Mundo de ficçãoIniciar sessãoAinda no mesmo dia, pela manhã.
Dante mal havia atravessado a porta do andar quando ouviu seu nome.
- Dante.
Ele parou no meio do corredor.
Leon vinha em sua direção, passos firmes, expressão séria para ser apenas curiosidade. Trabalhavam juntos havia anos. Leon sabia reconhecer quando algo estava fora do lugar.
- Você sumiu, disse ele. - Cancelou reuniões, saiu no meio da nossa última reunião, não respondeu mensagens. O que aconteceu?
Dante respirou fundo, medindo as palavras.
- Aconteceu uma coisa, respondeu. - E não foi pequena.
Leon cruzou os braços.
- Dá pra ser mais específico?
Dante olhou em volta. Gente passando, vozes misturadas, a empresa funcionando como sempre.
- Vamos entrar , disse. - Melhor conversar na minha sala.
Entraram. Dante fechou a porta e apoiou as mãos na mesa por um instante, como se organizasse o que diria.
- Eu me envolvi num acidente, começou. - Atropelei uma pessoa.
Leon arregalou levemente os olhos.
- Como assim?
- Foi na noite da última segunda-feira. Estava chovendo muito, o trânsito parado. Quando o trânsito deu uma brecha, eu acelerei. Por uma distração de segundos, não freei a tempo, explicou Dante, sem rodeios.
- Ela está viva? - perguntou Leon, direto.
- Está. Ficou em estado grave, mas agora está estável.
Leon soltou o ar devagar.
- Meu Deus…
- Eu fiquei no hospital desde o início, continuou Dante. - Assumi tudo. Tratamento, despesas, o que foi necessário.
- E juridicamente? - perguntou Leon.
- Tudo foi registrado. Não houve fuga. Não houve negligência comprovada, respondeu Dante. - Ainda assim, vou acionar o advogado. Quero formalizar uma indenização.
Leon cruzou os braços.
- Você não costuma agir por impulso.
- Isso não é impulso, disse Dante. - É responsabilidade.
Houve um breve silêncio.
- O nome dela é Melissa Cross, acrescentou Dante. - Ela esteve inconsciente até ontem. Parece que ainda está, não sei ao certo. Desde ontem não tive mais notícias.
- Como você se sente com relação a isso, Dante? - perguntou Leon.
- Cansado. Testado. Sinto a vida me testando, respondeu. - Queria que não tivesse acontecido, mas aconteceu. Agora preciso arcar com as responsabilidades.
Leon assentiu.
- Vou falar com o Jonas, o advogado, disse ele. - Pensar no valor da indenização.
- Faça isso, Leon. Te agradeço. Estou com a cabeça cheia demais e ainda preocupado, torcendo para que essa moça não tenha ficado com sequelas. Pelo que vi, ela é uma pobre coitada, com o pai doente. Provavelmente veio procurar emprego na cidade grande, como fazem tantas pessoas do interior com poucos recursos. Encontrei papéis molhados na mochila dela, pareciam currículos, mas estavam tão estragados que não consegui ver sequer o nome ou as instruções.
- Sendo assim, disse Leon, - ela mal deve saber dos próprios direitos. É capaz de te agradecer por você ter pago a conta do hospital, mesmo sendo o responsável pelo atropelamento. Esse pessoal de baixa renda agradece por tudo, até quando tem direitos.
- Leon, não seja maldoso, - respondeu Dante. - Mas você tem razão. Só o que me faltava essa pobre coitada me agradecer. Aí, sim, eu seria corroído pelo remorso.
Fez uma pausa e completou:
- Assim que possível, traga o Jonas à minha sala. Quero que ele me oriente legalmente sobre os passos que devo seguir para ser justo e não ficar em dívida com a justiça. Peça para que venha assim que puder. Pretendo ir ao hospital visitar a moça ainda hoje.
No hospital, ao entardecer, Melissa pediu à enfermeira se poderia se levantar. Mesmo sentindo muita dor, a pressa em melhorar lhe dava forças para enfrentar o desconforto físico.
- Mel… posso te chamar assim? - perguntou a enfermeira. - Foi o primeiro nome que você vocalizou quando a equipe perguntou seu nome.
- Claro. - Mel é meu apelido desde a infância.
- Um apelido que faz jus a você. - Seus olhos cor de mel são lindos, intensos. Fazia tempo que não via uma tonalidade assim, misturando mel com um pouco de ocre. - Além disso, você parece ser um doce de pessoa. Completou a enfermeira.
Melissa sorriu de leve.
- Muito obrigada. Há tempos não ouço um elogio tão bem elaborado. Te agradeço de verdade. Mas me diga… posso me levantar?
- Não pode, Mel. - Por enquanto, não. - Além da pancada na cabeça, você fraturou três costelas. Por isso sente dor ao respirar, tossir ou chorar. - Precisa de repouso absoluto para que os ossos calcifiquem novamente. O ortopedista já as colocou no lugar durante as cirurgias, mas agora é preciso esperar.
- Cirurgias? Quantas cirurgias eu fiz?
- Duas cirurgias grandes. Uma na cabeça, para controlar a pressão e o sangramento, e outra nas costelas. Além disso, você perdeu muito sangue e precisou de transfusão.
Melissa arregalou os olhos.
- Tinha meu tipo sanguíneo nos estoques? Sempre tive medo de algo assim acontecer, porque sei que meu tipo é difícil de encontrar.
A enfermeira hesitou um segundo.
