Mundo de ficçãoIniciar sessãoAurora acordou cansada.
Não porque tivesse dormido pouco.
Mas porque dormir e descansar haviam se tornado coisas completamente diferentes nos últimos dias.
O lado de Vicente na cama estava vazio novamente.
Ela sequer precisou verificar o horário.
Já sabia onde ele estava.
O hospital.
Ou com Lavínia.
Ou realizando algum novo desejo de Lavínia.
A verdade era que já não fazia diferença.
Nos últimos quatro dias, parecia que toda a vida dele girava ao redor daquela mulher.
Aurora levantou devagar.
Vestiu um robe leve.
Caminhou até a cozinha.
E encontrou a cafeteira desligada.
Outro detalhe pequeno.
Insignificante.
Mas que doía.
Vicente costumava preparar café para os dois todas as manhãs.
Era um hábito simples.
Um daqueles pequenos gestos que pareciam eternos.
Agora a cafeteira permanecia vazia.
Assim como a cadeira dele à mesa.
Assim como boa parte da casa.
Ela pegou o celular.
Nenhuma mensagem.
Nenhuma ligação.
Nenhum "bom dia".
Nada.
Seu olhar caiu sobre o calendário preso à geladeira.
Sete dias.
Faltavam apenas sete dias para o casamento.
Sete.
Aurora ficou encarando o número.
Tentando entender como o homem que deveria estar contando os dias para se casar parecia não se lembrar que o casamento existia.
O restante da manhã passou lentamente.
Aurora tentou se ocupar.
Revisou contratos.
Conversou com fornecedores.
Confirmou horários.
Resolveu problemas.
Mas a sensação de abandono permanecia.
Piorava.
Crescia.
E se tornava impossível de ignorar.
Por volta do meio-dia, seu telefone tocou.
Vicente.
Ela demorou alguns segundos antes de atender.
— Oi.
— Oi.
A voz dele parecia animada.
Muito mais animada do que nos últimos dias.
Aquilo a incomodou sem motivo aparente.
Ou talvez houvesse motivo demais.
— Como você está?
perguntou ele.
Aurora quase riu.
Porque aquela pergunta chegava tarde.
Muito tarde.
— Estou bem.
— Tem certeza?
— Sim.
— Ótimo.
Silêncio.
Ela esperou.
Sabia que ele queria alguma coisa.
Sempre havia alguma coisa.
— Aurora...
Lá estava.
— O que foi?
— Lavínia recebeu alta.
Aurora fechou os olhos.
Claro.
Era sobre Lavínia.
Sempre era.
— Que bom.
— Os médicos liberaram alguns passeios.
— Entendi.
— Ela ficou muito feliz.
Aurora apertou o celular.
— Certo.
— Então pensei em fazer uma pequena comemoração.
Ela sentiu o estômago se contrair.
— Comemoração?
— Um jantar.
Aurora permaneceu em silêncio.
Vicente continuou.
— Só algumas pessoas.
— Que pessoas?
— Eu.
Lavínia.
Marina.
Rodrigo.
Felipe.
Aurora demorou alguns segundos para compreender.
Então percebeu.
Todos os amigos deles.
Todos.
— E eu?
A pergunta escapou.
Vicente ficou em silêncio.
Um silêncio curto.
Mas suficiente.
— Claro que você também.
A resposta veio tarde demais.
Muito tarde.
Porque durante um instante ele simplesmente não havia pensado nela.
À noite.
Aurora entrou no restaurante sentindo-se deslocada.
O local era sofisticado.
Bonito.
Romântico.
O tipo de lugar que ela e Vicente costumavam frequentar.
Mas aquela noite parecia diferente.
Errada.
Assim que chegaram à mesa, Lavínia abriu um sorriso radiante.
— Aurora!
A felicidade dela parecia genuína.
Aquilo tornava tudo mais complicado.
Porque seria mais fácil odiá-la se ela fosse cruel.
Seria mais fácil rejeitá-la se ela fosse arrogante.
Mas Lavínia era gentil.
Educada.
Fragilizada.
E isso fazia Aurora se sentir culpada por qualquer ressentimento.
— Você está linda.
disse Lavínia.
— Obrigada.
— Eu estava com saudades de sair.
— Imagino.
Vicente puxou a cadeira para Lavínia.
Depois serviu água para ela.
Depois perguntou se estava confortável.
Depois perguntou se ela estava cansada.
Depois perguntou se precisava de alguma coisa.
Aurora observou tudo em silêncio.
Tentando ignorar a pontada que surgia dentro dela.
Porque não era ciúme.
Era algo pior.
Era invisibilidade.
Ela estava ali.
Mas ninguém parecia notar.
Nem mesmo Vicente.
Durante o jantar, Lavínia contou histórias.
