Mundo de ficçãoIniciar sessãoFaltavam seis dias para o casamento.
Seis.
Aurora repetia aquele número mentalmente enquanto dirigia até o ateliê.
Seis dias.
Menos de uma semana.
Depois de sete anos de relacionamento, depois de incontáveis planos, sonhos e promessas, ela deveria estar vivendo a fase mais feliz de sua vida.
Deveria estar ansiosa.
Empolgada.
Contando as horas.
Mas tudo o que sentia era um cansaço emocional que parecia não ter fim.
Seu celular permanecia silencioso sobre o banco do passageiro.
Nenhuma mensagem de Vicente.
Nenhuma ligação.
Nada.
Ela já sabia onde ele estava.
Não precisava perguntar.
Hospital.
Ou algum lugar com Lavínia.
A resposta era sempre a mesma.
Aurora estacionou diante do ateliê e respirou fundo antes de descer.
Precisava focar.
Precisava terminar os preparativos.
Precisava acreditar que aquele casamento ainda existia.
Mesmo que, às vezes, parecesse que apenas ela estava tentando fazê-lo acontecer.
A proprietária do ateliê abriu um enorme sorriso quando a viu.
— Aurora!
— Olá, Sônia.
— Hoje é o grande dia.
Aurora tentou sorrir.
— É só a última prova.
— A última prova do vestido mais bonito que já fiz.
Sônia sempre dizia isso para todas as noivas.
Mas naquele dia Aurora precisava ouvir.
Precisava desesperadamente ouvir qualquer coisa positiva.
Alguns minutos depois, estava diante do espelho.
Usando o vestido.
O vestido.
Aquele que havia imaginado durante meses.
O tecido branco caía perfeitamente sobre seu corpo.
As rendas delicadas desenhavam sua silhueta.
O véu longo tocava o chão.
Era lindo.
Realmente lindo.
Qualquer outra mulher estaria chorando de emoção.
Mas Aurora só conseguia pensar numa pergunta.
Vicente gostaria?
A pergunta surgiu automaticamente.
E logo foi seguida por outra.
Vicente ainda se importa?
O pensamento a atingiu como um soco.
Porque não deveria estar se perguntando isso.
Não a seis dias do casamento.
Não depois de sete anos juntos.
Mas estava.
E não conseguia evitar.
— Você está maravilhosa.
disse Sônia.
Aurora assentiu.
— Obrigada.
— Seu noivo vai chorar.
A frase provocou um aperto doloroso em seu peito.
Porque já não tinha tanta certeza.
Ao sair do provador, pegou o celular.
Uma nova mensagem havia chegado.
Seu coração acelerou.
Vicente.
Finalmente.
Mas ao abrir a conversa, a esperança desapareceu.
"Desculpa. Não consegui ir."
Ela ficou encarando aquelas palavras.
Sem reação.
Sem emoção.
Porque nem sequer sabia o que sentir.
Ele nem perguntou como tinha sido.
Nem perguntou se ela estava feliz.
Nem perguntou se o vestido ficou bom.
Apenas informou que não apareceu.
Como se ela já não soubesse.
Como se aquilo fosse normal.
Como se fosse esperado.
Aurora respirou fundo.
Tentando controlar a frustração.
Então digitou:
"Está tudo bem."
A resposta chegou quase instantaneamente.
"Ela teve uma crise de ansiedade."
Ela fechou os olhos.
Lá estava novamente.
A justificativa.
A explicação.
A desculpa.
Sempre Lavínia.
Sempre.
Naquela mesma tarde, Marina apareceu em seu apartamento.
Carregando sacolas de doces e uma expressão preocupada.
— Você sumiu.
disse ela.
— Tenho trabalhado.
— Mentira.
Aurora soltou uma risada fraca.
— Talvez.
Marina sentou-se ao seu lado.
Observando-a com atenção.
— Você está magra.
— Obrigada.
— Não foi um elogio.
Aurora apoiou a cabeça no sofá.
Exausta.
— Estou cansada.
— Eu percebi.
O silêncio se instalou.
Mas não demorou muito.
Marina parecia inquieta demais para ficar calada.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Claro.
— Você ainda quer se casar?
Aurora ficou imóvel.
Completamente imóvel.
Porque aquela pergunta nunca havia passado por sua cabeça.
Até aquele momento.
