Mundo ficciónIniciar sesiónCapítulo 3: Do Meu Jeito
POV: Luna Carvalho A ligação caiu antes mesmo que eu pudesse mandar Gabriel Montenegro para o inferno. Olhei para a tela escura do celular, sentindo meus dedos tremerem não de medo, mas de uma fúria avassaladora. Quem aquele homem pensava que era para me dar ordens dentro da minha própria linha telefônica? — Quem era? — Rafael perguntou, a voz áspera quebrando o silêncio tenso do meu apartamento. Ele apontava para o aparelho na minha mão, os olhos vermelhos de uma mistura perigosa de mágoa e desconfiança. — Era ele, não era? O tal bilionário do papel? — Era — respondi com franqueza, engolindo em seco e dando um passo na direção dele. — Ele descobriu agora pela clínica. Rafael, por favor, me ouve. Olha para mim. Você me conhece há anos. Você realmente acha que eu seria capaz de inventar uma mentira dessas? Que eu estaria escondendo um caso? Rafael passou a mão pelo rosto, respirando de forma pesada. Ele olhou para o relatório médico na mesa e depois para a minha barriga, como se tentasse enxergar o impossível através do meu suéter de tricô. — Eu não sei mais o que pensar, Luna. É absurdo demais. Espéculo contaminado? Um bilionário? — Ele soltou um suspiro exausto, dando dois passos para trás, afastando-se do meu toque. — Minha cabeça está explodindo. Eu preciso de espaço. Preciso digerir isso longe daqui. — Você está me deixando? Logo agora? — A dor da rejeição fisgou meu peito, mas eu forcei minha postura a continuar reta. Eu não imploraria. — Eu só preciso pensar — ele disse, pegando a jaqueta no sofá sem me olhar nos olhos. — Não dá para fingir que está tudo bem quando o mundo acabou de desabar. A porta do apartamento bateu, e o som ecoou no meu peito como um tiro. Fiquei sozinha na sala compacta, o silêncio se tornando um peso sufocante. Eu queria chorar, queria quebrar alguma coisa, mas o barulho de uma buzina insistente lá embaixo cortou meus pensamentos. Aproximei-me da janela e afastei a cortina. Um sedã preto de vidros totalmente escuros estava parado em frente ao meu prédio, com um homem de terno parado ao lado da porta traseira aberta, olhando diretamente para a minha janela. Gabriel não estava brincando quando disse que o carro estava a caminho. — Do meu jeito, uma ova — resmunguei para mim mesma, pegando minha bolsa e minha jaqueta. Eu não ia entrar naquele carro como uma vítima assustada indo para o abate. Se Gabriel Montenegro achava que eu era uma garota indefesa que ele mudaria de endereço com um estalar de dedos, ele estava prestes a ter uma surpresa muito desagradável. Eu não aceitava ordens de ninguém, muito menos de um estranho que tinha invadido meu corpo por tabela. Desci o elevador sentindo a adrenalina pulsar nas minhas veias. Assim que pisei na calçada, o motorista deu um passo à frente, mantendo a postura formal. — Senhorita Carvalho? O Sr. Montenegro está aguardando na cobertura da sede da empresa. Por aqui, por favor. Entre no banco de couro do carro sem dizer uma palavra. O trajeto pelo trânsito foi um borrão de luzes e prédios. Eu usava o tempo para ensaiar o que diria, armando minha defesa e, principalmente, meu ataque. O erro tinha sido deles, da clínica rica que ele frequentava. Eu era a única parte lesada de verdade ali. Vinte minutos depois, o carro parou no subsolo de um arranha-céu espelhado. Fui escoltada por um elevador privativo que subiu tão rápido que meus ouvidos estalaram. Quando as portas se abriram no último andar, dei de cara com uma recepção minimalista de mármore branco e vidro. — Por aqui, Senhorita — uma secretária de postura impecável indicou a enorme porta dupla de madeira escura no final do corredor. Bati duas vezes e entrei sem esperar permissão. A sala da presidência era imensa, cercada por paredes de vidro que mostravam a cidade iluminada lá embaixo. Gabriel Montenegro estava de pé, de costas para a porta, com as mãos nos bolsos da calça de alfaiataria cinza. O paletó estava jogado no sofá de