Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 4
Sofia Kim — Só pode ser brincadeira... O closet estava lotado de roupas horríveis. Saias longas e retas em tons de cinza, bege e marrom. Blazers largos sem forma, vestidos que pareciam feitos para apagar qualquer traço de corpo ou feminilidade. Tudo sem corte, sem estilo, sem mim. Abri a bolsa de mão que tinham deixado no quarto. Só havia maquiagem, cremes e um pacote de lingeries. Peguei uma das calcinhas e segurei no ar, horrorizada. — Calçola de velha... Ele comprou calçola de velha pra mim? — soltei uma risada incrédula. — Meu Deus, Richard... você acha que casou comigo ou abriu um convento? Joguei a calcinha de volta na gaveta. Minhas malas de verdade, com minhas roupas e armas, ainda estavam na Rússia junto com o jato. Não adiantava reclamar agora. Olhei para as camisas brancas enormes penduradas. Peguei a menos pior e vesti. Chegava quase no meio das minhas coxas. Suspirei, exausta demais para brigar mais hoje. — Amanhã eu resolvo isso... — murmurei, apagando as luzes. . Acordei com a luz do sol invadindo a varanda e com o som das ondas batendo contra as pedras. Por um segundo, quase sorri, até abrir os olhos e lembrar que estava presa numa mansão luxuosa com um marido ditador. Fiquei olhando o teto, até que a realidade caiu sobre mim como um balde de água fria. Eu não tinha o que vestir. Levantei da cama e abri o closet novamente. As roupas continuavam lá, feias como na noite anterior. Não tinha como usar aquilo sem parecer uma secretária demitida de 1998. Até a camisa do Richard era menor que essas aqui, largas... Hummm! Olhei para a varanda. O quarto dele ficava logo ao lado. E se ele tinha acesso ao meu quarto... eu também teria acesso ao dele. — Se eu vou ser humilhada, que seja com estilo — resmunguei. Fui descalça pela sacada que conectava os dois quartos e empurrei a porta de vidro. Estava destrancada. Entrei silenciosamente no quarto dele. O ambiente era escuro, masculino e cheirava o perfume dele. Passei os dedos pelos cabides perfeitamente alinhados. Camisas brancas, azuis, pretas. Todas passadas. Todas organizadas por cor. Claro que Richard faria isso. — Psicopata... — murmurei. Peguei um dos frascos de perfume sobre a cômoda e senti o aroma. Fechei os olhos por um instante. Era o mesmo perfume que ainda parecia preso na minha pele desde o beijo dentro do carro. Revirei os olhos. — Odeio admitir... mas esse cheiro combina com você. Estava quase pegando uma camisa quando notei algo no chão, ao lado da mesinha de cabeceira. Um porta-retrato de prata estava quebrado, como se tivesse sido jogado com raiva. A foto dentro estava rasgada ao meio. Era nós dois quando crianças. Eu estava rindo com a cabeça encostada no ombro dele. Alguém — quase certamente ele — tinha rasgado a foto bem no meio, separando nossos corpos. Abaixei devagar e passei os dedos sobre um deles, não havia poeira. Aquilo tinha sido quebrado recentemente. Senti um aperto estranho no peito. Por que você rasgou isso, Richard? Se me odiava tanto... por que guardou essa foto durante todos esses anos? E por que resolveu destruí-la agora? Não tive tempo de refletir. O som do chuveiro sendo desligado me fez congelar. Corri para o closet dele. Peguei a primeira camisa social branca que encontrei... uma que parecia mais ajustada no corpo — e estava prestes a sair quando escutei os passos molhados no chão do banheiro. Corri, cheguei perto da varanda, mas por um segundo tentei imaginar como seria o corpo dele agora que é um homem, já que só tinha visto quando crianças... Eu deveria estar louca, mas escondida atrás de uma cortina eu espiei. Ele saiu do box só com uma toalha branca enrolada na cintura. Meu Deus do céu. Água escorria pelo peito definido, descendo pelos gomos do tanquinho que parecia esculpido. Os ombros largos, os braços fortes, aquela linha em V desaparecendo abaixo da toalha... Eu fiquei parada como uma idiota, sentindo o rosto queimar e algo muito inconveniente apertar na barriga. Respira, Sofia. Não é hora de ficar babando no tanquinho do seu inimigo. A toalha desceu um pouco mais quando ele se moveu. Eu definitivamente não estava preparada para aquilo. Certo... isso deveria ser ilegal. Meu cérebro desligou por dois segundos inteiros. Então ele parou e virou a cabeça parcialmente para o lado direito... Merda! Ele deve ter sentido meu cheiro ou ouvido minha respiração. O que eu faço agora? Se vira nos 30, sua idiota! Contei mentalmente e saí correndo pela varanda no exato momento em que ele começou a virar o corpo na direção da porta. Merda! Preciso ser mais rápida que ele... — Hm! — Parei de respirar.






