7 - OLHOS NOS OLHOS

Dante saiu da empresa mais cedo naquele dia.

Não avisou ninguém. Apenas fechou a pasta, pegou o casaco e deixou o prédio antes que o movimento do fim da tarde tomasse os corredores. 

No caminho até o hospital, pensou em muitas coisas.

Pensou em começar se desculpando, em dizer que irá assumir tudo, inclusive uma indenização. Mas ainda assim, talvez não fosse o suficiente. Mas não sabia o que mais dizer.

Quando estacionou, permaneceu alguns segundos dentro do carro, com as mãos apoiadas no volante. Não havia ensaio possível para aquela conversa.

Entrou no hospital e seguiu direto para a UTI. A enfermeira o reconheceu.

- Senhor Owen, disse, em tom profissional. - Veio conversar com o Dr. Richard?

- Sim. Onde ele se encontra?

- Está logo ali. - Vamos, eu o acompanho. Ela hesitou por um instante antes de perguntar. - Pretende ver a paciente também?

- Sim. - Quero saber o boletim médico e, na sequência, irei vê-la.

A enfermeira já sabia que Melissa não queria vê-lo e informou a Dante de que, enquanto ele conversava com o médico, ela iria perguntar à paciente se aceitava recebê-lo.

Dante assentiu, sem entender ao certo. Ele estava ali para vê-la.

Enquanto aguardava o Dr. Richard terminar uma avaliação, a enfermeira foi avisar Melissa de que Dante estava no hospital.

Entrou no quarto.

Melissa estava acordada. Os olhos atentos para quem ainda sentia dor. A enfermeira a olhou com certa tensão, e Melissa concluiu imediatamente.

- O homem que me atropelou está aqui, não é?

- Sim, respondeu a enfermeira. - Ele está com o Dr. Richard agora e pretende vir vê-la.

Melissa fechou os olhos por um instante.

A imagem voltou inteira.

O farol.

A rua.

O impacto.

- Não, disse, firme. Desta vez, a voz não saiu fraca. - Não agora. - Não quero vê-lo.

A enfermeira não insistiu.

Naquele mesmo instante, o Dr. Richard se aproximou de Dante no corredor.

- Senhor Owen, chamou, com o prontuário em mãos. - Precisamos conversar.

- Sim. Estou aqui para isso. - Como está a paciente?

- Ela está consciente, explicou o médico. - Acordou durante a madrugada e novamente pela manhã. Teve episódios de dor intensa, mas a resposta neurológica é boa. -  Está lúcida, orientada, sem sinais de déficit cognitivo ou motor até o momento.

- Ela vai ficar com sequelas? Perguntou Dante, direto.

- Ainda é cedo para afirmar qualquer coisa, respondeu o médico. - Mas o quadro evolui melhor do que o esperado. - As costelas exigirão repouso. A recuperação será lenta, mas, até o momento, não há indícios de sequelas. Precisamos avaliá-la em pleno funcionamento para confirmar.

Dante respirou fundo.

- Entendo. Fez uma pausa. - Mas que ótima notícia. - Que ela fique bem logo. - Vou vê-la agora.

Enquanto caminhava em direção ao quarto de Melissa, a enfermeira o interceptou no corredor.

- Senhor Owen…, disse, com cuidado. - Ela pediu um tempo. Disse que não está pronta e não quer vê-lo.

A frase o pegou de surpresa.

Dante franziu levemente a testa.

-Ela… pediu?

- Pediu, confirmou a enfermeira. - De forma clara.

Houve um segundo de silêncio.

Dante não estava acostumado àquilo. Não à recusa. Não à ideia de que aquela jovem, que ele vinha chamando mentalmente de pobre coitada, tivesse uma decisão própria tão firme.

- Entendo, disse por fim, mesmo sem entender de fato.

- Recomendo respeitar, acrescentou a enfermeira.

- Claro, respondeu Dante. - Diga a ela que volto depois.

Caminhou até o elevador sem pressa. Desceu até o estacionamento e entrou no carro. Fechou a porta, ligou o motor… e ficou parado.

O silêncio se impôs.

Pensou em ir embora. Pensou que talvez fosse melhor assim. Que cada um seguisse seu caminho. Que indenização, advogados e acordos resolvessem o que precisava ser resolvido.

Mas havia algo ali que não se resolvia com distância.

Desligou o motor.

Saiu do carro.

Entrou novamente no hospital.

Não pediu autorização. Não explicou nada. Apenas seguiu pelo corredor até o quarto onde Melissa estava internada.

Abriu a porta com cuidado.

Melissa estava acordada.

Quando o viu, o coração acelerou antes mesmo que pudesse pensar.

Ele não se aproximou de imediato. Parou a alguns passos da cama.

E foi ali que Dante a viu de verdade.

Não mais em preto e branco.

Agora havia cor.