Falou sobre os anos em que viveu fora do país.
Falou sobre tratamentos.
Sobre hospitais.
Sobre medos.
Sobre arrependimentos.
E todos ouviram.
Inclusive Vicente.
Principalmente Vicente.
Os olhos dele permaneciam fixos nela.
Atentos.
Compreensivos.
Presentes.
Aurora não se lembrava da última vez que ele a escutara daquela forma.
Então Lavínia falou algo que fez a mesa inteira silenciar.
— Meu maior arrependimento foi abandonar pessoas que me amavam.
Vicente abaixou os olhos.
Marina desviou o olhar.
O clima mudou instantaneamente.
Aurora percebeu.
Percebeu o peso daquela frase.
Percebeu que ela não era aleatória.
Era direcionada.
— Eu era jovem.
continuou Lavínia.
— Estava assustada.
Achei que fugir resolveria tudo.
Mas só machuquei pessoas importantes.
Vicente permaneceu em silêncio.
E aquele silêncio dizia muito.
Mais do que qualquer resposta.
Mais do que qualquer explicação.
Porque mostrava que ele ainda carregava aquela ferida.
Depois de tantos anos.
Ainda carregava.
Quando o jantar terminou, Aurora já estava exausta.
Emocionalmente exausta.
Tudo parecia girar ao redor de Lavínia.
As conversas.
As preocupações.
Os planos.
Os sentimentos.
Tudo.
Ela só queria voltar para casa.
Mas então ouviu algo que fez seu coração parar.
— Eu sempre quis ver um casamento acontecer.
disse Lavínia.
Todos olharam para ela.
Ela sorriu.
Um sorriso triste.
— Parece bobo, não é?
Ninguém respondeu.
— Sempre imaginei como seria entrar numa igreja.
Usar um vestido bonito.
Viver aquele momento.
Mas acho que não vou ter tempo.
Aurora sentiu um arrepio.
Vicente também.
Ela viu.
Viu a forma como ele ficou tenso.
Como seus olhos escureceram.
Como a compaixão tomou conta de sua expressão.
E naquele instante, um medo terrível surgiu dentro dela.
Porque começava a entender algo.
Lavínia não estava apenas fazendo pedidos.
Ela estava construindo desejos.
Desejos que Vicente parecia disposto a realizar.
Não importando o custo.
No caminho para casa.
O silêncio dentro do carro era sufocante.
Aurora observava as luzes da cidade pela janela.
Vicente dirigia.
Pensativo.
Distante.
Como vinha acontecendo nos últimos dias.
Então ele falou.
— Ela está sofrendo muito.
Aurora fechou os olhos.
Claro.
Era sobre Lavínia.
Outra vez.
— Eu sei.
— Você acha que eu estou exagerando?
Ela virou o rosto.
Encarou-o.
E por alguns segundos pensou em dizer a verdade.
Pensou em dizer que sim.
Que ele estava exagerando.
Que estava esquecendo o próprio casamento.
Que estava esquecendo a mulher que o amou durante sete anos.
Que estava esquecendo a vida que construíram juntos.
Mas antes que pudesse responder, Vicente continuou.
— Porque às vezes sinto que você está me julgando.
Aurora ficou em silêncio.
E então respondeu honestamente.
— Não estou te julgando.
— Então por que está tão distante?
Ela soltou uma pequena risada amarga.
— Eu estou distante?
Vicente franziu a testa.
— Sim.
Aurora olhou para ele.
Realmente olhou.
E percebeu algo assustador.
Ele não fazia ideia.
Não fazia ideia do quanto a estava machucando.
Não fazia ideia do quanto a estava deixando para trás.
Não fazia ideia do quanto ela vinha engolindo para não parecer cruel diante de uma mulher doente.
E talvez isso fosse o pior.
Porque ele não estava escolhendo machucá-la.
Estava apenas escolhendo outra pessoa.
Todos os dias.
Sem perceber.
— Você deveria entender.
disse Vicente.
A frase foi suave.
Quase carinhosa.
Mas atingiu Aurora como uma lâmina.
Você deveria entender.
Ela ficou olhando para a estrada à frente.
Para as luzes desfocadas.
Para a noite escura.
E uma pergunta surgiu em sua mente.
Quem estava tentando entendê-la?
Porque ela passava os dias compreendendo Vicente.
Compreendendo Lavínia.
Compreendendo a situação.
Compreendendo a doença.
Compreendendo os desejos.
Compreendendo tudo.
Mas ninguém parecia disposto a compreender sua dor.
Ninguém parecia disposto a enxergar que, enquanto Lavínia se despedia da vida, Aurora assistia ao próprio relacionamento escapar de suas mãos.
E isso também era uma perda.
Mesmo que ninguém quisesse admitir.







