O mundo de Gabriel Valença
Helena não conseguiu dormir.
Não porque estivesse apaixonada.
Ela nem conhecia Gabriel Valença.
Mas porque não conseguia entender aquele homem.
Depois de chegar ao pequeno apartamento no Brooklyn que dividia com Emma, tomou banho, colocou uma camiseta larga e se jogou na cama.
Por alguns minutos, tentou convencer a si mesma de que aquele jantar era apenas uma conversa de trabalho.
Nada mais.
Mas sua curiosidade venceu.
Pegou o celular.
Digitou:
Gabriel Valença.
O resultado apareceu em segundos.
E ela percebeu que não estava apenas lidando com um homem rico.
Estava lidando com alguém que praticamente fazia parte da história empresarial de Nova York.
Reportagens.
Entrevistas.
Revistas.
O nome dele estava em todos os lugares.
"Gabriel Valença expande negócios para o mercado internacional."
"CEO transforma Grupo Valença em uma das maiores empresas privadas dos Estados Unidos."
"Conhecido por decisões precisas e uma postura extremamente exigente, Gabriel Valença raramente erra em suas escolhas."
Helena franziu a testa.
Escolhas.
Aquela palavra chamou sua atenção.
Continuou lendo.
Descobriu que Gabriel era conhecido por contratar poucas pessoas, mas sempre as melhores.
Não era um homem que aceitava qualquer profissional ao seu lado.
Ele avaliava.
Observava.
Testava.
E só depois tomava uma decisão.
Helena bloqueou o celular.
— Então por que eu?
Essa era a pergunta que não saía da sua cabeça.
Ela não era uma executiva.
Não tinha anos de experiência em grandes empresas.
Era uma bartender tentando construir a própria vida.
Mesmo assim, um dos homens mais poderosos de Nova York tinha parado para observar seu trabalho.
Aquilo não fazia sentido.
Na manhã seguinte, Emma encontrou Helena preparando café.
— Você parece que não dormiu.
Helena olhou para a amiga.
— Não dormi muito.
Emma sorriu.
— Gabriel Valença?
Helena revirou os olhos.
— Você precisa parar de achar que tudo é sobre ele.
— E você precisa parar de falar dele toda vez que diz que não está pensando nele.
Helena pegou a xícara.
— Ele me ofereceu um trabalho.
A expressão de Emma mudou.
— Trabalho?
— Uma proposta profissional.
— Helena, isso é enorme.
— Ou estranho.
Emma inclinou a cabeça.
— Por quê?
— Porque homens como ele não costumam aparecer na vida de pessoas como eu.
Emma ficou séria.
— Talvez ele tenha visto algo em você que você não percebe.
Helena ficou em silêncio.
Talvez.
Mas ainda não sabia se aquilo era uma oportunidade...
ou um problema.
Às oito da noite, Helena entrou no restaurante Aurelius.
E imediatamente percebeu que aquele lugar pertencia a outro mundo.
Não era apenas luxo.
Era influência.
Pessoas ali não conversavam apenas sobre negócios.
Conversavam sobre decisões.
Contratos.
Poder.
Ela respirou fundo.
Não deixaria aquele ambiente fazer com que se sentisse menor.
Quando o funcionário se aproximou:
— Senhorita Parker?
Ela confirmou.
— O senhor Valença está esperando.
Gabriel estava sentado quando ela chegou.
Mas dessa vez Helena percebeu algo diferente.
Na boate, ele era o homem observando.
Ali, ele era o homem sendo observado.
Todos naquele restaurante sabiam quem ele era.
E, mesmo assim, ele parecia completamente indiferente.
Gabriel levantou-se.
— Você veio.
Helena sentou-se.
— Eu disse que viria.
— A maioria das pessoas muda de ideia quando descobre mais sobre mim.
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Isso deveria me impressionar?
Pela primeira vez, Gabriel sorriu.
— Não.
— Ótimo.
O jantar começou.
Mas antes que pudessem conversar sobre a proposta, uma voz feminina interrompeu:
— Gabriel.
Os dois olharam.
Uma mulher alta, elegante e extremamente confiante estava parada ao lado da mesa.
Cabelos loiros.
Vestido vermelho.
Olhar calculista.
Ela não olhou primeiro para Gabriel.
Olhou para Helena.
Como se estivesse tentando entender quem era aquela pessoa sentada ali.
— Vanessa.
A voz de Gabriel mudou levemente.
Helena percebeu.
Ele continuava educado.
Mas havia tensão.
— Não sabia que você estava acompanhado.
— Agora sabe.
Vanessa sorriu.
Mas não havia simpatia naquele sorriso.
— Interessante.
Ela voltou os olhos para Helena.
— Você é?
Antes que Helena respondesse, Gabriel falou:
— Uma convidada.
A resposta parecia simples.
Mas Helena percebeu algo.
Ele não explicou.
Não se justificou.
E aquilo incomodou Vanessa.
— Entendi.
Mas o tom dizia exatamente o contrário.
Depois de alguns segundos, ela se afastou.
Porém, antes de desaparecer, lançou um último olhar para Helena.
Um olhar de aviso.
Quando ficou sozinha com Gabriel novamente, Helena perguntou:
— Ela sempre faz isso?
Gabriel pegou a taça.
— Vanessa faz muitas coisas.
— Ela é importante na sua vida?
Ele demorou alguns segundos para responder.
— Ela fez parte dela.
Helena percebeu a escolha das palavras.
Fez parte.
Não faz mais.
— Vocês foram próximos.
Gabriel olhou para ela.
— Fomos.
Antes que Helena pudesse perguntar mais, ele continuou:
— Mas existem coisas do meu passado que você ainda não conhece.
Ela ficou em silêncio.
E naquele momento percebeu algo.
Gabriel Valença não era apenas um homem rico.
Era um homem cercado por histórias que ninguém contava.
E talvez fosse exatamente isso que o tornava tão perigoso.