Um leve tom rosado nas bochechas. Os olhos cor de mel estavam abertos e atentos, trazendo equilíbrio e harmonia à pele clara e aos cabelos negros. Os lábios, naturalmente vermelhos, denunciavam que a vida começava a voltar.

Ela estava frágil.

Mas viva.

E bela, de um jeito que o pegou de surpresa.

Do outro lado, Melissa o observava com confusão crescente.

Antes de apagar no acidente, havia visto algo.

Uma presença.

Naquele instante entre a dor e o escuro, pensara ter visto um anjo. Cabelos castanhos claros. Olhos verdes. Uma imagem tão bonita e irreal que sua mente ferida havia transformado em algo celestial.

E agora, ali, diante dela, estava o mesmo rosto.

Não era um anjo.

Era um homem.

Alto. Contido. Olhar firme.

A percepção a desarmou.

- Eu sei que você disse que não queria me ver, disse Dante, com a voz baixa. - E eu respeito isso.

Melissa não respondeu.

- Mas achei que precisava vir mesmo assim, continuou. - Não para justificar nada. Nem para pedir nada.

Ela o observava em silêncio.

- Só para dizer que eu estou aqui, concluiu. - E que vou assumir tudo o que for necessário.

O silêncio voltou a se espalhar pelo quarto.

Melissa respirou com cuidado. A dor estava ali, constante, mas havia algo maior ocupando espaço dentro dela naquele momento.

Raiva.

Confusão.

Medo.

- Eu não pedi isso, disse, por fim. - Não pedi pra ser atropelada. Não pedi pra estar aqui.

- Eu sei, respondeu Dante. - E nada do que eu disser muda isso.

Ela desviou o olhar por um segundo.

- Então por que voltou?  Perguntou. -  Se eu disse que não queria te ver.

Dante respirou fundo.

- Porque fingir que isso não aconteceu não vai apagar nada, respondeu. - E porque eu não sou o tipo de homem que vai embora quando as coisas ficam difíceis.

Melissa o encarou novamente.

Não havia pedido de perdão exagerado.

Não havia explicação defensiva.

Não havia discurso ensaiado.

Apenas presença.

E isso a desarmou mais do que gostaria.

O encontro não trouxe alívio.

Mas trouxe algo inevitável: agora, nenhum dos dois podia fingir que o outro não existia.

A raiva que ela esperava sentir não veio inteira. A voz sumiu.

Dante se aproximou um pouco mais.

- Escute, disse. - Você pode sentir raiva. É um direito seu. Aliás, você tem muitos direitos nessa situação. Talvez ainda não se dê conta disso. Por isso estou disponibilizando uma advogada para te explicar tudo e, assim, chegarmos a um acordo justo. Você tem direito a indenização, além de todos os gastos médicos serem pagos por mim. E, se houver sequelas, vou pagar uma indenização vitalícia.

Melissa abaixou a cabeça, pensativa.

- Quer que eu te agradeça?  Disse, irônica. - Eu não vou precisar da sua indenização vitalícia. - Sabe por quê? - Porque eu não vou ter sequela alguma.

Os olhos marejaram.

- Eu sinto muito, respondeu Dante. - Não foi isso que quis dizer. - Falei de forma prática para que você entendesse que assumo minhas responsabilidades. - Não percebi que isso poderia ser pesado de ouvir.

- Está perdoado, respondeu ela. - Por isso e pelo resto. - Fez uma pausa. - Não vou querer a advogada.

- Não?  Dante se surpreendeu. - Mas é um direito seu.

- Eu sei. - Quero te propor algo.

- O quê? — perguntou.

- Não faço ideia do valor dessa indenização e nem quero saber se tenho direito a mais ou a menos. - Mas preciso que você faça algo com esse meu direito.

- O quê? Repetiu Dante.

- Acerte as despesas médicas do hospital onde meu pai está internado. - Nada mais me importa agora. Só isso.

Ela respirou com esforço.

- Em breve vou me levantar dessa cama. - Depois disso, eu mesma me viro. - Pode fazer isso por mim?

Dante ficou sem palavras.

Concordou de imediato.

Ela, mesmo naquela situação, estava mais preocupada com o pai do que consigo mesma.

- Me passe o nome do hospital e os dados dele, disse. — Vou resolver isso.

Melissa informou. Dante anotou.

- Não precisa voltar aqui, disse ela. - Vou sair dessa cama. - Não vou precisar de mais nada. - Pode seguir sua vida sem remorso.

Dante concordou. Caminhou até a porta, pensativo, mas aliviado por saber que aquele corpo no chão agora estava vivo, corado e sabia argumentar.

Antes que saísse, Melissa o chamou:

- Dante… obrigada!

Ele se lembrou do que Leon dissera.

- Obrigado pelo quê?

- Por atravessar meu caminho. - Se esse era o preço para salvar meu pai, eu pago com gosto.

Dante saiu sem responder.

Não sabia se sentia pena… ou admiração pela mulher que acabara de conhecer.

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