Mundo ficciónIniciar sesiónEu ainda não o vi desse jeito, tão aberto e tão leve. Era outra pessoa, ficava até mais bonito. Admito que o Brent sério e grosseiro era lindo, porém o Brent sorridente e tranquilo é belíssimo. Ele consegue ficar mais atraente e hipnotizante. O seu sorriso é contagiante e o charme com que mexe nos cabelos torna a atmosfera mais sedutora.
— O que houve? — Margot perguntou, porém não fui capaz de respondê-la. — Para quem está olhando?
Eu estava focada naquela cena.
A hostess levou um casal até eles. Brent e a mulher desconhecida ficaram de pé e receberam os dois recém-chegados com abraços fraternos. Turner riu de algo que a sua acompanhante disse e deu uma resposta falando próximo ao seu ouvido.
Parecia haver uma certa cumplicidade ali. Quem é ela? Uma amiga? Um amor antigo? Um amor atual? Alguém da família? Uma prima, talvez? Caramba... Quem é aquela mulher? Tenho que saber. Nós vivemos em um casamento de fachada, mas eu não preciso e não vou ser feita de boba por ninguém.
— É o Brent ali? — Margot falou de novo.
— Sim, o próprio.
— E quem é a bonitona que está com ele? Os dois estão sentados muito perto um do outro.
— Não faço ideia.
— Vamos até lá! — A minha irmã segurou a minha mão, porém eu a impedi antes que me puxasse. — O que foi?
— Não! Jamais! — Neguei depressa. — Eu não vou fazer esse papel!
— E se for uma amante?
— Amante, Margot? — Ri soprado. — Em um casamento por contrato?
— Fala baixo, Irina! — Repreendeu-me e olhou para os lados. — Alguém pode escutar!
— Vamos embora! Não vou ficar aqui pedindo para passar por um vexame!
— Mas nós não pre...
— Irina! Margot! — Assustamo-nos com a presença de uma amiga da minha época de faculdade. — Que lindas vocês estão! Vieram almoçar ou já estão indo embora?
— Embora!
— Viemos!
As respostas opostas ditas respectivamente por mim e por Margot ao mesmo tempo deixaram a minha amiga confusa.
— Decidam-se, por favor! — Ela riu. — Aliás, Irina, parabéns pelo casamento! Brent Turner é o melhor partido da região! Em todos os sentidos! — Abraçou-me. — Você fisgou o homem!
Eu estava desesperada. Não queria que ela entrasse e visse o meu marido irresponsável, o melhor partido da região, ao lado de uma gatona sem a minha presença na mesa.
— O que acha de almoçar conosco naquele restaurante perto da faculdade? — Questionei.
Nervosa, enxuguei discretamente as minhas mãos suadas no vestido. Eu havia acabado de receber uma missão: preciso tirá-la e sair daqui também.
— Relembrar os velhos tempos — completei. — Vai ser divertido.
— Uh! Ótima ideia! — Ela bateu palminhas, animada. — Vamos já! Agora mesmo!
Ufa! Dessa vez eu me livrei de um constrangimento colossal!
Mas será que consigo manter as coisas sob controle por muito tempo? Brent vai ter que cooperar e nós precisaremos conversar sobre esse assunto.
— Onde Irina está?
Eu estava na metade do corredor quando escutei a pergunta de Brent para Helga. Voltei imediatamente para o meu quarto e fiquei parada na porta com a intenção de continuar ouvindo. Se Turner falar mal de mim ou disser algo sobre a mulher misteriosa que estava com ele no restaurante, eu quero saber.
— No quarto, senhor.
— Melhor assim.
— A senhora Irina é uma boa mulher. Não fez objeções a nada, não quis mudar nada, não me deu trabalho algum.
— Ela, assim como eu, não se interessa por esse casamento. Está aqui somente para cumprir um acordo.
— E por isso o senhor precisa ignorá-la ou tratá-la mal? Não acho que seja necessário.
— Helga, você está falando muito hoje — Brent suspirou. — Vou tomar uma taça de vinho no escritório e em seguida venho jantar. Não demoro.
— Não vai perguntar se a senhora Irina jantou?
— Já deve ter jantado. São dez da noite.
— Ela jantou às oito.
— Bom para ela.
— Troglodita! — Resmunguei, fechando a porta ao identificar os seus passos pela casa. — Não deveria nem jantar aqui! Já encheu a barriga naquele restaurante com aquela bonitona lá!
Bufei, desamarrando o laço do meu robe. Hoje estou usando um da cor rosa coral, é uma gracinha.
— Vou ler um livro até dormir. É isso.
Escolhi um livro de autoajuda e o abri na última página lida. Desliguei as luzes, liguei o abajur e me deitei na cama com os meus óculos de leitura. Iniciei a leitura e, diferente do que normalmente acontecia, eu não senti sono algum.
Estou inquieta, estressada. Esse casamento resolveu o problema do meu pai e tirou a minha paz.
Eu ainda refletia sobre isso quando ouvi um barulho no corredor. Passos firmes. Conferi o meu celular e me surpreendi ao ver que já era uma hora da manhã. Quem estava perambulando pela casa na madrugada?
— Reunião... Assinar... Voo... — Identifiquei a voz de Brent e, movida pela curiosidade, levantei-me da cama para me aproximar da porta. — Aula... Lanche... Não quero comer... Trabalhar... Tenho que trabalhar...
— Do que ele está falando? — Sussurrei. — Com quem?
— Relatórios... Contabilidade... Lucros e... Papéis... — Notei que a sua voz estava levemente estremecida, diferente.
Intrigada, abri a porta e coloquei a cabeça para fora do quarto. Brent estava de costas para mim, parado no corredor, e as suas mãos se moviam para um lado e para o outro. A sua figura alta e imponente agora parecia um tanto frágil.
— Casamento... Acordo... Empresa...
— Brent, você está bem? — Arrisquei me comunicar ao perceber que ele continuaria parado apenas soltando palavras, sem frases. — Quer ajuda?
Silêncio.
Ele se calou, relaxou os ombros, liberou um longo suspiro e andou devagar até o próprio quarto. O barulho da sua porta sendo fechada reverberou por todo o corredor. Fiquei paralisada, confusa e um pouco assustada.
— O que... O que acabou de acontecer aqui?







