Chegada em Nova York

DAMIEN SINCLAIR

O vento frio de Nova York me atingiu quando desci do jatinho particular, trazendo junto o cheiro familiar de chuva. Depois de mais de um mês na Alemanha, aquilo era reconfortante. E, para ser mais honesto, depois desses dias cercado por executivos alemães que pareciam incapazes de demonstrar emoções humanas básicas, eu estava começando a sentir falta até das buzinas dos motoristas impacientes de Manhattan.

Passei a mão pelo rosto enquanto caminhava pelo terminal privado puxando a gravata pra afrouxar a pressão no pescoço. Meus pais tinham avisado mais cedo que Luca iria me buscar no aeroporto. Apesar de ter concordado com a ideia por telefone, eu ainda tentava entender por que tinham permitido isso em vez de mandar um motorista como pessoas normais fariam. Era provável que minha mãe acreditava que eu precisava de mais “tempo em família”.

Passei os olhos pelo terminal procurando meu irmão enquanto arrastava a mala atrás de mim. E, sinceramente, encontrar Luca Sinclair numa multidão deveria ser uma tarefa fácil, entretanto naquela noite com todas as luzes e caos de aeroporto eu estava tendo um pouco de problema.

Já estava quase chamando um carro de aplicativo quando ouvi alguém buzinar.

Olhei pra frente e vi meu irmão mais novo, Luca Sinclair, que estava praticamente deitado sobre o capô de um carro esportivo preto chamativo até para os padrões absurdos da nossa família. Os faróis iluminavam o sorriso no rosto dele enquanto girava a chave do carro no dedo como um adolescente problemático.

“Oh, não”, pensei enquanto passava a mão por meu rosto tentando entender como meus pais confiavam um carro à Luca. “Ele realmente veio.”

Assim que me viu, Luca abriu um sorriso de orelha à orelha.

— Finalmente! — ele exclamou enquanto vinha na minha direção. — Achei que os alemães tinham te sequestrado e pediriam resgate.

Suspirei cansado e ignorei o comentário dele. Nada de bom vinha da boca desse rapaz.

— Você tá usando corrente de ouro às onze da noite?

Meu irmão mais novo olhou ofendido para própria roupa, que consistia em uma camisa social preta aberta no pescoço, relógio caro, corrente dourada e um casaco jogado nos ombros.

— Isso se chama estilo.

— Isso se chama crise de identidade, isso sim.

Ele gargalhou antes de me abraçar e dar alguns tapinhas em meus ombros, repeti o gesto com ele. Apesar de tudo éramos irmãos.

— Você tá com uma cara horrível — comentou enquanto pegava minha mala sem pedir permissão.

— Obrigado pelo elogio. — Fiz uma pausa. — Senti sua falta.

— Senti sua falta também.

Revirei os olhos enquanto caminhávamos em direção ao carro.

Apesar dos dezenove anos, meu irmão parecia ocupar espaço demais por onde passava. Alto, bonito e mais carismático do que eu, e isso faria ele ser um CEO ainda melhor. Isso se ele quisesse, o que não era bem a meta de vida dele. Ele era o tipo de pessoa que nascia sem a capacidade de passar despercebida.

— Cadê o motorista? — perguntei automaticamente.

O sorriso dele aumentou na mesma hora.

“Isso não é um bom sinal”, pensei esperando o que quer que estivesse por vir.

— Mandei ele embora.

Parei de andar.

— Você fez o quê?

— Relaxa, eu vou dirigir.

Foi só ele terminar a frase que comecei a calcular mentalmente quantas leis de trânsito meu irmão conseguiria quebrar no caminho entre o aeroporto e o lugar em que vivíamos. A resposta provavelmente era “todas”.

Andei até o carro enquanto Luca jogava minha mala no porta-malas sem o menor cuidado, não se importando com o valor da mala ou do que tinha dentro.

— Você sabe que temos um motorista por um motivo, certo?

— E você sabe que, se eu deixasse você sozinho por cinco minutos, iria direto pro escritório em vez de pra casa.

Não respondi, pois ele estava certo.

Meu irmão apontou o dedo pra mim e falou em um tom acusatório:

— Viu? Esse silêncio aí é culpa.

Entrei no carro sem discutir porque estava cansado demais pra isso. Ele entrou logo depois, ligando o motor igual uma criança animada com brinquedo novo.

— A mãe perguntou se você vai jantar na cobertura hoje.

— Tenho escolha?

— Não, é da mãe que estamos falando.

Grunhi, vendo que realmente não teria outra escolha senão aceitar ou aceitar.

— Então eu vou.

Luca saiu do estacionamento e eu comecei a pedir mentalmente que sobrevivêssemos para ver o próximo dia.

— Você vai matar nós dois antes que cheguemos ao nosso prédio.

— Esse drama todo você aprendeu na Alemanha?

Observei Manhattan se aproximando através do vidro enquanto a chuva noturna começava a bater mais forte no carro. Minha cobertura na Quinta Avenida deveria estar do mesmo jeito que deixei: impecável.

Mesmo depois de um mês fora do país, eu já conseguia sentir o meu trabalho me esperando outra vez. Os inúmeros e-mails para serem lindos, contratos para serem assinados, reuniões a serem feitas e problemas a serem resolvidos. Esse último era o pior, por mais que tivesse bons subordinados tinha coisas que apenas eu como CEO poderia resolver.

Fui tirado de meus pensamentos quando Luca aumentou o volume da música no rádio e começou a falar algo sem noção:

— Você precisa transar ou dormir por doze horas — ele comentou de um jeito casual enquanto dirigia com uma mão só. — Talvez os dois.

Olhei pra ele, fuzilando-o com o olhar.

— Você tem dezenove anos. Acho que sua opinião de vida não devia nem ser legalizada ainda.

Ele gargalhou, estava se divertindo às minhas custas.

— Tá vendo? É por isso que eu vim te buscar. Você voltou da Alemanha parecendo um pior do que quando viajou.

Apoiei a cabeça no banco de couro enquanto observava a chuva escorrendo pelo vidro do carro em linhas tortas. Manhattan brilhava do lado de fora, molhada, barulhenta e caótica do jeito que sempre era à noite. Honestamente, depois de um mês inteiro na Alemanha cercado por silêncio e organização excessiva, aquilo era confortável.

Luca aumentou o volume da música sem pedir minha opinião e apoiou um braço na janela aberta parcialmente, dirigindo com uma mão só como se estivesse num maldito comercial de carro esportivo.

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