Mundo de ficçãoIniciar sessão# Capítulo 4: Um Grito Silencioso
**Ponto de Vista: Alice Coone**
A fumaça do meu hálito se mistura com o ar gelado da manhã, uma pequena nuvem branca que se dissipa tão rapidamente quanto meus sonhos. O sol está apenas começando a tingir de cinza o céu sobre o Queens, mas para mim, o dia já começou há muito tempo. O som do primeiro alarme, às cinco da manhã, é o tiro de partida para uma maratona diária que parece nunca ter uma linha de chegada.
Enquanto caminho em direção à estação de metrô, o peso do mundo parece se concentrar em meus ombros. Não é um peso metafórico; é físico. Sinto-o na tensão do meu pescoço, na dor incômoda na parte inferior das minhas costas, no cansaço que se infiltra em meus ossos. É o peso de contas não pagas, de um futuro incerto e, acima de tudo, do olhar assustado de Lily na noite passada, quando ouviu mamãe gritando comigo sobre a carta do banco.
"Eles vão nos expulsar, Alice?", ela sussurrou, seus grandes olhos castanhos, tão parecidos com os do papai, cheios de lágrimas. Eu a abracei, afundando meu rosto em seus cabelos cheirosos de shampoo infantil, e menti. "Não, meu amor. Nunca. Eu não vou deixar."
A mentira tem um gosto amargo na minha boca. Eu sou forte, mas não sou uma mágica. O salário que ganho como babá mal cobre nossas despesas básicas. A hipoteca é um monstro faminto que devora cada centavo extra que consigo juntar. E mamãe... mamãe não ajuda. Pelo contrário. Ontem, depois que Lily foi dormir, ela voltou ao assunto do "amigo" rico. Desta vez, com mais insistência.
"Você é uma tola, Alice!", ela sibilou, seus dedos apertando meu braço. "Uma tola orgulhosa! O que você acha que vai acontecer? Acha que o amor vai pagar nossas contas? Acha que seus sonhos de um 'amor verdadeiro' vão nos manter com um teto sobre a cabeça? Eu estou tentando nos salvar!"
Salvá-la. É sempre sobre ela. O que ela não entende, ou se recusa a entender, é que a casa, para mim, não é apenas tijolo e argamassa. É o último vestígio do papai. Foi aqui que ele me ensinou a andar de bicicleta, onde consertou meu joelho ralado, onde me disse para nunca deixar ninguém apagar minha luz. Vender a mim mesma para salvar esta casa seria a traição final de sua memória. Seria deixar a escuridão vencer.
Dentro do vagão lotado do metrô, sou apenas mais um rosto anônimo na multidão. Todos nós, juntos nesta caixa de metal barulhenta, estamos indo para algum lugar, fugindo de algo. Meus fones de ouvido velhos tocam uma música suave, uma tentativa fútil de abafar o barulho do mundo e o barulho dentro da minha cabeça. Fecho os olhos e, por um momento, me permito sonhar.
Sonho com um lugar tranquilo, um campo verde com o cheiro de grama molhada. Sonho com uma mão segurando a minha, uma mão forte e gentil. Sonho com uma risada que não seja a minha ou a de Lily, uma risada masculina, profunda, que me faça sentir segura. É um sonho recorrente, um refúgio patético que construí para mim mesma. Mas é tudo o que tenho.
O sonho se desfaz quando o trem para na minha estação em Manhattan. O ar aqui é diferente. Mais rarefeito, mais caro. As mulheres que passam por mim usam casacos que custam mais do que eu ganho em seis meses. Seus filhos, as crianças de quem cuido, têm vidas que parecem saídas de um conto de fadas. E eu sou a criada, a funcionária invisível que garante que o conto de fadas continue sem interrupções.
Hoje, enquanto empurro um balanço no parquinho, observando o pequeno Thomas rir com uma alegria despreocupada, uma decisão se solidifica em meu coração. Eu não posso mais continuar assim. Esta sobrevivência lenta e dolorosa não é vida. A promessa que fiz a Lily na noite passada não pode ser uma mentira. Preciso de mais. Preciso de uma mudança. Uma mudança drástica.
Preciso de um emprego que pague o suficiente para arrancar minha família das garras do banco e, talvez, para longe da influência tóxica da minha mãe. Um emprego que me dê uma chance, por menor que seja, de respirar. Não sei que emprego seria esse, ou onde o encontraria. Parece impossível. Mas a alternativa, a imagem do rosto de Verônica vendendo-me como uma mercadoria, é um inferno que não estou disposta a aceitar.
Naquela noite, depois de colocar Lily na cama e contar a ela uma história sobre uma princesa guerreira que salva seu próprio reino, eu me sento na velha escrivaninha do meu pai. Abro meu laptop antigo e começo a procurar. "Vagas de babá em tempo integral", "governante", "assistente pessoal". As palavras parecem inadequadas, pequenas demais para a magnitude do que preciso.
Meu olhar percorre dezenas de anúncios, todos oferecendo salários que mal fariam cócegas no monstro da hipoteca. O desespero começa a se infiltrar, frio e familiar. Estou prestes a desistir, a me resignar a mais um dia de sobrevivência amanhã, quando um anúncio discreto chama minha atenção. É diferente dos outros. Não tem fotos sorridentes ou listas de benefícios. É curto, quase austero.
"Procura-se cuidadora/governanta para residência particular no Upper East Side. Requer-se discrição absoluta, flexibilidade total e dedicação exclusiva. Experiência com crianças é essencial. Salário extremamente competitivo, com moradia incluída. Enviar currículo para o e-mail abaixo."
"Extremamente competitivo". Essas duas palavras pulsam na tela. "Moradia incluída". Isso significaria tirar a mim e a Lily do alcance de Verônica. "Discrição absoluta". Isso soa... intimidante. Misterioso. A residência não é nomeada, o que é estranho. Mas o desespero é um motivador poderoso. Ele me faz ignorar as bandeiras vermelhas, ou pelo menos, considerá-las um risco que vale a pena correr.
Com as mãos trêmulas, atualizo meu currículo. Cada palavra que digito parece um grito silencioso por ajuda, por uma chance. Anexo o arquivo, escrevo um e-mail de apresentação breve e profissional, e pauso com o cursor sobre o botão "Enviar".
É um tiro no escuro. Um salto no abismo. Mas a imagem de Lily, dormindo pacificamente no quarto ao lado, me dá a coragem de que preciso. Eu clico. E rezo. Rezo para que, em algum lugar deste universo indiferente, alguém ouça meu grito.







