Mundo de ficçãoIniciar sessãoRicardo Ferraz acordou mais tarde do que o habitual.
O quarto ainda estava silencioso. Ele se espreguiçou levemente, passando a mão pelo lado da cama. Vazio. Franziu a testa por um instante. — Isabella? — chamou, ainda com a voz rouca de sono. Nenhuma resposta. Ele se levantou, já ajustando a camisa, e desceu para o café da manhã. — A senhora Isabella já acordou? — perguntou, puxando a cadeira. A empregada assentiu. — Sim, senhor. Ela saiu cedo. Ricardo arqueou uma sobrancelha, surpreso. — Cedo? — Disse que tinha compromissos de trabalho. Ele deu de ombros, pegando uma xícara de café. — Hm. Nada fora do normal. Isabella sempre foi dedicada ao trabalho. Responsável. Previsível. Ele tomou um gole do café, tranquilo. Sem imaginar que, pela primeira vez… Ela estava saindo da rotina que ele tanto confiava. — Do outro lado da cidade, Isabella Duarte dava os últimos ajustes em mais um evento. O salão estava impecável. Flores perfeitamente alinhadas. Mesas organizadas com elegância. Cada detalhe cuidadosamente planejado. A cliente — uma noiva recorrente — já havia contratado Isabella diversas vezes para eventos da família. E não era por acaso. Ela era excepcional no que fazia. Perfeccionista. Dedicada. E, acima de tudo… Apaixonada por transformar sonhos em realidade. — Está perfeito, Isabella! — disse a noiva, emocionada. Isabella sorriu, com gentileza. — Fico muito feliz que tenha gostado. E era verdade. Mesmo com tudo acontecendo em sua vida pessoal… Trabalhar ainda era o único momento em que ela conseguia respirar. Se distrair. Não pensar. Ou, pelo menos, tentar não pensar… No que faria nos próximos dias. Seu celular vibrou. O nome na tela fez seu coração pesar. Ricardo. Ela hesitou por um segundo. Mas abriu a mensagem. "Quero te ver hoje no jantar. Antes da viagem. Saio por três dias." Isabella ficou em silêncio. Três dias. Quando ele voltasse… Ela não estaria mais lá. Um gosto amargo surgiu em sua boca. Ela sabia muito bem que tipo de “viagem de trabalho” era aquela. Camila Albuquerque certamente estaria ao lado dele. Como sempre esteve. Mas não importava mais. Isabella respirou fundo. Bloqueou a tela do celular. E simplesmente… não respondeu. Guardou o aparelho e voltou ao trabalho. Como se aquela mensagem não tivesse importância. Como se ele… não tivesse mais. — Horas se passaram. O evento foi um sucesso absoluto. Como sempre. Os convidados elogiavam cada detalhe. A noiva não escondia a felicidade. E Isabella… Cumpria seu papel com perfeição. Mais um projeto impecável. Mais uma prova do seu talento. Ela amava aquilo. Amava criar momentos felizes. Mesmo que o seu próprio mundo estivesse desmoronando. Quando tudo terminou, já era noite. Tarde. Muito tarde. O cansaço pesava em seus ombros. Mas havia também uma sensação de dever cumprido. De orgulho. Ela se despediu da equipe e seguiu para casa. Ao entrar, percebeu o silêncio. Olhou o relógio. Uma hora de atraso para o jantar. Isabella caminhou até a sala de jantar. A mesa estava vazia. Nenhum sinal de que alguém havia estado ali. Nenhum prato. Nenhuma taça. Nada. Ela franziu levemente a testa. — Ele está atrasado… — murmurou. A empregada, que passava pelo corredor, ouviu. — O senhor Ricardo não voltou para casa, senhora. Isabella virou o rosto. — Não? — Não, senhora. Ele saiu pela manhã e informou que viajaria à noite. Disse que pegaria o primeiro voo da madrugada. Isabella ficou em silêncio por um instante. Então assentiu levemente. — Entendi. Sem surpresa. Sem decepção. Apenas… confirmação. Ela pegou o celular. Havia uma nova mensagem. Um áudio. Enviado há trinta minutos. Isabella apertou o play. — Amor, tive um imprevisto… não vou conseguir ir ao jantar hoje — disse a voz de Ricardo. E então… Ao fundo… Uma risada feminina. Leve. Familiar. Camila. Isabella fechou os olhos por um segundo. Mas não havia dor. Não como antes. Apenas um vazio frio. Ela bloqueou o celular. De qualquer forma… Não era como se ela quisesse que ele estivesse ali. Na verdade… Aquilo era até melhor. Três dias. Três dias sozinha naquela casa. Sem mentiras sendo encenadas na sua frente. Sem toques que agora lhe causavam repulsa. Sem a presença dele. Isabella respirou fundo. Talvez… Aqueles três dias fossem tudo o que ela precisava. Para finalmente ir embora. E nunca mais olhar para trás.






