Pressentimento

Os quatro dias passaram como se tivessem sido engolidos pelo tempo. Quando Yvy percebeu, já era sábado.

O vestido estava passado. Os sapatos alinhados. O coração… acelerado demais.

Desde o momento em que recebeu os ingressos, sua mente não descansou. Roupa. Maquiagem. Cabelo. Cada detalhe pensado com cuidado silencioso. Ela não era excessivamente vaidosa — sempre se cuidou, com simplicidade e naturalidade — mas aquela não era uma noite comum. Era um sonho de anos ganhando forma.

Escolheu um vestido de suede marrom claro, mangas três quartos, ajustado ao corpo e desenhando com suavidade suas curvas. Franjas delicadas balançavam nas mangas e na barra. A bota country completava o conjunto com firmeza e graça.

A maquiagem era leve, mas precisa. O delineado gatinho realçava seus olhos verde-acinzentados. Nos brincos de penas, ela carregava algo de casa, algo da aldeia, algo de si. Os cabelos negros e ondulados desciam até a altura da cintura, brilhando sobre a pele morena, aquecida pelo sol.

Diante do espelho, ela sorriu. Sentia-se linda.

E ainda assim… inquieta.

Suas mãos suavam. Por dentro, sua loba caminhava inquieta, como se percebesse algo que sua mente não alcançava. Yvy respirou fundo, convencendo-se de que era apenas nervosismo. Apenas emoção.

Quando desceu as escadas, Josh a esperava.

Ele ergueu os olhos… e parou.

O brilho em seu olhar dizia tudo. Orgulho. Amor. Encantamento silencioso.

Ele sorriu, certo de uma única coisa:

Naquela noite, estava ao lado da mulher mais linda de todas. Sua noiva!

O estacionamento estava cheio. Luzes, vozes, música distante vibrando no ar como um coração gigante prestes a despertar.

Yvy caminhava ao lado de Josh, os passos firmes… mas algo dentro dela não acompanhava o ritmo.

Era como se o mundo estivesse milimetricamente desalinhado.

Ela levou a mão ao próprio pulso. O batimento estava rápido demais. Não era ansiedade comum. Não era apenas emoção.

Era reconhecimento sem memória.

Sua loba, até então silenciosa, ergueu-se dentro dela com atenção plena. Não agitada… mas alerta. Como quem sente um chamado antigo atravessar o vento.

Yvy parou por um instante.

O ar parecia mais denso.

Mais vivo.

Mais… direcionado.

— Está tudo bem? — Josh perguntou, inclinando levemente o rosto para observá-la.

Ela piscou, voltando a si.

— Sim… só… uma sensação estranha. Como se algo importante fosse acontecer.

Josh sorriu com carinho, tocando sua mão.

— É o show que você esperou por anos. É normal.

Ela assentiu.

Mas, no fundo, sabia que não era só isso.

Algo estava prestes a encontrá-la.

E já a procurava.

Nos bastidores, o mundo era outro.

O som da multidão chegava abafado pelas paredes grossas da arena. Passos apressados da equipe cruzavam os corredores, misturando-se ao cheiro metálico dos instrumentos, couro aquecido por luzes fortes e madeira vibrando com a expectativa coletiva.

Calleb ajustava o microfone com movimentos automáticos quando seus dedos pararam no meio do gesto.

Um arrepio subiu lentamente por sua nuca.

Não era nervosismo de palco. Ele conhecia cada nuance dessa sensação. Aquilo era mais antigo que medo, mais profundo que ansiedade.

Era instinto.

Seu lobo despertou sem aviso.

Não em alerta.

Não em defesa.

Mas em reconhecimento.

Uma presença silenciosa se ergueu dentro dele, como algo que se levanta ao ouvir o próprio nome sendo chamado de muito longe. Um chamado que não vinha dos ouvidos… mas da essência.

O ar pareceu mais denso. Carregado. Vivo.

Calleb levou a mão ao peito quase sem perceber e encontrou o pingente em forma de lobo repousando sob a camiseta preta. O metal estava morno contra a pele — não pelo calor do corpo, mas por algo que pulsava em sintonia com seu coração.

Ele fechou os olhos.

E a lembrança veio como um sopro de casa.

Blackpine.

O cheiro das árvores altas após a chuva. A terra úmida sob os pés descalços. O som distante de uivos ecoando entre montanhas. Não como ordem… mas como pertencimento.

Viu o rosto de Ben, seu pai — postura firme, olhar que carregava liderança e um silêncio cheio de expectativa não dita. Recordou sua mãe, Anabela, a Luna, com seu abraço acolhedor e o perfume suave de ervas e chá quente que sempre prometia paz. Sentiu novamente o toque dela em sua cabeça quando ainda era jovem demais para compreender o peso do que herdaria.

Os gêmeos surgiram em sua memória — Matt e Jacob correndo entre as árvores, rindo, ainda livres do destino que agora se aproximava deles.

O peito apertou.

Era como se algo dentro dele estivesse sendo puxado de volta para a própria raiz.

Mas havia mais.

Uma sensação nova se misturava à saudade. Um chamado que não vinha da matilha… mas que a despertava dentro dele.

Presença.

Reconhecimento.

Destino.

Como se, além das paredes, além das luzes, além da multidão… alguém existisse em perfeita sintonia com aquilo que ele sempre evitara ser.

Seu lobo não rosnou.

Não lutou.

Apenas despertou.

Calleb abriu os olhos lentamente. A respiração mais profunda, mais pesada. O coração batendo em um ritmo que não era apenas seu.

— Cinco minutos! — anunciou uma voz ao fundo.

Ele assentiu, mas não respondeu.

Seus dedos ainda repousavam sobre o pingente, pressionando-o contra o peito como quem ancora o próprio ser.

Algo estava prestes a mudar.

Ele não sabia quem.

Não sabia como.

Mas tinha certeza de uma coisa:

Aquele chamado não era lembrança.

Era encontro.

E, em algum ponto entre a multidão e a Lua que surgia no céu, dois caminhos que viveram anos separados começavam, silenciosamente… a convergir.

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