Capítulo 6

Capítulo 6

Ela entrou na sala com o tablet nas mãos, pronta para ditar a agenda do dia. As palavras saíam automáticas, até que, de repente, parou no meio de uma frase.

Ele… ele parecia diferente. Mais jovem talvez. Não apenas fisicamente, mas a energia que emanava dele parecia mais intensa, mais viva, quase impossível de ignorar.

— Senhor…? — murmurou.

Mark inclinou-se olhando para ela com um sorriso nos lábios. O simples olhar dele era suficiente para mexer com o corpo e a mente dela.

— Algum problema, senhorita Lancaster?

— Não, senhor.

Ela limpou a garganta, tentando afastar o calor que insistia em subir pelo corpo, e retomou a agenda. Sem perceber, observava-o, a linha do maxilar, a forma como ele se movia com segurança, e, sempre que os olhos dele se encontravam com os seus, ela baixava o olhar depressa, como se tivesse sido pega em falta.

O celular dele tocou. Mark ergueu a mão num gesto silencioso, pedindo que ela parasse.

— Pode falar, Julian. — Fez uma breve pausa, ouvindo com atenção. — Ele é mesmo meu filho? Ótimo. Faça as papeladas.

Elena sentiu o coração dar um salto, embora não soubesse explicar por quê.

— Já está tudo pronto? — continuou ele. — Traga para que eu assine. Leve-o para minha casa… temos muito o que conversar.

Desligou sem acrescentar mais nada. Por um instante, seus olhos observaram nela novamente, demorados demais para serem profissionais. Então, com um simples movimento da mão, indicou que ela prosseguisse.

— Pode continuar, senhorita Lancaster.

Ela assentiu, engolindo seco, e voltou falar a agenda.

No final do dia, ela foi ao mercado comprar algo simples para o jantar. Respirou aliviada quando o cartão passou.

— Graças a Deus… — murmurou, mais para si do que para o caixa.

Voltou para casa cansada com as sacolas. Assim que abriu a porta e deu um passo para dentro, parou, petrificada.

A cena diante dela parecia irreal.

O noivo estava estirado no sofá, com o controle de videogame largado de lado, enquanto uma mulher desconhecida estava sobre ele, subindo e descendo no pau dele. Eles riam, a televisão estava ligada em um jogo pausado, tinham roupas espalhadas pelo chão.

O mundo de Elena parou.

As sacolas escorregaram de seus dedos e caíram no chão. O barulho fez os dois se virarem ao mesmo tempo. Ele empalideceu; a mulher arregalou os olhos, tentando se cobrir às pressas.

— Elena… eu posso explicar… — ele começou a falar, nervoso.

Ela observou ele levantar, o pau estava melado e sem camisinha. Ela não gritou. Não chorou. Apenas sentiu algo dentro de si se partir de vez após a cena.

— Não precisa — disse, com a voz estranhamente calma. — Já vi o suficiente.

Virou-se, saiu e fechou a porta com força. No corredor do prédio, apoiou-se na parede, o peito ardendo e o coração acelerado. A decepção era grande, mas o alívio... Esse foi maior.

Voltou para o carro e ficou ali por longos minutos, o corpo inteiro tremia. Respirou fundo várias vezes até sentir as batidas do coração desacelerarem o suficiente para conseguir ligar o motor e sair dali. Não sabia para onde estava indo, e, naquele momento, isso simplesmente não importava.

Enquanto isso, no apartamento, Rubens encarava a mulher com o maxilar travado.

— Eu não tinha visto a hora… se tivesse percebido antes, já tinha te mandado embora. Merda! — rosnou, passando a mão pelos cabelos.

— Ah, deixa ela. Agora a gente fica junto, sem se esconder — respondeu ela, cruzando os braços.

Ele riu, sem humor.

— E você vai trabalhar pra me sustentar como ela fazia?

— Não. Você trabalha. Ou nós dois.

Rubens a encarou, irritado, e desviou o olhar.

— Tá vendo por que eu não posso perder ela? — murmurou. — Vou inventar alguma coisa pra trazer a Elena de volta.

— Seu interesseiro asqueroso — disparou a mulher, cheia de desprezo.

— Ah, some daqui! — ele gritou, apontando para a porta.

Ela deu uma risada curta, venenosa.

— Não precisa pedir duas vezes, pau pequeno.

— O quê?! — ele perguntou, indignado.

Mas ela já havia batido a porta com força, deixando o apartamento.

