Mundo de ficçãoIniciar sessãoNuma época em que o racismo imperava numa sociedade preconceituosa e o único futuro reservado aos negros era a escravidão, uma menina de pele escura recebe a oportunidade de ser criada e educada por uma madrinha portuguesa. Porém, logo após tamanha sorte é violentada e obrigada a presenciar seus pais serem queimados vivos numa fogueira a mando de um cruel escravocrata. Após crescer e receber a mesma educação dada aos brancos torna-se refém dos desejos sexuais de seu senhor e para alcançar a liberdade que precisa para ser feliz é submetida as piores provações, torturas e humilhações que o destino lhe reservou. Mas sua força e coragem lhe permitem suportar tudo fé, determinação e inabalável esperança, até conhecer o verdadeiro amor.
Ler maisA Lua Sombria sempre foi um presságio.
Desde pequena, eu ouvira as anciãs dizerem que, quando ela surgia no céu com aquele tom profundo e avermelhado, nada permanecia igual. Laços eram formados. Verdades vinham à tona. Destinos eram selados — ou destruídos.
Mesmo assim, eu nunca imaginei que ela olharia diretamente para mim.
A clareira sagrada estava tomada pela matilha. O círculo de pedras antigas delimitava o espaço onde apenas os Alfas, Betas de alto escalão e os anciãos podiam ficar. Ômegas como eu permaneciam na borda, misturadas às sombras das árvores, observando em silêncio.
Era onde eu sempre estivera.
O vento noturno carregava o cheiro de pinho, terra úmida e incenso queimado. Cada respiração parecia pesada demais, como se o próprio ar estivesse carregado de expectativa. Eu sentia isso na pele, um arrepio constante que subia pelos meus braços e se alojava no fundo do meu peito.
Algo estava errado.
Não no sentido ruim — mas no sentido perigoso.
Meu coração batia rápido demais, e eu não entendia o motivo. A cerimônia ainda nem havia começado oficialmente, mas meu corpo reagia como se estivesse prestes a ser lançado de um penhasco.
— Elira.
A voz suave de Mara, outra Ômega, me alcançou. Ela estava ao meu lado, com os ombros encolhidos e o olhar baixo, como se temesse chamar atenção até da Lua.
— Você está pálida. Tem certeza de que está bem?
Assenti, mesmo sem estar. Não queria falar. Qualquer som parecia um erro naquela noite.
Então, os tambores começaram.
Um som grave, profundo, que ecoou pela floresta e fez o chão vibrar sob meus pés. O murmúrio da matilha cessou imediatamente. Todos se viraram para a entrada da clareira, onde os Alfas surgiam em formação.
E no centro deles… ele.
Kael Blackfang.
Não importava quantas vezes eu o tivesse visto antes — e foram muitas, à distância, sempre à distância —, meu corpo reagia da mesma forma. Tensão. Alerta. Um respeito instintivo misturado a algo que eu nunca ousara nomear.
Ele era alto, mais do que a maioria, com ombros largos e postura firme. O cabelo escuro caía de forma desleixada sobre a testa, e seus olhos dourados refletiam a luz da Lua como se pertencessem mais à noite do que ao mundo dos vivos.
O Alfa Supremo.
O homem que comandava não apenas nossa matilha, mas várias outras sob alianças antigas.
Quando ele entrou no círculo, o ar pareceu se dobrar à sua presença.
Todos se curvaram.
Eu também.
Mas algo dentro de mim se recusou a baixar a cabeça por completo.
Foi sutil. Um erro mínimo. Ainda assim, senti.
O calor.
Não vinha da fogueira central. Vinha de dentro.
Meu peito ardeu, como se um fio invisível tivesse sido puxado com força. Levei a mão ao colarinho do vestido simples que eu usava, tentando respirar fundo.
— Não agora… — murmurei para mim mesma.
A cerimônia prosseguiu. Os anciãos entoaram cânticos antigos, palavras na língua da Lua, invocando equilíbrio e verdade. O ritual era o mesmo de sempre — pelo menos, era o que eu pensava.
Até Kael erguer o olhar.
Eu senti antes de ver.
Foi como um impacto direto no estômago. Um choque que percorreu minha espinha e me fez dar um passo involuntário para trás.
Quando levantei o rosto, nossos olhares se encontraram.
O mundo desapareceu.
Não havia mais clareira, nem matilha, nem tambores. Apenas ele. Apenas eu. E algo antigo, poderoso, despertando entre nós.
O vínculo.
Meu corpo reagiu de forma traiçoeira. O coração acelerou, a respiração falhou, e uma onda de calor se espalhou pela minha pele. Era errado. Impossível. Ridículo.
Eu era uma Ômega sem posição, sem influência, sem nada.
Ele era o Alfa.
Kael franziu o cenho por uma fração de segundo — tempo suficiente para eu saber que ele sentira também. Seus olhos dourados escureceram, e a tensão tomou cada músculo de seu corpo.
Não.
A Lua Sombria parecia pulsar acima de nós, como se observasse em silêncio cruel.
— Alfa Kael? — chamou um dos anciãos, percebendo a interrupção no fluxo do ritual.
Kael não respondeu de imediato.
Seu olhar permaneceu preso ao meu, intenso demais, afiado demais. Eu quis desviar. Juro que quis. Mas algo me mantinha ali, presa, exposta.
Mate.
A palavra ecoou na minha mente como um trovão.
Não completo. Não selado. Mas real o suficiente para doer.
Um murmúrio começou a se espalhar pela matilha. Alguns notaram a tensão. Outros apenas sentiram o peso no ar.
Eu senti vergonha.
Porque, mesmo sem ninguém dizer nada, eu sabia: se aquilo fosse verdade, se a Lua tivesse cometido aquele erro… eu seria o erro.
