Mundo de ficçãoIniciar sessãoCapítulo 2: O Peso do Erro
POV: Luna Carvalho O ar parecia ter sumido da sala da diretora clínica. Eu olhava para a folha de papel timbrado em minhas mãos, mas as letras dançavam, recusando-se a fazer sentido. Grávida. Inseminada por um espéculo contaminado. O nome "Gabriel Montenegro" brilhava na folha como uma sentença de morte para a vida pacata e rigidamente organizada que eu tinha levado até ali. — Isso é uma piada de mau gosto, não é? — Minha voz saiu num sussurro tenso, enquanto eu amassava a ponta do relatório médico entre os dedos trêmulos. — Cadê as câmeras? É algum teste com os pacientes? A Dra. Helena suspirou, ajeitando os óculos com uma expressão que misturava legítimo pavor profissional e pena. Ela empurrou um copo de água na minha direção, mas eu nem me mexi. — Infelizmente, não é uma brincadeira, Senhorita Carvalho. Houve uma falha gravíssima no protocolo de identificação e esterilização no laboratório do andar inferior. O técnico trocou os frascos de procedimento ambulatorial simples com os de reprodução assistida. — Um erro? — O choque inicial deu lugar a uma queimação quente que subiu pelo meu pescoço. Levantei-me da cadeira num salto, batendo as mãos na mesa de vidro, fazendo o copo de água tremer. — Vocês não erraram a cor de um esmalte, Doutora! Vocês colocaram um ser humano dentro de mim sem o meu consentimento! Eu sou virgem! Vocês têm noção do que acabaram de fazer com a minha vida? — Nós assumiremos toda a responsabilidade jurídica e financeira, daremos o suporte psicológico que... — Eu não quero a sua psicóloga! — curvei-me para a frente, sentindo as lágrimas de puro ódio arderem nos meus olhos, mas me recusei a deixá-las cair. Eu não ia desmoronar na frente da mulher que tinha acabado de destruir meu futuro. — Eu quero acordar desse pesadelo. Eu namoro o Rafael há anos, tenho planos, uma carreira começando na editora... Como eu vou explicar pro meu namorado que estou grávida de um desconhecido sendo que nós nunca transamos? A médica empalideceu ainda mais, engolindo em seco. Ela sabia que o processo que a clínica enfrentaria seria o suficiente para fechar as portas e arruinar a reputação de todos os envolvidos. — O doador... o Sr. Montenegro, já foi notificado sobre a quebra de protocolo — a Dra. Helena falou baixo, medindo cada palavra como se pisasse em ovos. — Os advogados dele já estão a caminho da clínica. E, se me permite o aviso, ele não é um homem que lida bem com imprevistos. — Ele não lida bem? — Soltei uma risada amarga, guardando o exame na minha bolsa com as mãos ainda trêmulas. — Pois avise para o dono do espermatozoide premiado que quem está com o corpo invadido sou eu. O problema dele não é nada perto do meu. Saí da sala batendo a porta de vidro com tanta força que o som ecoou por todo o corredor do hospital. Minhas pernas pareciam feitas de gelatina, mas a raiva me impulsionava para a frente. Eu precisava sair dali. Precisava de ar. Precisava de Rafael. Peguei o celular no bolso e disquei o número dele enquanto esperava o elevador. Foram três toques longos que pareceram durar uma eternidade até a voz calma dele ecoar do outro lado da linha. — Oi, Lu. Conseguiu sair da consulta? Tudo bem no exame de rotina? — A normalidade na voz dele me deu um nó na garganta. Rafael era meu porto seguro, o cara com quem eu planejava casar depois de nos estabilizarmos financeiramente. O respeito dele pela minha decisão de esperar era a prova do quanto ele me amava. E agora, tudo isso parecia prestes a explodir. — Rafa... você pode ir até o meu apartamento agora? Por favor — apertei o botão do elevador três vezes seguidas, sentindo meu peito arfar. — Aconteceu uma coisa. Uma coisa muito grave. — O que foi? Você tá doente, Luna? Tá me assustando. — Não dá para falar por telefone. Só... vai para lá. Estou saindo da clínica agora. Desliguei antes que ele fizesse mais perguntas que eu não saberia responder sem chorar. As portas do elevador se abriram e eu entrei, encarando meu próprio reflexo no espelho de inox. Eu parecia a mesma Luna de duas horas atrás, mas por dentro, tudo tinha mudado. Havia um intruso se desenvolvendo em mim. O filho de um bilionário. Quando cheguei ao saguão principal de mármore da clínica, o ambiente parecia subitamente mais pesado. Dois homens de terno escuro e fones de ouvido vigiavam a entrada giratória. Ignorei-os, focada apenas na saída, mas o movimento