Mundo ficciónIniciar sesión— Lembro bem que você acobertou o Nathan, disse que ele não havia feito nada — Helga falou em meio ao riso. Brent também ria. — Sempre protegendo o irmão.
Um pouco tímida, desci a escada devagar. Eu iria atrapalhar o momento deles, mas estava com fome demais para esperar. São sete horas da manhã e eu estou acordada desde as cinco.
Depois da cena que vi durante a madrugada, fiquei tão atordoada que não consegui dormir bem. Brent parecia estar fora de si. Será que eu deveria falar sobre isso com ele? Deveria perguntar algo? Oferecer ajuda?
— Bom dia, senhora Turner! — Helga, que estava em pé perto de Brent, sorriu largo. — O que deseja para o café da manhã? Hoje o senhor Turner preferiu ovos mollet e bacon.
— Vejo que há frutas, pães e frios na mesa... — Observei. — Eu não tenho preferência, isso é o suficiente para mim.
Permaneci de pé. Brent sequer me olhou.
— Tem certeza de que não quer mais nada?
— Não, Helga, está perfeito.
— Vai almoçar em casa hoje? — A pergunta de Helga fez Brent encará-la. — Queremos que prove os nossos pratos de almoço. Se tiver alguma preferência, por favor, nos diga.
— Não, eu estou totalmente aberta — sorri. — Quero provar. Ficarei em casa hoje.
— Então eu vou começar a tratar do assunto com a nossa chef. Com licença.
Helga se foi e o silêncio constrangedor se instaurou na sala de jantar. Brent me olhou e eu o retribuí.
— Vai comer em pé? — Ele se pronunciou após beber um gole de café. Uma mecha de cabelo cobriu parcialmente o seu olho esquerdo e Brent logo a colocou atrás da orelha. — Por que não se senta? A mesa é grande o bastante para nós dois.
— Obrigada.
Revirei os olhos e caminhei até a cadeira oposta à sua, deixando a mesa gigante entre nós dois. Brent voltou a saborear o seu ovo e eu passei a me servir. Quando me dei por satisfeita, comecei a comer e a me deliciar com aquela refeição.
— Ontem você não almoçou em casa? — A voz grossa de Brent rompeu o nosso silêncio.
— Não.
— Por quê?
— Porque eu saí.
— Com quem?
— Por que você quer saber? — Encarei-o. Turner encolheu os ombros.
— Acho que preciso te lembrar de que não podemos ficar... — Pareceu buscar uma palavra adequada. — Soltos demais por aí.
— Não precisa me lembrar — voltei a comer e depois de alguns minutos decidi falar. — E você? Está lembrado?
— De quê?
— Do que acabou de dizer.
— Claro que estou.
— Então quem era a mulher que estava contigo ontem no restaurante?
— Você me viu?
— Obviamente! Como eu não reconheceria o meu marido?
Nos encaramos por longos segundos. Gelo e fogo. Ele tentava manter a sua frieza enquanto eu tentava não explodir em chamas. Por que Brent cobrava coisas de mim e não fazia o que falava?
— É uma amiga.
— Só amiga?
— Sim.
— Como ela se chama?
— Não tem importância — limpou a boca com o guardanapo e se levantou. — Vou trabalhar.
— Você não pode ser visto com ela de novo.
— Como é? — Franziu o cenho.
— Vocês pareciam um casal recebendo outro casal de amigos. Isso é contra as nossas regras, caso não lembre.
— Eu sei o que estou fazendo.
— E eu também sei, então não me cobre se está sujo até o pescoço.
— Pensei que seria mais fácil lidar com você.
— Achou que eu era uma mocinha que cresceu moldada para os seus gostos? Que você iria pisar em mim o quanto quisesse?
— Não sou agressivo a esse ponto.
— E você acha que é um homem fácil de lidar?
— Por que sempre rebate as minhas perguntas e o que digo? — Coçou a testa, nervoso. — Isso é irritante.
— Quando você ergue a sobrancelha também é irritante.
— Tenha um bom dia, senhorita Collins.
Quando ele saiu em passos barulhentos, percebi que estava segurando a minha respiração e pude finalmente liberá-la. Que clima tenso! Quanta hostilidade de ambas as partes! Brent e eu temos muitas diferenças e será difícil conciliá-las de um modo que seja aceitável para nós dois.
Terminei o café da manhã e convidei a minha irmã e o seu marido Michael para almoçarem comigo e conhecerem o covil de Brent Turner. Eles aceitaram de imediato.
— É... Peculiar! — Michael disse ao analisar as esculturas de Brent. — Tudo tão escuro que parece a caverna do Batman.
— Boa definição — eu ri. — A diferença é que o Batman é gentil.
— Brent não te trata bem? — Margot questionou.
— Frio como gelo. Deve ter pensado que eu seria do tipo que aceitaria calada as suas exigências.
— Ele te pediu algo inapropriado? — A minha irmã arregalou os olhos.
— Não! A gente mal se vê!
— Você perguntou algo sobre a mulher de ontem?
— Brent disse que é uma amiga — nós duas cerramos os olhos uma para a outra. — Contanto que ele não me envergonhe por aí... Nada errado.
— Você quer mesmo levar o casamento para esse lado? — Margot me abraçou por trás. — Anos podem se passar e nada acontecer.
— O que sugere que eu faça? Que eu me anule e aja como o Brent quer?
— Não, Irina. Eu te conheço e sei como é arisca em situações que te desfavorecem de alguma forma. Você se sente intimidada pelo Brent e o ataca.
— Ele me provoca antes.
— Por que não tem mais paciência? Por que não tenta ser mais agradável?
— O nosso casamento é um arranjo, uma mera formalidade. Ele não quer se envolver e eu também não.
— E se ele quiser?
— Não quer.
— Vamos supor que queira.
— Não existe essa suposição.
— Nossa! Como você é irritante!
— Você não é a primeira pessoa que direciona essa palavra para mim hoje — ri fraco. — Vamos almoçar? A chef fez um cardápio especial.
[...]
Duas semanas se foram voando. Apesar da monotonia no casamento com Brent Turner, eu conseguia ocupar os meus dias lendo livros, conversando com Helga e outros funcionários, visitando o jardim, encontrando as minhas irmãs e os meus pais e me arriscando a aprender a jogar tênis no simulador que havia dentro da casa de Brent. Ele também possuía uma quadra na propriedade, mas eu só iria até lá quando soubesse pelo menos controlar a raquete.
— Que fome... — Massageei a minha barriga que havia acabado de fazer barulho. — Helga sempre deixa uns sanduíches na geladeira.
Levantei-me da cama e caminhei até o robe preto, pegando-o para vesti-lo. Saí do quarto devagar e desci os degraus da mesma forma. A casa estava escura e, como sempre, silenciosa.
— Sanduíche! — Comemorei ao ver três deles na geladeira. Peguei um e sequer me dei ao trabalho de esquentá-lo antes de mordê-lo. — Delícia.
Ocupei uma cadeira da mesa de jantar, tendo o cuidado de abrir o meu robe para que me sentisse mais confortável. Comi aquele sanduíche tão rápido que me surpreendi. Eu não havia percebido que estava com tanta fome.
Insaciada, retornei para a cozinha, peguei mais um sanduíche e quando fechei a porta da geladeira, assustei-me com a figura alta parada ao meu lado. Usei a mão livre para cobrir a minha boca e abafar o grito de surpresa.
— O que você está fazendo aqui, Brent?