Kael finalmente desviou o olhar. Um gesto simples. Devastador.
— Continue — disse ele aos anciãos, com a voz fria, controlada.
O ritual seguiu, mas nada mais fez sentido para mim. Cada palavra cantada parecia distante. Cada batida do tambor ecoava dentro do meu peito como um aviso.
Isso não terminaria bem.
Quando a cerimônia se aproximou do fim, os anciãos chamaram os presentes ao centro para o reconhecimento final da Lua — o momento em que vínculos latentes podiam se revelar.
Meu estômago se revirou.
Eu não deveria ir. Ômegas raramente eram chamadas. Mas, naquela noite, senti pés que não me obedeciam me levarem adiante, como se algo maior tivesse decidido por mim.
O círculo pareceu se estreitar.
Kael estava ali, imóvel, com os punhos cerrados ao lado do corpo.
Quando parei a poucos passos dele, o ar entre nós ficou pesado demais para ignorar.
O reconhecimento aconteceu no instante em que ficamos frente a frente.
Não houve luz. Não houve explosão visível.
Houve silêncio.
E então, dor.
Um laço se formou e se rompeu parcialmente ao mesmo tempo, como se estivesse condenado desde o início. Eu arquejei, levando a mão ao peito, sentindo o coração bater descompassado.
Os anciãos se entreolharam.
— A Lua falou… — murmurou um deles, confuso.
Kael ergueu o queixo.
E, naquele momento, eu soube.
Ele não me aceitaria.
O orgulho dele era maior que qualquer destino.
E a Lua Sombria, impassível no céu, apenas observava enquanto minha vida começava a ruir.
A propriedade em que Dionísio e seus homens acabaram de chegar pertencia ao Coronel Leopoldo, amigo de velhos tempos, se conheceram ainda jovens e cresceram praticando os mesmos abusos contra mulheres e crianças. A pedofilia, os crimes hediondos contra inocentes, desobediência às autoridades e várias outras barbaridades sempre foram suas diversões prediletas. Eram, naquela época, dois playboys que acreditavam possuir a liberdade e o direito de fazer o que bem achassem melhor, pelo fato de pertencerem a famílias abastadas, então passaram toda a vida cometendo inúmeros absurdos. Mas o tempo passou, cada um seguiu seu caminho e deixaram de se visitar. Entretanto, nem um dos dois mudaram os velhos hábitos e continuaram a abusar da sorte. Dionísio finalmente deu com a cara nos burros e agora havia se tornado um fugitivo, perseguido pelo Império e sua presença era uma ameaça a qualquer um que tencionasse ajuda-lo. Como a notícia de que ele se tornou réu diante da Coroa Por
Depois de reunir alguns dos seus criados, os mais másculos e dispostos para travar um combate, traçaram um esquema de ataque surpresa contra o fazendeiro, mas ainda restava fazer uma coisa para que tudo funcionasse da melhor forma possível. Luz deveria ser informada sobre o que ocorreria, afim de estar preparada para efetuar a fuga juntamente com seus resgatadores. Eis aí o maior problema, como avisa-la? O jeito seria repassar-lhe o recado através de um dos criados da casa grande. Alabá seria a pessoa mais adequada, porém, como localizá-la para enviar um bilhete com as informações até Luz? Vicente, um dos negros que conhecia a criada explicou que pelo menos uma vez por mês alguns dos que serviam as mulheres da família Dantas eram enviados até o vilarejo para fazer compras de produtos vindos da província, e seria uma ótima oportunidade para falar com a criada que certamente estaria entre eles. Por coincidência, na manhã seguinte seria o exato dia em questão e o
Um vento forte passou a soprar naquela escuridão que era iluminada apenas pela fraca luz de algumas fogueiras propositalmente preparadas e acesas para aquela ocasião, parecia que Deus ou alguma outra força da natureza se entristecia ao ver o sofrimento daqueles inocentes. Os mais supersticiosos comentavam que os espíritos cavalgavam de um lado para o outro em seus animais de sete cabeças prometendo castigo aos carrascos. De suas narinas saiam fogo, enxofre e fumaça, testemunhando a crueldade que ali se fazia e no momento certo iriam punir com a morte os responsáveis pelas injustiças cometidas. Os negros africanos acreditavam e adoravam diversos tipos de deuses, espíritos que viviam noutro plano e que chamavam de Orixás. Totalmente supersticiosos, eles viam mistério em tudo e atribuíam ao desconhecido suas sortes e destinos. Estavam certos de que a vingança cairia sobre os Dantas em breve. O frio do sereno castigava ainda mais seus corpos expostos debaixo do luar e a es
O negro de admirável porte físico, excelente cavaleiro, de boa pontaria e sem nenhum escrúpulo seguiu viagem determinado a não voltar sem sua presa. Luz corria perigo, a ordem dada foi bem clara: A fugitiva deveria ser trazida de volta ao seu antigo dono, a qualquer peço, a qualquer custo. E isso seria feito ao pé da letra, ele estava determinado a mostrar um bom serviço. No mesmo momento em que o novo perseguidor da fugitiva partia no seu encalço, na pequena e distante propriedade onde ela se encontrava protegida pelo novo amigo o perigo se aproxima, quando dez dos homens enviados à sua procura encontram o esconderijo e, mesmo sem saber ao certo se ela estava ali, resolvem investigar. Aquele que parecia ser o líder do bando se aproxima da casa e busca a presença do morador. — Ó de casa, bom dia! O casal se assusta com a chegada dos jagunços. De imediato Florêncio pede a Luz que se esconda, indo ao encontro dos mesmos em seguida. — Bom dia
Último capítulo