Mundo de ficçãoIniciar sessão# Capítulo 3: A Sobrevivente do Queens
**Ponto de Vista: Narrador**
Longe do brilho opulento e dos silêncios pesados de Park Avenue, no coração pulsante e implacável do Queens, outra vida se desenrolava, uma vida medida não em metros quadrados de mármore, mas em centavos contados e orações sussurradas. Aqui, os arranha-céus de Manhattan eram apenas um contorno distante no horizonte, uma miragem de um mundo inalcançável. Para Alice Coone, essa miragem era um lembrete diário da distância entre seus sonhos e sua realidade.
A vida de Alice era uma colcha de retalhos de responsabilidades, costurada com os fios da necessidade. Aos vinte e quatro anos, ela deveria estar explorando o mundo, descobrindo a si mesma, talvez se apaixonando. Em vez disso, ela passava seus dias em um ciclo interminável de trabalho, cuidando dos filhos de outras pessoas para que pudesse cuidar de sua própria família. Ser babá não era uma escolha de carreira, mas uma sentença. Uma que ela cumpria com a resiliência silenciosa de quem não tem outra opção.
Cada manhã, ela saía de sua pequena casa de tijolos, um imóvel que rangia sob o peso de uma hipoteca prestes a vencer, e pegava o metrô para os bairros mais abastados. Lá, ela se transformava na babá perfeita: paciente, enérgica e carinhosa com crianças que tinham mais brinquedos em seus quartos do que Alice tivera em toda a sua infância. E a cada noite, ela voltava para casa, trazendo o pouco dinheiro que ganhava para uma família que parecia ter um talento especial para a ingratidão.
O epicentro dessa ingratidão era sua mãe, Verônica Coone. Uma mulher cuja beleza envelhecida era uma arma que ela ainda tentava brandir, Verônica vivia em um mundo de fantasias frustradas e amargura. Ela via a beleza e a juventude de Alice não com orgulho maternal, mas com uma inveja corrosiva. Para Verônica, Alice não era uma filha, mas um ativo. Um ativo que, em sua mente distorcida, não estava rendendo o suficiente. Desde a morte do Sr. Coone, um homem bom e trabalhador cujo coração simplesmente desistiu sob o peso das dívidas, Verônica se tornara ainda mais predatória.
O luto de Alice por seu pai era uma ferida profunda e silenciosa. Ele fora seu porto seguro, o único que via a luz dentro dela. Agora, sem ele, a casa parecia mais fria, e as garras de sua mãe, mais afiadas. A dor da perda era agravada pelo medo. O banco não se importava com corações partidos; ele se importava com pagamentos. E os avisos de execução hipotecária chegavam com uma regularidade assustadora, cada envelope um prego a mais no caixão de suas esperanças.
Foi em uma noite particularmente sombria, com mais uma carta do banco sobre a mesa da cozinha, que Alice confrontou os verdadeiros limites da moralidade de sua mãe. Verônica, com os olhos brilhando de desespero e ganância, mencionou um "amigo", um homem mais velho e rico, que havia demonstrado "interesse" em Alice. "Ele poderia resolver todos os nossos problemas", dissera Verônica, a sugestão venenosa pairando no ar. Naquele momento, Alice entendeu que sua mãe não estava apenas cogitando, mas ativamente tentando vendê-la. A náusea que sentiu foi mais do que repulsa; foi a morte de qualquer resquício de ilusão que ainda pudesse ter sobre o amor materno.
Seu único refúgio, a única fonte de luz em sua vida, era sua irmã mais nova, Lily. Com dez anos de idade, Lily ainda possuía a inocência que o mundo já havia roubado de Alice. Proteger essa inocência tornou-se a missão de Alice, seu propósito. Era por Lily que ela suportava os dias longos, as crianças mimadas e a toxicidade de sua mãe. O amor que sentia pela irmã era feroz, incondicional, a única emoção pura que lhe restava.
No fundo de seu coração, sob as camadas de preocupação e exaustão, a antiga Alice ainda existia. A sonhadora que se perdia nas páginas de romances, que acreditava em um amor grandioso, um amor que daria sentido a tudo, que a resgataria não com dinheiro, mas com paixão e pertencimento. Ela ansiava por um olhar que a visse de verdade, um toque que não quisesse nada em troca, uma conexão que a fizesse sentir que não estava apenas sobrevivendo, mas vivendo.
Mas a sobrevivência era uma tirana exigente. Ela não deixava muito espaço para sonhos. E assim, Alice continuava, dia após dia. Levantando-se antes do sol, lutando contra as multidões no metrô, sorrindo para crianças que não eram suas, e voltando para uma casa que poderia não ser sua por muito mais tempo. Ela era uma guerreira em uma batalha silenciosa, suas emoções profundas trancadas a sete chaves, seu amor por Lily como seu único escudo. Ela não sabia, mas do outro lado da cidade, em uma mansão silenciosa, um homem tão perdido quanto ela estava prestes a tomar uma decisão que mudaria o curso de suas vidas para sempre. O destino, com seus fios invisíveis, já havia começado a tecer seus caminhos juntos.







