O asfalto da Faria Lima, outrora o palco de suas maiores batalhas, ficava para trás a cada quilômetro que o SUV de Nicholas percorria em direção ao litoral. Dentro do carro, o silêncio não era mais o vácuo de tensão que preenchia os elevadores da corporação, mas uma quietude preenchida pelo som suave da respiração de Anne e pelo vento que entrava pela fresta do teto solar. A renúncia pública de Nicholas no auditório ainda reverberava na mente de ambos, mas a sensação não era de perda; era de um alívio sistêmico, como se uma carga elétrica excessiva finalmente tivesse encontrado o fio terra.
Anne olhou para as próprias mãos, agora desprovidas do crachá que deixara marcas em seu pescoço por anos. Pela primeira vez em sua vida adulta, ela não precisava abrir um log de sistema às oito da manhã ou reportar sua localização a um supervisor como Paulo. O afastamento — que agora se desenhava como uma transição definitiva — abrira um espaço em branco em sua arquitetura de vida.
— Para onde esta