Nunca.
Mas agora...
Agora ela não tinha uma resposta imediata.
E isso a assustou.
Muito.
— Eu amo Vicente.
disse finalmente.
Marina assentiu.
— Eu sei.
— Então por que não me casaria com ele?
A amiga suspirou.
— Porque amor nem sempre é suficiente.
Aurora desviou o olhar.
Não queria ouvir aquilo.
Não naquele momento.
Não quando ainda estava tentando convencer a si mesma de que tudo ficaria bem.
— Você está exagerando.
— Estou?
Marina arqueou uma sobrancelha.
— Aurora, ele perdeu a prova final do vestido.
— Lavínia teve uma crise.
— Ele perdeu a reunião do buffet.
— Ela estava no hospital.
— Perdeu o jantar dos padrinhos.
— Ela precisava dele.
Marina ficou em silêncio.
Observando-a.
Então perguntou:
— E quem está precisando dele agora?
Aurora não respondeu.
Porque sabia a resposta.
Ela.
Naquela noite, Vicente chegou tarde novamente.
Mas dessa vez carregava algo nas mãos.
Uma caixa.
Aurora observou enquanto ele entrava na sala.
— O que é isso?
— Um presente.
Ela estranhou.
— Para quem?
— Lavínia.
O coração dela afundou.
Vicente parecia não perceber.
Abriu a caixa.
Mostrando um colar delicado.
Com uma pequena pedra azul.
— Bonito, não é?
Aurora ficou olhando para a joia.
Sem acreditar.
— Você comprou isso para ela?
— Sim.
— Por quê?
— Porque ela comentou que sempre quis ter um.
A resposta veio naturalmente.
Sem culpa.
Sem constrangimento.
Sem perceber o absurdo da situação.
Aurora levantou devagar.
— Você comprou um presente para sua ex-namorada.
— Aurora...
— Uma ex-namorada que reapareceu há poucos dias.
— Ela está morrendo.
A frase veio imediatamente.
Como sempre.
Automática.
Instintiva.
Aurora riu.
Uma risada amarga.
Machucada.
— Você percebe que essa virou sua resposta para tudo?
Vicente franziu a testa.
— Porque é a verdade.
— E a verdade também é que nós vamos nos casar em seis dias.
— Eu sei.
— Sabe?
Ela deu um passo à frente.
— Porque não parece.
O silêncio caiu sobre a sala.
Pesado.
Denso.
Desconfortável.
Vicente parecia irritado.
Aurora parecia exausta.
Nenhum dos dois sabia como voltar atrás.
Pouco depois da meia-noite.
Aurora já estava deitada quando ouviu o celular de Vicente tocar.
Ele atendeu imediatamente.
Sem nem verificar quem era.
Porque já sabia.
— Lavínia?
Aurora fechou os olhos.
A voz dele mudou instantaneamente.
Ficou mais suave.
Mais atenta.
Mais presente.
Ela permaneceu imóvel.
Tentando ignorar.
Tentando dormir.
Mas era impossível.
— Calma.
dizia Vicente.
— Estou indo.
Aurora abriu os olhos.
— Indo para onde?
Vicente já estava se levantando.
— Ela não está bem.
— Vicente...
— É só uma crise.
— São duas da manhã.
— Eu preciso ir.
Aurora sentou-se na cama.
Observando-o vestir a roupa às pressas.
— E eu?
A pergunta escapou.
Baixa.
Frágil.
Humana.
Vicente parou por um segundo.
Apenas um segundo.
Então respondeu:
— Você sabe que eu voltarei.
Aurora sentiu algo se partir dentro dela.
Porque aquele não era o problema.
Nunca foi.
O problema era que ele sempre voltava.
Mas continuava escolhendo ir.
E havia uma enorme diferença entre as duas coisas.
Ela observou a porta do quarto se fechar.
Depois ouviu a porta do apartamento.
Depois o silêncio.
Um silêncio enorme.
Doloroso.
Que parecia ocupar cada canto da casa.
Aurora puxou o cobertor até o peito.
Tentando aquecer um coração que se sentia cada vez mais sozinho.
Faltavam seis dias para o casamento.
Mas, naquela madrugada, ela teve a estranha sensação de que já estava vivendo um casamento onde era a segunda opção.
E isso a aterrorizava muito mais do que admitir.







