Grosseiro

Chegamos no local combinado e a nossa mãe já nos esperava ansiosamente. Ela veio primeiro com a intenção de comprar itens de decoração para a casa de Brent, que passará a ser minha também a partir de amanhã.

Pensar nisso me dá calafrios.

— Comprei vasos lindos! — A minha mãe me abraçava de lado. Estava muito empolgada. — Um quadro belíssimo para a sala de jantar! Brent vai adorar!

— Como sabe que ele vai adorar? — Encarei-a. — Não tivemos momento algum na sua companhia. A última vez que você o viu foi quando Brent tinha quinze anos.

— Sarah me fala sobre ele.

— Você não acha estranho o fato de Brent não se interessar em nos conhecer? — Paramos de andar e nos olhamos. — Marcamos um encontro há dois meses, o único encontro em vinte e cinco anos, e ele mandou a secretária nos avisar que precisaria viajar.

— Filha, Brent é muito atarefado — a loira suspirou. — Não se chateie.

— Não estou chateada! — Retruquei. — Embora não pareça, eu tenho dignidade, mãe! Se Brent não quer me ver, eu também não quero vê-lo! Não faço questão alguma, aliás! Se pudesse, só assinaria os papéis e iria para o covil dele logo depois! — Falei depressa, agitada. Margot e a minha mãe riram. — Não estou brincando!

— Tudo bem, vamos parar com tanto drama! — Margot me abraçou por trás. — O que acha de começar com os robes?

— Você comprou robes quando se casou com o Michael? — Indaguei-a.

— Naturalmente — ela riu. — E ele amou desamarrá-lo na nossa primeira noite de casados.

— Há uma criança aqui, Margot! — A nossa mãe a repreendeu. — Claire só tem seis anos e entende o que falamos.

— Posso comprar um castelo inflável? — A menina se pronunciou e aliviou a breve tensão, fazendo-nos rir.

Iniciamos as compras e eu tentei me esforçar para avaliar as peças e gostar delas. Não tenho cabeça para isso, não quero ter que decidir nada, não quero assumir um compromisso tão importante sem amor, mas cresci com a sombra de Brent bem atrás de mim e não tenho como fugir dele. Só me resta aceitá-lo.

— Acho que esse tom de marrom ficou parecido demais com a cor do seu cabelo — Margot analisou a camisola de seda no meu corpo. — Não iremos levá-la.

Após comprarmos todas as peças íntimas necessárias e desnecessárias, adquirimos vestidos, itens de beleza e, na nossa última parada, fomos para uma joalheria. Lá, escolhemos brincos, pulseiras, anéis e colares. A minha mãe precisou sair com Claire para comprar um sorvete e Margot e eu ficamos permanecemos na loja.

— O que acha de uma despedida de solteira?

— Na companhia de uma mulher casada? — Ri. — Não tem graça.

— Michael não se importa.

— Vocês têm mesmo um relacionamento aberto?

— Melhor do que trair — encolheu os ombros. — Nós aprovamos ou rejeitamos a pessoa que o outro vai ficar e compartilhamos as nossas aventuras depois.

— Isso é loucura para mim — neguei com a cabeça. — Eu não conseguiria.

— E se o Brent te pedir?

— Ele pode fazer o que quiser, o nosso casamento será de fachada. Não haverá um compromisso real.

— E se você se apaixonar?

— Impossível.

— Mesmo? — Margot cerrou os olhos.

— Mesmo.

— Você pode embalar com um laço branco — a ordem entoada por uma voz grave e melódica atraiu a nossa atenção.

Margot e eu olhamos rapidamente para o seu dono. Ele estava de pé em frente ao balcão e de costas para nós duas. Era um homem alto, de ombros largos, com cabelos ondulados e escuros, vestindo um terno preto elegantemente bem acomodado em seu corpo atlético. O seu celular tocou.

— Estou indo, não demoro — ele disse.

— Que gato... — Margot sussurrou. — Se não for casado, faz um estrago bom por aí.

— Eu facilmente passaria a minha última noite de solteira com ele — confessei e ri baixinho quando a minha irmã me encarou com os olhos arregalados.

— É disso que estou falando! — Ficou de pé e me assustou ao fazer isso de repente. — E se tentássemos contato com o gatão?

— Não! Jamais! — Segurei o seu braço para tentar impedi-la. — Não se atreva!

— Este aqui é com um diamante rosa e uma pedra chamada água-marinha — a atendente mostrou o produto ao homem charmoso. — Uma peça mais do que exclusiva, senhor.

Margot passou a circular pela loja e eu me perdi na contemplação daquele homem atraente. Derreti no sofá ao observar as pontas dos seus cabelos castanhos roçando no colarinho da sua camisa branca. Eu definitivamente gosto de homens com cabelos um pouco mais compridos como os dele.

— Pode embalar com um laço branco também — suspirei ao ouvir a sua voz grave mais uma vez. Ouvi-la na cama deve ser afrodisíaco.

— Sim, senhor — a moça que o atendia sorriu. — E a pulseira com rubis e diamantes? Como quer a embalagem?

— Qualquer uma — ele deu de ombros. — O padrão da loja está bom.

— Um minuto, já retorno — a funcionária se afastou às pressas.

Nesse instante, por alguma razão desconhecida, levantei-me e caminhei até um expositor logo atrás daquele homem magnífico. Ele estava imóvel, absorto em seus pensamentos. Talvez eu estivesse atraída demais para pensar com clareza no que fazia.

— Aqui, senhor. Os seus... — A fala da moça foi interrompida por um acidente bem à sua frente.

Eu caí sobre o homem.

Fui empurrada sobre ele.

O seu corpo foi projetado para frente, porém ele rapidamente se voltou para mim. Os seus braços firmes me ampararam antes que eu pudesse cair. Suspirei de alívio e vergonha. A sua expressão dura pareceu ter se suavizado quando direcionou os seus olhos verdes para o meu rosto, porém, na verdade, foi apenas uma ilusão minha.

Ele me colocou de pé e a sua sobrancelha levantada me desafiou a falar algo.

— Des... Desculpa... — Murmurei envergonhada. — Eu... Eu tropecei.

— Preste mais atenção por onde anda! — Ele disse em tom ríspido. Sem mais delongas, olhou para a atendente. — As sacolas — estendeu os braços e as pegou. — Obrigado.

— Perdão pelo incômodo, senhor — a funcionária falou. — Isso não vai se repetir.

— Acho bom.

Assim que disse isso, o homem grosseiro foi embora sem sequer olhar para os lados. A sua mandíbula marcada, tensionada, indicava o nível da sua irritação.

— A senhorita está bem? — A vendedora me encarou. — Quer água ou alguma outra coisa?

— Não, eu estou bem — respondi baixo, cada minuto mais constrangida. — Obrigada.

Peguei a minha bolsa no sofá e saí da loja depressa, quase correndo. O meu rosto ardia de tanta vergonha. Margot vinha atrás de mim pedindo para que eu a esperasse. Estou me sentindo ainda pior do que quando cheguei aqui. Que dia terrível!

Fui tratada e repreendida como uma criança malcomportada. Quem aquele idiota pensa que é? O que tem de lindo tem de babaca!

— Fui eu! A culpa foi minha! — Margot segurou os meus braços e me virou para si. — Me desculpa! Eu não imaginei que aquilo iria acontecer! Aquele cara é um ogro!

— Ele é, mas você não tinha o direito de me empurrar! — Reclamei. — Agora me solta! Chega dessa merda por hoje! O dia acabou!

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