Mundo de ficçãoIniciar sessãoAurora não dormiu naquela noite.
Mesmo depois que Vicente se deitou ao seu lado, o sono simplesmente não veio.
Ela permaneceu imóvel, encarando o teto escuro do quarto enquanto ouvia a respiração dele.
Durante anos, aquele som havia sido sinônimo de conforto.
Segurança.
Lar.
Agora carregava algo diferente.
Incerteza.
Ela fechou os olhos.
Tentou convencer a si mesma de que estava exagerando.
Tentou lembrar que uma mulher estava morrendo.
Que Vicente estava apenas sendo humano.
Que qualquer pessoa decente sentiria compaixão.
Mas quanto mais repetia isso para si mesma, mais outra pergunta surgia.
Por que parecia que ela estava perdendo espaço dentro da própria vida?
O despertador tocou às seis.
Vicente levantou imediatamente.
Nem sequer ficou alguns minutos na cama.
Nem a abraçou.
Nem perguntou se ela havia dormido bem.
Pegou o celular antes mesmo de ir ao banheiro.
Aurora observou discretamente.
Uma mensagem havia chegado.
Ela não conseguiu ler o conteúdo.
Mas viu o nome.
Lavínia.
Seu coração apertou.
Vicente respondeu na mesma hora.
Depois desapareceu no banheiro.
Aurora ficou sentada na cama.
Sozinha.
Tentando ignorar a sensação desagradável que crescia dentro dela.
Durante o café da manhã, o silêncio entre eles parecia cada vez maior.
Vicente mal tocou na comida.
O celular vibrava constantemente.
E quase todas as mensagens vinham da mesma pessoa.
Aurora já não precisava adivinhar.
— Ela está bem?
perguntou.
Vicente ergueu os olhos.
Como se tivesse esquecido que ela estava ali.
— Mais ou menos.
— O que aconteceu agora?
— Teve uma crise durante a madrugada.
Aurora assentiu.
— Entendo.
Mas não entendia.
Porque a crise não explicava por que ele parecia viver em função daquela mulher desde que ela reaparecera.
— Vou passar o dia com ela.
disse Vicente.
— O dia inteiro?
— Sim.
Aurora soltou uma pequena risada sem humor.
— Claro.
Vicente franziu a testa.
— O que isso significa?
— Nada.
— Não parece nada.
Ela largou os talheres.
— Temos uma reunião com o decorador hoje.
— Eu sei.
— A última reunião antes do casamento.
— Você consegue resolver.
Aurora ficou olhando para ele.
Tentando processar aquelas palavras.
Você consegue resolver.
Como se o casamento fosse apenas responsabilidade dela.
Como se aquilo fosse um detalhe sem importância.
— Certo.
— Aurora...
— Não.
Ela levantou.
— Vá para o hospital.
Vicente suspirou.
— Você está sendo injusta.
Aurora parou.
Virou-se lentamente.
— Injusta?
— Sim.
— Porque estou decepcionada?
— Porque ela está morrendo.
Lá estava novamente.
A frase.
A justificativa.
A defesa.
O escudo.
Ela está morrendo.
Como se aquelas três palavras anulassem qualquer consequência.
Qualquer dor.
Qualquer abandono.
Aurora respirou fundo.
Não queria discutir.
Não queria ser a noiva ciumenta.
Não queria ser a mulher amarga.
Mas estava ficando cada vez mais difícil.
A reunião com o decorador foi um desastre.
Não por causa dos profissionais.
Mas porque tudo lembrava Vicente.
As flores escolhidas por ele.
As músicas que haviam selecionado juntos.
As lembranças que seriam exibidas nos telões.
Os lugares reservados para os amigos.
Cada detalhe parecia pertencer a uma vida que estava escorregando por entre seus dedos.
— Senhora Aurora?
A voz do decorador a trouxe de volta.
— Sim?
— As flores do altar permanecem iguais?
Ela ficou alguns segundos em silêncio.
Observando o projeto.
Então percebeu algo.
Não fazia ideia se Vicente ainda se importava.
A constatação doeu mais do que deveria.
— Sim.
Mantenha tudo igual.
No início da tarde.
