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# Capítulo 2: O Peso de um Nome

**Ponto de Vista: Neil Bodvan**

O uísque desce queimando, um calor familiar em meio ao frio perpétuo que se instalou em minha alma. O copo de cristal, pesado e sólido em minha mão, é um dos poucos contatos com a realidade que ainda me permito sentir. Da minha janela, no último andar desta casa que mais parece um mausoléu, Nova York se estende como um tapete de luzes cintilantes, uma promessa de vida e energia que já não me pertence. Ou talvez, que eu já não pertença a ela.

As luzes piscam, indiferentes. Carros fluem pelas avenidas como sangue em artérias de asfalto. Cada ponto de luz é uma vida, uma história, uma ambição. Lembro-me de um tempo em que eu queria conquistar cada uma delas. Agora, o único império que governo é este de silêncio e sombras. O mundo lá fora, o mundo que um dia foi meu playground, agora parece um planeta distante, observado através de um telescópio.

O silêncio aqui dentro é ensurdecedor. É um silêncio pesado, denso, preenchido por ecos de risadas que não ecoam mais, de músicas que não tocam mais. Meus funcionários se movem como espectros, eficientes e invisíveis. Eles mantêm a ordem, a limpeza, a aparência de normalidade em um lugar onde nada é normal. Eles seguem as ordens que meu gerente da casa, o fiel Sr. Thompson, lhes transmite. Ordens que eu mesmo dei há tanto tempo que já parecem pertencer a outra vida.

Levanto-me e caminho pela vasta sala de estar. Meus passos são abafados pelo tapete que Annelise escolheu. Tudo aqui foi escolhido por ela. Cada obra de arte na parede, cada vaso, cada maldito bibelô. Ela tinha um gosto impecável. Um gosto para a beleza, para o luxo. Um gosto para a tortura sutil de me deixar cercado por sua presença em cada objeto, mesmo depois de sua partida.

Partida. Que palavra branda para o que aconteceu. Uma partida implica um destino, um bilhete de ida. O que ela fez foi um ato de desaparecimento, um truque de mágica sem o prestidigitador para receber os aplausos no final. Ela simplesmente se desfez no ar, levando consigo a cor e o som do meu mundo.

As pessoas lá fora, os sussurros que imagino ainda existirem, devem pensar que enlouqueci de dor. Que me tornei um recluso, um Howard Hughes moderno, assombrado pela perda. A verdade é mais patética. Não é a dor que me consome. É o vazio. Um vazio cinzento, monótono, que se estende infinitamente em todas as direções. Meus dias são uma sucessão de nadas. Acordo, como, bebo, olho pela janela. Às vezes, leio um relatório de negócios, assino um documento que meus advogados me garantem ser importante. Mas o fogo, a ambição que me movia, se extinguiu. Restou apenas a cinza.

Encontro um prazer perverso nesta solidão. É uma armadura. Se ninguém entra, ninguém pode sair. Se não há apego, não há perda. É uma lógica fria, matemática, que meu cérebro entorpecido pelo álcool e pela apatia consegue compreender. A frieza se tornou meu refúgio. Eu a visto como um manto, me protejo com ela do toque imprevisível das emoções humanas.

Passo pelo corredor que leva à ala leste. A porta no final está sempre fechada. A porta do quarto de Loren. Meu filho. O único fragmento de vida real que restou neste lugar. A única peça do quebra-cabeça que não se encaixa na minha equação de isolamento. Ele é a prova viva de que, um dia, houve amor e vida aqui. E ele é minha maior falha.

Eu o amo, com uma ferocidade que me assusta. Mas não sei como amá-lo. Não sei como ser pai. Annelise era a especialista nisso. Ela era a luz, o calor. Eu era a rocha, o provedor. Agora, a rocha é tudo o que restou, e uma criança não pode se aninhar em uma rocha para se aquecer.

A babá atual, uma senhora de meia-idade com um rosto severo e eficiente, cuida de suas necessidades. Comida, banho, horário de dormir. Ela o mantém vivo. Mas ela não o faz sorrir. Eu o ouço às vezes, um choro baixo no meio da noite. Um som que perfura minha armadura de frieza e me atinge diretamente no coração. Mas eu não vou até ele. Eu não sei o que fazer. O que eu poderia oferecer além deste frio que me envolve?

Volto para a minha sala, para o meu uísque. O gelo no copo derreteu, diluindo a bebida. Assim como eu. Um homem diluído, uma versão aguada do que um dia fui. As manchetes me chamavam de visionário, de titã, de rei. Agora, sou apenas o guardião de um museu de memórias, o fantasma de Park Avenue.

O mistério que a cidade tanto cobiça não é onde Annelise está. O verdadeiro mistério é o que restou de Neil Bodvan. E a resposta, temo, é: nada. Apenas um nome, um saldo bancário obsceno e um vazio do tamanho de um arranha-céu. E no meio desse vazio, um menino de cinco anos que merece mais do que um pai fantasma. Merece uma mãe. E essa é uma verdade tão dolorosa, tão insuportável, que eu a afogo no próximo gole de uísque, rezando para que a noite passe rápido e me entregue a mais um dia cinzento e igual a todos os outros.

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