couro. Ao ouvir o barulho, ele se virou devagar. De perto, a presença dele era ainda mais sufocante do que no saguão da clínica. Os olhos claros eram duas pedras de gelo, analíticos, medindo cada centímetro do meu corpo com uma frieza corporativa. Não havia humanidade ali; parecia que ele estava avaliando um contrato de fusão de empresas. — Você demorou — Gabriel disse, a voz grave cortando o silêncio da sala. Ele caminhou até a mesa , pegando uma pasta preta. — Sente-se, por favor. Temos muito o que alinhar. — Eu não vou me sentar — respondi de imediato, cruzando os braços e sustentando o olhar dele sem piscar. — E eu não demorei, eu vim no meu tempo. Além disso, nós não temos nada para "alinhar", Sr. Montenegro. Você não é meu chefe e eu não trabalho para você. Uma das sobrancelhas dele se ergueu, uma faísca de surpresa cruzando seu rosto impassível antes de sumir tão rápido quanto surgiu. Ele largou a pasta na mesa com um baque surdo. — Pelo visto, a clínica não errou apenas no procedimento, mas também no tipo de paciente. Eu esperava alguém mais disposta a cooperar — Gabriel deu a volta na mesa, aproximando-se até parar a poucos passos de mim. O perfume de sândalo invadiu meus sentidos, mas mantive os pés firmes no chão. — Vamos ser práticos, Senhorita Carvalho. O que aconteceu foi um desastre para nós dois. Tenho um casamento marcado com a Valentina em poucos meses, uma fusão internacional dependendo da estabilidade da minha imagem e nenhuma intenção de ter minha vida exposta em colunas de fofoca. — Ah, claro. O seu casamento, as suas ações, o seu umbigo — soltei uma risada debochada, dando um passo à frente, diminuindo a distância entre nós até quase conseguir sentir o calor do corpo dele. Minha língua afiada estava pronta. — Você está preocupado com o seu terno alinhado, enquanto eu tive o meu corpo violado por uma negligência absurda. Eu sou a vítima aqui, Montenegro. Não você. Os olhos de Gabriel se estreitaram, o maxilar travando com uma força que fez os músculos do seu rosto saltarem. O controle dele parecia estar sendo testado pela primeira vez em muito tempo. — Eu sei muito bem o peso da situação — ele falou, a voz baixando um tom, tornando-se perigosamente suave. — E é justamente por isso que vim resolver pessoalmente. Meus advogados já prepararam o contrato com um acordo de confidencialidade e uma compensação financeira substancial. Você terá o melhor acompanhamento médico do país, em uma clínica de minha confiança, longe dos olhares da imprensa. Em troca, você assina este termo garantindo que nenhuma palavra sobre a origem dessa gravidez sairá da sua boca. Ele estendeu uma caneta tinteiro dourada na minha direção, apontando para o documento sobre a mesa. Olhei para a caneta e depois para o rosto arrogante do bilionário. Ele realmente achava que tudo e todos tinham um preço. Que podia comprar o meu silêncio e o meu útero com um cheque com muitos zeros. Aproximei-me da mesa, peguei o documento de várias páginas nas mãos e, olhando diretamente nos olhos escuros de Gabriel Montenegro, rasguei o papel ao meio com um som rasgante que ecoou pela sala inteira. Joguei os pedaços sobre a mesa. — Eu não estou à venda — anunciei, a voz firme como rocha. — Guarde o seu dinheiro e o seu contrato. Eu vou resolver a minha vida do meu jeito, não do seu. Virei-me para sair, mas antes que eu pudesse dar o segundo passo em direção à porta, a mão de Gabriel fechou-se firmemente ao redor do meu pulso. O toque dele era quente, firme, enviando uma corrente elétrica inesperada direto pela minha espinha. Ele me puxou de volta com força controlada, obrigando-me a encará-lo novamente. Nossos rostos ficaram a centímetros de distância, a respiração dele batendo contra a minha bochecha. — Você não entendeu a gravidade da situação, Luna — Gabriel sussurrou, os olhos brilhando com uma intensidade perigosa, o controle finalmente rachando. — Você carrega o meu herdeiro. E eu nunca deixo o que é meu solto no mundo.