Rubens permaneceu parado, nu, encarando a porta fechada, como se ainda esperasse que ela voltasse. Na janela, o gato preto que observava a cena desviou o olhar e desapareceu na noite.

***

Elena parou o carro velho na rua da empresa e desligou o motor. Abriu os vidros, o calor parecia acompanhar as emoções dentro dela. Estava nervosa demais. Pegou uma revista qualquer no banco e começou a se abanar.

Foi quando levou um susto.

Um gato preto pulou para dentro do carro pela janela aberta e acomodou-se no banco do passageiro, fitando-a com olhos atentos demais para um simples animal. Elena colocou a mão no peito, tentando recuperar o fôlego.

— Meu Deus… — murmurou.

O gato se levantou, apoiou uma pata quente sobre a perna dela e, num gesto inesperado, esticou o corpo. A língua áspera roçou a bochecha de Elena num carinho lento. Em seguida, ele miou baixo e passou a ronronar, como se a reconhecesse.

Um arrepio percorreu-lhe a espinha. Por um instante, sentiu-se estranhamente acolhida. Quando piscou, tentando entender o que estava acontecendo, o gato já havia recuado, saltando para fora do carro com a mesma facilidade com que entrou.

Elena ficou ali, imóvel, com a mão na perna onde a pata havia tocado. Teve a nítida sensação de que aquilo não foi um acaso.

Ela ligou o carro quase sem pensar e seguiu o gato, que corria pela rua como se estivesse fugindo.

Foi então que o gato atravessou o portão de uma mansão.

Elena freou diante da imensa construção, antiga, envolta por sombras. Grades altas de ferro delimitavam o terreno, e o gato passou por elas com facilidade, desaparecendo entre os jardins.

Ela desligou o carro e desceu.

No instante em que se aproximou, as grades se abriram lentamente, sem um único rangido, como se a estivessem convidando a entrar. Elena virou-se para trás, esperando ver um carro, um segurança, qualquer explicação lógica. Mas a rua estava vazia.

Engoliu seco.

Movida pela curiosidade, atravessou os portões. Assim que passou, eles se fecharam atrás dela. Seu estômago revirou.

Havia uma luz acesa nos fundos da casa. Para alcançá-la, precisaria contornar a mansão. O caminho era ladeado por árvores antigas e esculturas de pedra gastas pelo tempo.

Avistou o gato novamente no quintal. Ele parou, olhou para trás como se tivesse certeza de que ela o seguia, e correu outra vez. Elena apressou o passo.

Então ela viu.

A piscina iluminada refletia a luz azulada contra as paredes claras. A água ondulava suavemente e um homem emergia dela naquele instante, passando a mão pelos cabelos molhados.

Elena parou, sem fôlego.

A água descia pelo corpo forte, delineando os músculos. Ele virou lentamente, como se soubesse que não estava mais sozinho.

Mesmo à distância, ela o reconheceu.

— Senhor… Darkmoor…? — o nome escapou num sussurro, incrédulo.

Os olhos dele encontraram os dela. Negros. Profundos. Os mesmos que a observavam todos os dias no escritório.

— Sinto muito — disse ele com calma. — Está me confundindo com meu pai.

— Pai? — Elena franziu a testa e, num estalo, lembrou-se da ligação do advogado, das palavras ditas ao telefone. — Ah… eu… sinto muito — murmurou, virando-se depressa ao perceber que ele estava nu.

Deu dois passos para longe dele, mas a curiosidade foi mais forte. Olhou por cima do ombro.

O homem diante dela era jovem. Os cabelos negros, caíam sobre os olhos de maneira displicente. O rosto… era praticamente idêntico ao de Mark Darkmoor quando era mais novo. O mesmo maxilar firme. A mesma presença perturbadora.

— Não tem problema — disse ele, pegando uma toalha e passando-a pela cintura com naturalidade. — Pode se virar… embora não adiante muito. Já que me viu sem nada.

— Eu realmente sinto muito — repetiu, constrangida.

Ele se aproximou alguns passos. Ela sentiu o perfume dele.

— Não sinta — respondeu, com um meio sorriso. — Acho que, de alguma forma… era para você estar aqui.

O gato preto surgiu então ao lado dele, sentando-se à beira da piscina e encarando Elena com olhos atentos.

O coração dela acelerou.

— Onde… onde eu estou? — perguntou, por fim.

— Na minha casa — respondeu ele, simplesmente. — Entre, sinta-se em casa.

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