Mundo de ficçãoIniciar sessãoLORENA MARTINS
Parei diante da porta, sem ousar me mover sem entender o que ouvi. Primeiro tentei me convencer de que havia escutado errado. Rafael não poderia ter chamado Bianca de “meu amor”. Talvez houvesse outra explicação. Mas, logo ouvi a voz manhosa de Bianca. — Você sempre diz isso, Rafa. Sabe como é cansativo fingir que ainda sou a melhor amiga dela? Fingir? O que estou ouvindo? — Tenha um pouco mais de paciência — Rafael pediu. — Não podemos estragar tudo agora. — Você não sabe como é difícil pra mim. Fico aqui todos os dias, cuido de você, do Leo e ainda preciso sorrir para aquela idiota. Aquela idiota... Era assim que minha melhor amiga falava sobre mim quando pensava que eu não estava ouvindo? Apoiei uma das mãos na parede para não cair. Minhas pernas pareciam fracas demais para sustentar meu corpo. — Fale mais baixo — Rafael alertou. — Lorena tá dormindo no nosso quarto. — Nosso quarto?! — Bianca repetiu, irritada. — Você ainda chama aquele lugar de “nosso quarto”? Eu sou a mulher que você ama. — É, claro, meu amor. Ouvi o som de um beijo. Depois, um movimento abafado na cama. Meu estômago se revirou. Rafael estava me traindo com Bianca debaixo do mesmo teto. Enquanto eu pensava que ela era como minha irmã, os dois se encontravam escondidos dentro da minha própria casa. — Eu não aguento mais ver Leo chamando Lorena de mãe — Bianca continuou. — Ele é meu filho, Rafael. Meu! Prendi a respiração. A conversa dos dois estava esclarecendo minhas dúvidas. — Bianca… — Eu sou a mãe dele, mas preciso aceitar que todos reconheçam Lorena como mãe enquanto eu sou apenas a "tia Bibi". Minhas lágrimas começaram a surgir. Não. Aquilo não podia estar acontecendo. — Leo já prefere você — Rafael disse. — É óbvio que ele vai querer ficar do nosso lado. — Mesmo assim, ele ainda chama ela de mãe. — Porque foi isso que ele aprendeu desde que nasceu. — E eu estou cansada! — Bianca reclamou. — Às vezes, acho que usar Lorena como barriga de aluguel foi um erro. Senti o ar desaparecer dos meus pulmões. Barriga de aluguel? Levei a mão à boca antes que um som escapasse. — Você preferia ter carregado o Leo? — Rafael perguntou. — Claro que não! Você sabe que eu não suportaria ficar enorme, cheia de estrias e sentindo dores durante horas. Só de pensar naquele parto horrível que Lorena teve, eu fico horrorizada. — Então pare de reclamar — Rafael disse. — Colocar o embrião no útero dela foi a melhor decisão que tomamos. Lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. Eu não queria acreditar, mas cada palavra deles confirmou minhas suspeitas. Tudo havia sido uma mentira. Fechei os olhos, tentando conter o choro. Eu havia sido usada. Eles tomaram meu corpo e sete anos de amor se tornaram mentiras. Fizeram de mim uma barriga de aluguel sem meu conhecimento e sem minha permissão. — Além disso, enquanto Lorena acreditar que ele é filho dela, tudo o que ela construir um dia será dele. — E como Leo é nosso filho… — Tudo ficará conosco — Rafael completou, triunfante. — Leo já pode escolher ficar com a gente. Por que você não pede logo o divórcio? Rafael soltou um suspiro. — Porque Lorena ainda tem metade da empresa. — Mas você também é dono. — No papel, sim. Só que é ela que controla quase tudo. Lorena cuida dos projetos, dos clientes e dos contratos. Se eu pedir o divórcio agora, ela pode dificultar minha vida e tentar ficar com a maior parte do negócio. Aquilo era verdade. Nós havíamos fundado o escritório de arquitetura juntos, mas Rafael nunca demonstrou muito interesse pelo trabalho. Eu criava os projetos, participava das reuniões e mantinha contato com os clientes. Ele aparecia quando queria e gostava de se apresentar como um dos donos, embora quase nunca contribuísse. — Então faça alguma coisa! — Bianca exigiu. — Você prometeu que a empresa seria nossa. — E será. Estou fazendo contatos aos poucos. Alguns clientes já acreditam que sou eu quem toma as decisões importantes. Bianca riu. Aquela risada me feriu como uma bofetada. — Logo vou sugerir a transferência da gestão da empresa. Lorena anda sobrecarregada, vou fingir que estou preocupado com a saúde dela e me oferecer para assumir suas responsabilidades. — E você acha que ela vai assinar? — Lorena confia em mim. Se eu disser que quero ajudá-la, ela assina até sem ler. A segurança na voz dele era humilhante. Rafael acreditava que eu era uma mulher ingênua que faria qualquer coisa que ele pedisse. E, até aquela noite, talvez estivesse certo. — Então só preciso esperar mais um pouco... — Bianca concordou, esperançosa. — Só um pouquinho, amor. Assim que ela assinar, você, eu e o nosso filho finalmente seremos uma família. Lorena vai sair desta casa sem marido, sem filho e sem empresa. Então esse é o seu plano, Rafael? Muito bem. Vamos ver quem pede o divórcio primeiro!






