A vista

Capítulo 5

Sofia Kim

Eu mal havia passado pela porta de vidro da varanda quando Richard apareceu.

Congelei com a camisa branca dele ainda apertada contra o peito. Escondi atrás das costas imediatamente.

Assim que me viu, Richard parou de andar. O maxilar travou por um instante. Seus olhos passaram rapidamente pelas minhas pernas nuas, subiram pela camisa larga que eu vestia e estacionaram nos meus ombros.

Ele estendeu a mão, e instintivamente dei um passo para trás.

Meu calcanhar bateu no desnível da porta da varanda e perdi o equilíbrio por um segundo.

Richard me segurou pela cintura antes que eu caísse.

Meu corpo bateu de leve contra o peito dele. Ficamos imóveis por um segundo. O maxilar dele voltou a travar antes que me soltasse imediatamente, como se aquele contato o irritasse mais do que deveria.

— O que faz aqui? Você estava no meu quarto — afirmou ele. Não era uma pergunta, agora.

— Eu estava… olhando a vista. De lá a varanda é mais alta. Quis ver o mar.

Ele ergueu bem o queixo pra me olhar nos olhos. Maldito Brown... fez um calor traiçoeiro subir pela minha barriga.

— Qual a vista que você estava admirando, Sofia? — perguntou ele, a voz baixa e perigosa. — Porque o mar fica do lado completamente oposto ao que você estava olhando.

Meu rosto esquentou no mesmo instante.

Ótimo. Eu tinha sido pega.

Mas se Richard Brown esperava que eu abaixasse a cabeça por causa disso, conhecia muito pouco a mulher com quem havia acabado de casar.

Ergui o queixo e sustentei o olhar dele.

— Se terminou de me analisar... posso voltar para o meu quarto?

Richard deu mais meio passo na minha direção. O calor do corpo dele me atingiu imediatamente. Ele segurou meu pulso primeiro. Meu corpo inteiro ficou imóvel. Sem desviar os olhos dos meus, foi abrindo meus dedos um a um até retirar a camisa da minha mão. As pontas dos dedos dele roçaram nas minhas mãos por um segundo longo demais.

— Da próxima vez, peça — murmurou, tão perto do meu ouvido que senti sua respiração tocar minha pele. — Roubar é feio, Sofia — disse ele, dando mais um passo e me encurralando contra a parede.

— O quê? Eu não roubei nada — respondi, tentando manter a voz firme.

— Hm... Não roubou? — mostrou a camisa.

— Engraçado ouvir isso vindo do homem que roubou minha vida.

Por um instante, os dedos dele apertaram meu pulso com mais força. A expressão relaxada desapareceu.

Vi um músculo saltar em sua mandíbula.

Eu tinha acertado exatamente onde doía.

— Então estava me espiando? Só não entendi o que minha camisa veio fazer na sua mão…

O calor no meu rosto piorou. Prendi a respiração por um instante. Odiava perceber que aquele homem conseguia invadir meu espaço e ainda bagunçar meus sentidos.

— Claro que não! Eu nunca te espiaria — rebati, tentando recuperar o controle. — Você simplesmente me deixou sem opções. Não sabe nem meu número, porque aquelas camisas não servem nem no meu pai. O que esperava?

Ele encostou a mão na parede ao lado da minha cabeça, inclinando o corpo para frente. O calor dele me envolveu. Estávamos perto demais, e o silêncio dele era pior que qualquer grito.

— E demorou tanto tempo pra pegar uma camisa? — perguntou, a voz baixa e intimidante.

Cruzei os braços.

— Você faz perguntas demais para alguém que não quer ouvir as respostas.

Richard soltou uma risada seca, sem qualquer traço de humor. Eu conseguia ver a raiva através dos seus olhos, então permaneceu em silêncio por alguns segundos.

— Então era isso...

Franzi a testa.

— O quê?

— A curiosidade venceu o orgulho. — Revirei os olhos.

— Não se ache tanto. Eu só precisava de uma camisa que não parecesse uma barraca de acampamento.

O canto da boca dele quase se moveu. Quase.

— Continue mentindo, Sofia... Só que ninguém rouba um Brown e fica por isso mesmo. Você terá sua punição.

— Como assim? — perguntei, agora com mais veneno na voz.