parou quando um carro preto blindado de altíssimo luxo estacionou bem em frente à fachada de vidro. A porta traseira se abriu e dele saltou um homem que parecia comandar a gravidade ao seu redor. Terno cinza sob medida, alinhado ao milímetro. Cabelos escuros perfeitamente cortados e uma expressão facial que parecia esculpida em gelo. O maxilar travado e os olhos claros, que varriam o saguão com um misto de desprezo e autoridade, não deixavam dúvidas. Ele andava com passos largos, decididos, ignorando os flashes de dois fotógrafos que tinham surgido do nada na calçada. Eu paralisei no meio do saguão. Era ele. Gabriel Montenegro. O homem das revistas de economia, o CEO implacável da tecnologia. O pai do embrião que agora estava no meu útero. Nossos olhos se cruzaram por um breve segundo no meio do salão. Ele não fazia ideia de quem eu era, mas a intensidade daquele olhar frio me fez dar um passo atrás. Gabriel passou por mim como um trator, exalando um perfume caro de sândalo e poder, acompanhado por um homem mais velho que carregava uma pasta de couro preta. — Quero a diretora da clínica e os advogados do laboratório na minha mesa em cinco minutos — ouvi a voz de Gabriel ecoar, grave e cortante, enquanto ele se dirigia aos elevadores privativos sem olhar para trás. — Se a imprensa descobrir isso antes de eu resolver, eu compro esse hospital só para demitir até os faxineiros. O elevador se fechou, levando-o para cima. Meu sangue ferveu. Aquele homem arrogante achava que tudo se resolvia com dinheiro e poder. Ele estava preocupado com a imprensa e com as ações da sua empresa, enquanto eu estava lidando com a violação do meu próprio corpo. Saí dali pisando firme, peguei um táxi e passei o trajeto inteiro encarando a paisagem sem realmente ver nada. Meu foco estava na conversa que eu teria a seguir. Quando abri a porta do meu apartamento, Rafael já estava lá, andando de um lado para o outro na sala compacta. Ele veio até mim imediatamente, segurando meus ombros. — Luna, pelo amor de Deus, o que aconteceu? Você está pálida. Eu olhei para o rosto familiar do meu namorado, sentindo o peso do mundo nos meus ombros. Tirei o papel amassado da bolsa e estendi para ele com a mão trêmula. — Lê isso. Rafael franziu o cenho, pegando o documento. Seus olhos correram pelas linhas do relatório da clínica. Vi o momento exato em que a confusão em seu rosto se transformou em choque, e depois em uma palidez mortal. Ele leu duas, três vezes. — Grávida? — Ele deu um passo atrás, soltando o papel na mesa de centro como se estivesse queimando. — Luna... que porra é essa? Você tá grávida? Como? A gente nunca... você me disse que queria esperar! — E eu esperei, Rafael! Eu sou virgem, você sabe disso! — dei um passo na direção dele, tentando segurar sua mão, mas ele se esquivou, o rosto contraído em uma mistura de dor e desconfiança. — Então como você explica um teste positivo de gravidez, Luna? Os milagres não acontecem na porra de uma clínica ginecológica! Gabriel Montenegro? Você estava me traindo com um ricaço esse tempo todo? — Não! Presta atenção no que tá escrito embaixo! — Minha voz embargou, o desespero finalmente quebrando minha armadura. — Foi um erro médico! Eles contaminaram o espéculo na consulta de rotina do mês passado! Eu nem conheço esse homem! Rafael soltou uma risada seca, nervosa, levando as mãos à cabeça. Ele olhava para mim como se eu fosse uma estranha, o fantasma da traição bloqueando qualquer resquício de racionalidade na mente dele. — Contaminaram o espéculo? Por acaso, isso é roteiro de novela? Você quer que eu acredite que você foi ao médico fazer um exame de rotina e saiu de lá grávida de um bilionário? Você acha que eu sou idiota? Antes que eu pudesse responder, antes que eu pudesse gritar com ele por duvidar da minha integridade, o celular na minha bolsa começou a tocar freneticamente. Olhei o visor: era um número desconhecido. Atendi o aparelho com o coração na boca, a voz de Rafael ainda ecoando com acusações na minha mente. — Alô? — Senhorita Luna Carvalho? — Uma voz masculina, fria, pausada e absurdamente controlada soou do outro lado da linha. Eu reconheceria aquele tom de comando em qualquer lugar após o episódio na clínica. Era ele. — Aqui é Gabriel Montenegro. Sugiro que a senhorita não fale com nenhuma emissora de TV ou jornal. Estou mandando um carro buscar você agora. Nós precisamos conversar. Do meu jeito.






