozinho que Rafael e Bianca são os pais ou o crime deles. — Posso conseguir amostras dos três. — Afirmei, confiante. — Também precisamos descobrir em qual clínica o procedimento aconteceu. Você se lembra do nome ou local? — Não. Eu estava inconsciente quando cheguei. Quando acordei, Rafael e Bianca me levaram direto para o carro. Eu mal conseguia ficar em pé. — Podemos verificar antigos pagamentos, registros médicos e qualquer documento daquela época. Apertei o celular com força. — Prepare tudo, doutor. Quero sair deste casamento o mais rápido possível. — Entendido. E não confronte Rafael ainda. Continue agindo normalmente enquanto reunimos as provas. — Farei isso, obrigada doutor. Desliguei, saí do escritório e fui até o banheiro do quarto. Rafael ainda dormia. Peguei a escova de dentes dele e a coloquei em um saco limpo. Depois, deixei uma nova no mesmo lugar. Fiz o mesmo com a escova de Leo. O quarto de hóspedes era mais arriscado. A porta estava fechada, mas ouvi o chuveiro ligado. Bianca já estava acordada. Entrei rapidamente e encontrei sua escova de cabelo sobre a penteadeira. Retirei alguns fios presos entre as cerdas, escolhendo os que ainda tinham a raiz. Guardei tudo em outro saco e saí antes que a água parasse. Voltei para o escritório e escondi as amostras na bolsa. — Acordou cedo, amor. A voz de Rafael atrás de mim quase fez meu coração parar. Virei-me devagar. Ele estava encostado na porta, usando apenas uma calça de pijama. Seu sorriso era tranquilo, se não soubesse, nunca desconfiaria que ele havia passado parte da noite na cama da minha melhor amiga. — Perdi o sono — respondi, devolvendo o sorriso — Ainda está com dor de cabeça? — Um pouco. Rafael entrou e fechou a porta. — Isso só prova que você está trabalhando demais. — Comentou, casual. — Talvez. — Eu também queria conversar com você sobre uma coisa. Ele caminhou até o pequeno cofre instalado atrás de um quadro. Digitou a senha e retirou uma pasta. Parece que decidiu adiantar seus planos e me entregar os documentos mencionados na conversa com Bianca. Rafael colocou a pasta sobre a mesa e sentou-se diante de mim. — Você não precisa continuar carregando a empresa sozinha, Lorena. Nós fundamos aquele escritório juntos. — Realmente... não preciso trabalhar sozinha — Alfinetei seu pouco envolvimento, mas ele não pareceu se dar conta. — Então, onde quer chegar? — Quero assumir a gestão por um tempo. Você poderá se concentrar apenas nos projetos importantes e descansar mais. Ele abriu a pasta e virou as páginas até encontrar o espaço reservado para minha assinatura. — É apenas uma autorização para eu cuidar dos contratos, das contas e dos funcionários — explicou. — Estou fazendo isso porque me preocupo com você. Rafael pegou uma caneta e a estendeu em minha direção. — Só precisa assinar aqui, amor.






