Bella
A mansão dos Mendes não era uma casa; era um manifesto de arquitetura moderna e solidão. Localizada em um dos condomínios mais exclusivos da cidade, a construção de concreto, vidro e madeira nobre parecia observar o mundo com indiferença. Quando o portão imenso de ferro se abriu, senti um frio na barriga que não tinha nada a ver com o enjoo matinal que me perseguia desde que acordei.
Dona Helena já me esperava na porta monumental. Ela vestia um uniforme impecável e ostentava um sorriso que era o único ponto de calor naquele cenário minimalista.
— Seja bem-vinda, Isabella. Pontualidade é a primeira chave para sobreviver aqui — ela disse, fazendo um gesto para que eu entrasse.
O hall de entrada tinha um pé-direito tão alto que eu me senti uma formiga. O silêncio era quase palpável, interrompido apenas pelo tique-taque ritmado de um relógio de parede antigo que parecia deslocado em meio à decoração tão contemporânea. Helena me conduziu pelos corredores, apresentando a equipe: a cozinheira, Sônia, uma mulher de braços fortes e olhar atento; e a equipe de limpeza, que se movia como sombras eficientes.
— Como Simone deve ter lhe dito, aqui cada um tem sua função — Helena reforçou, enquanto subíamos a escada de mármore. — O Sr. Rafael preza pela ordem acima de tudo. Ele é recluso, interage quase que exclusivamente com a pequena Sofia.
Senti um arrepio. A curiosidade, esse meu defeito de fábrica, falou mais alto:
— Ele sempre foi assim, Dona Helena? Tão... frio?
Helena parou diante de uma porta de madeira clara e suspirou, o olhar perdendo-se por um instante.
— Não, querida. Ele nem sempre foi essa estátua de gelo. O Sr. Rafael era um homem vibrante, até o dia em que a ex-esposa, a mãe da Sofia, desapareceu. Foi há três anos. Ela simplesmente... virou pó. Ele faltou revirar o mundo atrás dela. Gastou fortunas com investigadores, moveu influências, mas ela sumiu sem deixar rastro, sem levar uma peça de roupa. Depois disso, ele trancou o coração e jogou a chave fora. Só sobrou o trabalho e a menina.
Aquela história me atingiu em cheio. Eu sabia o que era querer sumir, eu tinha acabado de fazer isso, mas deixar uma filha? Isso eu não conseguia conceber.
— Agora, vamos. O Sr. Joaquim já está esperando na garagem.
Joaquim, o motorista, era o oposto do patrão. Um senhor de cabelos ralos e olhos que sorriam antes da boca. O trajeto até a escola de Sofia foi preenchido pelas histórias dele sobre o trânsito e sobre como a "pequena Soso" era a alegria dos seus dias.
Quando a vi sair pelo portão da escola, meu coração deu um salto. Sofia era uma boneca de porcelana com joelhos ralados. Tinha os cabelos loiros presos em duas marias-chiquinhas tortas e uma mochila de dinossauros que parecia maior que ela. Mas foram os olhos que me ganharam: eram grandes e curiosos, embora carregassem uma sombra de carência familiar que eu reconheceria a quilômetros de distância.
— Você é a moça nova? — ela perguntou, desconfiada, enquanto Joaquim abria a porta do carro.
— Sou a Isabella. Mas pode me chamar de Bella. E eu soube que você é a especialista oficial em dinossauros desta cidade. É verdade?
O gelo quebrou ali mesmo. O resto do dia passou de forma deliciosa. Brincamos de esconde-esconde no imenso jardim, desenhamos com giz no pátio e, por volta das 16h, subimos para o quarto dela para o "momento da leitura".
Sofia era carente de atenção, de toque, de risada. Ela se aninhou ao meu lado na poltrona imensa, o cheirinho de xampu de maçã verde me trazendo uma paz que eu não sentia há meses. Eu estava contando a história de uma princesa que, em vez de esperar pelo príncipe, decidiu comprar um mapa e viajar pelo mundo em um balão — uma versão levemente adaptada da minha própria fuga.
— E então, Bella? Ela chegou na ilha dos doces? — Sofia perguntou, os olhos brilhando.
— Chegou sim! Mas ela descobriu que o maior tesouro não eram os doces, mas a coragem que ela teve de...
De repente, a porta do quarto, que estava apenas encostada, abriu-se por completo.
O som dos sapatos de couro contra o piso de madeira foi como um trovão em um dia de sol. Eu congelei. As regras de Simone ecoaram na minha mente: invisibilidade, distância, nunca cruzar o caminho do chefe.
Eu me levantei rapidamente, ainda com o livro nas mãos, protegendo Sofia como se fosse um escudo instintivo.
— Papai! — Sofia gritou, pulando da poltrona. — Você chegou cedo!
Eu levantei os olhos lentamente, preparando meu melhor pedido de desculpas por estar "visível". Mas as palavras morreram na minha garganta. O ar fugiu dos meus pulmões e o mundo pareceu girar em câmera lenta.
Lá estava ele.
O terno azul escuro. A postura de quem comanda o universo. E aqueles olhos. Verdes. Tão verdes e intensos quanto noites de neblina e vinho tinto.
Rafael Mendes não era apenas o meu patrão recluso. Ele era o homem do aeroporto. O homem que me possuiu contra o mármore de um banheiro privativo. O homem que eu tinha certeza de que nunca mais veria.
Ele parou, a mão ainda na maçaneta, o corpo teso. O choque nos olhos dele espelhava o meu. A máscara de gelo do Dr. Rafael Mendes rachou por um segundo, revelando um reconhecimento puramente carnal e devastador.
— Você... — a voz dele saiu baixa, rouca, carregada de uma eletricidade que fez todos os pelos do meu corpo se eriçarem.
Ali, diante da filha dele, cercada por brinquedos e livros de colorir, o passado e o presente colidiram com a força de um desastre ferroviário. Eu era a babá invisível. Ele era o CEO inacessível. E nós dois éramos os estranhos que haviam compartilhado a noite mais ardente de nossas vidas.
O silêncio no quarto era tão denso que eu podia ouvir as batidas frenéticas do meu próprio coração. Sofia olhava de um para o outro, confusa com a tensão que vibrava no ar.
— Bella? — a voz pequena dela me trouxe de volta.
Eu precisava dizer algo. Precisava agir como se não o conhecesse. Mas como fingir amnésia quando meu corpo inteiro ainda lembrava do toque dele?