- Mel… o homem que te atropelou foi quem doou o sangue para você. - Ele não tem o mesmo tipo sanguíneo, mas o sangue dele era compatível com o seu. Isso salvou sua vida.
Melissa ficou em silêncio por alguns instantes.
- Como entender os desígnios de Deus, não é? — murmurou. - Não sei se sinto raiva ou gratidão por ele não ter me deixado morta no chão.
- Provavelmente ele virá te ver hoje, disse a enfermeira.
Melissa franziu o rosto.
- Não sei se estou preparada para vê-lo. Na verdade, nem queria. Ele me atropelou. Eu me lembro de atravessar a rua com o farol aberto para mim e fechado para ele. Será que não estava bêbado?
- Não, Mel. Ele não estava bêbado. Dante Owen foi o homem que te atropelou. - Ele é um empresário influente na indústria automobilística. É o CEO da D.O.W.
-Hum…, resmungou Melissa. - Já entendi tudo. - Deve ser mais um desses mauricinhos que se acham donos do mundo. - Já convivi com tipos assim.
- Não tire conclusões precipitadas, respondeu a enfermeira. - Ele me parece um bom homem. Estava realmente preocupado. E muito culpado também.
Melissa suspirou.
- Desculpa falar assim. - Estou com raiva. - Só me faltava ele querer que eu agradeça por ter me atropelado e depois me socorrido… fez uma pausa. - Mas talvez seja isso mesmo. - Esse povo rico quer que a gente se contente com qualquer gesto nobre.
Ela virou o rosto para a janela.
- Enfim… farei o que meus pais sempre me ensinaram. -Não bater de frente com quem pode mais do que eu.
Melissa ficou em silêncio depois de dizer aquilo.
A enfermeira percebeu. Não insistiu. Apenas ajeitou o lençol com cuidado, como quem entende que certas dores não estão no corpo.
- Você precisa descansar, disse por fim. - Seu corpo passou por muita coisa.
Melissa concordou com a cabeça.
As lágrimas vieram de novo, silenciosas dessa vez. Melissa mordeu o lábio para não gemer, respirando curto, controlando o choro como quem aprende a sobreviver em silêncio.
No mesmo horário, a quilômetros dali, Dante tentava se concentrar em números que não faziam mais sentido naquele exato momento.
A batida discreta na porta o tirou dos próprios pensamentos.
- Entre, disse Dante, sem levantar os olhos.
Jonas surgiu na porta segundos depois. Terno escuro, pasta fina sob o braço, expressão objetiva. Era o tipo de homem que não perdia tempo com rodeios, nem oferecia conforto onde não cabia.
- Leon me chamou, disse, fechando a porta atrás de si. - Falou que você precisava conversar sobre um acidente.
Dante assentiu e indicou a cadeira à frente da mesa.
- Atropelei uma mulher, disse direto. - Ela ficou em estado grave. - Está se recuperando agora.
Jonas abriu a pasta com calma, como se aquela fosse apenas mais uma situação a ser organizada.
- Houve boletim de ocorrência?
- Houve. Fiquei no local. Prestei socorro. Tudo registrado.
- Teste de alcoolemia?
- Deu negativo. Respondeu Dante
Jonas anotou algo.
- Ótimo. Isso elimina muita coisa, disse. - Do ponto de vista criminal, a situação tende a ser tratada como acidente de trânsito, ainda mais considerando as condições climáticas.
- Não estou preocupado só com isso, respondeu Dante. - Quero fazer o que é justo.
Jonas ergueu o olhar pela primeira vez.
- Justiça e indenização nem sempre caminham juntas , disse. - Mas vamos aos fatos. - Ela teve despesas médicas?
- Todas. Cirurgias, UTI, transfusão de sangue. Assumi tudo desde o início.
- Isso conta a seu favor, afirmou Jonas. - Mostra boa-fé.
- Ela ainda está hospitalizada, continuou Dante. - E há a possibilidade de sequelas. Ainda não sabemos.
Jonas fechou a pasta devagar.
- Nesse caso, o mais prudente é aguardar o laudo médico definitivo antes de falar em valores. Indenização não é só sobre o que aconteceu, mas sobre o que deixa de ser possível depois.
Dante inclinou-se levemente para frente.
- Ela não parece ter muitos recursos, disse. - Pelo que vi, estava procurando emprego. O pai está doente.
Jonas franziu a testa.
- Isso explica a vulnerabilidade, mas precisamos ter cuidado, alertou. - Pessoas nessa situação, muitas vezes, não sabem o que podem exigir. Não é incomum aceitarem menos do que têm direito por medo ou desconhecimento.
- Não quero isso, disse Dante, firme. - Não quero que ela aceite nada por gratidão ou constrangimento.
Jonas o observou por alguns segundos antes de responder.
- Então o melhor caminho é formalizar tudo com clareza. Quando ela estiver em condições, oferecemos um acordo justo, documentado. Com opção de advogado para ela, inclusive.
- Faça isso, disse Dante. - Quero que ela tenha orientação.
- Há outro ponto, acrescentou Jonas. - Se houver incapacidade temporária ou permanente para o trabalho, a indenização precisa considerar renda futura.
Dante respirou fundo.
- Eu sei.
- Você pretende falar com ela pessoalmente? — perguntou Jonas.
- Sim. Vou ao hospital hoje.
Jonas levantou-se, organizando os papéis. - Vou preparar os cenários possíveis. - Assim que tivermos os relatórios médicos, avançamos.
- Obrigado, Jonas.