Aurora recebeu uma ligação de Marina.
— Você está ocupada?
— Não muito.
— Podemos conversar?
Algo na voz da amiga a deixou alerta.
— Claro.
Encontraram-se em uma cafeteria próxima.
Marina chegou visivelmente desconfortável.
Aurora percebeu imediatamente.
— O que aconteceu?
Marina mexeu na xícara.
Evitando seu olhar.
— Eu vi Vicente hoje.
O coração dela acelerou.
— No hospital?
— Não.
Aurora sentiu um frio percorrer seu corpo.
— Onde?
— Na praia.
O silêncio caiu entre elas.
Pesado.
Assustador.
— Praia?
— Sim.
— Com quem?
Mesmo sabendo a resposta.
Mesmo sentindo a resposta.
Precisava ouvir.
— Com Lavínia.
Aurora não conseguiu falar.
Marina continuou.
— Eles estavam caminhando na areia.
— Ela queria ver o mar.
murmurou Aurora.
Mais para si mesma do que para Marina.
— O quê?
— Foi um dos desejos dela.
Marina pareceu surpresa.
— Então você sabia?
— Ele comentou ontem.
A amiga ficou em silêncio.
Mas Aurora percebeu.
Percebeu o julgamento.
A preocupação.
A pena.
E odiou isso.
Odiou ser alvo da pena de alguém.
— Talvez eu esteja exagerando.
disse Aurora.
— Talvez não.
A resposta veio rápida.
Direta.
Marina segurou sua mão.
— Aurora... eu conheço Vicente há anos.
— Eu também.
— Então sabe que ele não faz nada pela metade.
O coração dela afundou.
Porque aquilo era verdade.
Vicente nunca fazia nada pela metade.
Nunca.
Naquela noite.
Aurora voltou para casa mais cedo.
Precisava ficar sozinha.
Precisava pensar.
Precisava organizar os sentimentos.
Mas ao abrir a porta encontrou algo inesperado.
O apartamento estava vazio.
Outra vez.
E sobre a bancada da cozinha havia apenas um bilhete.
"Vou jantar com Lavínia. Não me espere acordada."
Aurora releu aquelas palavras.
Uma.
Duas.
Três vezes.
Jantar.
Com Lavínia.
Não me espere acordada.
As lágrimas surgiram antes que ela percebesse.
Não porque Vicente estava jantando com outra mulher.
Mas porque ele sequer havia perguntado se aquilo a machucaria.
Simplesmente decidiu.
E informou.
Como quem informa um compromisso de trabalho.
Como quem não precisa considerar os sentimentos da mulher que está prestes a se casar com ele.
Aurora sentou-se no sofá.
Segurando aquele pedaço de papel.
Sentindo algo quebrar lentamente dentro dela.
Talvez não fosse confiança.
Talvez não fosse amor.
Talvez fosse a certeza que sempre teve sobre o futuro.
Porque o homem que deveria estar escolhendo o sabor do bolo de casamento estava realizando os últimos desejos da ex-namorada.
O homem que deveria estar sonhando com a lua de mel estava levando outra mulher para passear na praia.
O homem que prometeu construir uma vida com ela agora parecia viver em função de alguém que retornara do passado.
E sempre havia uma justificativa.
Sempre a mesma.
Ela está morrendo.
Aurora encostou a cabeça no sofá.
Fechou os olhos.
Mas a imagem que surgiu em sua mente não foi a de Vicente.
Foi a de Lavínia segurando sua mão no hospital.
Foi o sorriso triste dela.
Foi a forma como olhava para ele.
Como se ainda tivesse direitos sobre seu coração.
Talvez nem mesmo Lavínia soubesse o estrago que estava causando.
Talvez soubesse.
Aurora não fazia ideia.
Mas uma verdade começava a se tornar impossível de ignorar.
Lavínia não havia voltado apenas para se despedir.
Ela havia voltado para ocupar espaço.
E Vicente estava permitindo.
Mais do que isso.
Estava abrindo caminho para ela.
Sem perceber que, a cada passo dado em direção ao passado, se afastava da mulher que continuava esperando por ele no presente.