Ele não respondeu. Apenas me puxou pelo braço para dentro do meu quarto, abriu o closet com um movimento brusco e jogou uma das saias feias e longas que ele havia escolhido para mim — aquela bege horrenda que chegava abaixo do joelho.

— Vista isso e venha comigo.

Me vi pelo espelho... eu continuava só com a camisa larga que dormi e a calcinha, mas não pretendia vestir por ordem dele. Cruzei os braços.

— Vista.

— Me obrigue.

Ele deu um passo, depois outro. Não havia raiva em seu rosto, mas estava muito determinado, e foi isso que me fez acreditar que ele realmente faria. Bufei de irritação.

— Você é insuportável.

Peguei a saia e a vesti por baixo da camisa comprida. Não porque ele mandou, mas porque eu me recusava a lhe dar o prazer de me carregar seminua pela mansão.

Assim que terminei, ergui o rosto.

— Feliz agora?

— Nem um pouco.

Ele agarrou meu pulso novamente e começou a me puxar escada abaixo.

— Richard, me solta agora — rosnei, fincando os pés e puxando o braço com força. — Eu não sou uma das suas empregadas pra você me arrastar pela casa.

Puxei o braço imediatamente, ele continuou andando. No terceiro degrau, girei o corpo exatamente como havia aprendido anos atrás nos treinamentos da família Kim.

Meu pulso escapou da mão dele, aproveitei o impulso, prendi seu braço por um segundo e usei o próprio peso dele para desequilibrá-lo.

Richard deu um passo para trás. Só um, mas deu. Nós dois congelamos.

Ele olhou para o próprio braço, depois para mim, e um sorriso pequeno apareceu no canto de sua boca.

Não era deboche, parecia interesse.

— Então você realmente sabe lutar...

Ele girou discretamente o próprio ombro, como se avaliasse a força que eu havia usado.

Pela primeira vez, não parecia me olhar como uma esposa inconveniente. Parecia analisar um adversário.

Sorri também.

— Achou que tivesse se casado com uma boneca?

— Não. — Ele voltou a se aproximar lentamente.

— Interessante.

Por um segundo ficamos imóveis, um medindo o outro. O que ele estava pensando?

Então ele segurou meu pulso outra vez.

Desta vez, firme o suficiente para impedir qualquer outro golpe.

— Acabou a diversão.

Revirei os olhos.

— Está com medo de perder?

— Ainda não.

Quando chegamos à cozinha, ele soltou meu braço. A marca dos dedos dele ainda queimava na minha pele... Estava deixando claro que aquela disputa estava apenas começando.

Por um breve segundo, nossos olhos se encontraram.

Pela primeira vez desde o casamento... nenhum dos dois desviou. Parecia como a conexão que tínhamos na infância. Mas desapareceu tão rápido quanto surgiu. O olhar dele voltou a ser gelo puro.

Ele ergueu a voz, um tom que ecoou por toda a mansão:

— Quero todos pra fora agora! Todos! Cozinheiros, empregadas, seguranças do interior… fora da cozinha!

Eu me endireitei, ainda respirando rápido, o pulso dolorido onde ele havia me segurado.

— O que você vai fazer, Richard? — perguntei, enquanto pensava se precisaria mostrar a ele que poderia derrubá-lo tranquilamente sem precisar de uma arma.

Os funcionários começaram a se mover rapidamente. Elena me lançou um olhar preocupado antes de desaparecer.

— Eu perguntei o que você vai fazer, Richard!?

Outra vez não respondeu. Apenas me encarou com aquela calma cruel, como se já tivesse decidido exatamente como seria o meu castigo.

— SAIAM TODOS! NÃO TENHO O DIA TODO!

Quando a cozinha ficou completamente vazia, ele permaneceu parado de costas para mim, com as mãos fechadas em punhos, a respiração pesada. Parecia tentar controlar alguma coisa.

Então girou de repente. Com um movimento brusco abriu a gaveta da bancada.

A faca bateu sobre o mármore, meu corpo inteiro ficou em alerta. Não recuei, também não desviei os olhos.

Richard apoiou as duas mãos na bancada.

Respirou fundo. Seus olhos continuavam presos nos meus, parecia realmente irritado.

— Você queria me provocar, Sofia? — perguntou, a voz perigosamente baixa.

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