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Capítulo 3 — O Último Desejo

Aurora passou o restante da manhã tentando ignorar a inquietação que se instalara dentro dela.

Tentando.

Porque ignorar e conseguir eram coisas completamente diferentes.

O celular continuava sobre a mesa.

Silencioso.

Sem mensagens de Vicente.

Sem ligações.

Sem qualquer sinal de que ele se lembrava que o casamento deles aconteceria em poucos dias.

Ela abriu novamente a planilha dos convidados.

Duzentas e oitenta confirmações.

A decoração já estava paga.

O buffet contratado.

A banda reservada.

A lua de mel escolhida depois de semanas de discussão sobre destinos.

Vicente queria algo simples.

Aurora queria algo inesquecível.

Acabaram escolhendo a Itália.

Ela lembrava exatamente do sorriso dele quando assinaram a reserva.

Lembrava da forma como ele a puxou para perto naquele dia.

Lembrava das promessas.

Das certezas.

Dos planos.

E talvez fosse isso que mais a assustava.

Porque tudo parecia sólido demais para começar a desmoronar tão rápido.

O toque do celular interrompeu seus pensamentos.

Seu coração acelerou.

Vicente.

Finalmente.

Ela atendeu imediatamente.

— Oi.

— Aurora.

A voz dele parecia cansada.

— Está tudo bem?

— Sim.

Mentira.

Ela percebeu no mesmo instante.

— Você ainda está no hospital?

Houve um silêncio curto.

— Estou.

Aurora fechou os olhos.

— Vicente... você passou a noite aí.

— Eu sei.

— E agora está passando o dia inteiro também.

— Ela está sozinha.

A resposta veio rápida demais.

Como se ele já estivesse preparado para defendê-la.

Aurora sentiu algo apertar dentro do peito.

— Eu não disse que ela não está.

— Então por que está questionando?

Ela ficou alguns segundos sem responder.

Porque aquilo não parecia uma conversa entre noivos.

Parecia uma discussão.

E ela não entendia por quê.

— Eu só estou preocupada com você.

Vicente suspirou.

— Desculpa.

A voz dele suavizou.

— Estou nervoso.

— Eu percebi.

— Os médicos foram sinceros hoje.

Aurora endireitou a postura.

— O que aconteceu?

— Lavínia tem poucos meses.

O silêncio se espalhou entre eles.

Aurora não sabia o que dizer.

Porque independentemente de qualquer coisa...

Aquilo era triste.

Muito triste.

Ninguém merecia receber uma notícia assim.

— Sinto muito.

— Ela está apavorada.

Aurora apertou o celular.

— Imagino.

— Ela não tem ninguém.

A frase ficou ecoando dentro dela.

Ela não tem ninguém.

Como se Vicente estivesse tentando justificar alguma coisa.

Como se estivesse construindo uma defesa para algo que ainda nem tinha acontecido.

— Você vai voltar para casa hoje?

Mais silêncio.

E aquele silêncio respondeu antes mesmo que ele falasse.

— Não sei.

O coração dela afundou.

— Não sabe?

— Talvez eu fique mais algumas horas.

Aurora desviou o olhar para a janela.

As mãos começaram a ficar frias.

— Certo.

— Aurora...

— Está tudo bem.

Mas não estava.

Ela apenas não queria admitir.

Naquela tarde, Aurora decidiu ir ao hospital.

Não para fiscalizar Vicente.

Não para criar problemas.

Mas porque precisava enxergar aquela situação com os próprios olhos.

Precisava entender quem era Lavínia.

Precisava entender o que estava acontecendo.

O Hospital São Lucas era elegante.

Silencioso.

Frio.

Aurora caminhou pelos corredores seguindo as informações recebidas na recepção.

Quando chegou ao quarto indicado, parou antes de entrar.

A porta estava entreaberta.

E a cena diante dela fez seu coração desacelerar.

Lavínia era bonita.

Muito bonita.

Os cabelos castanhos caíam sobre os ombros.

A pele estava pálida.

Os olhos pareciam cansados.

Mas ainda havia beleza nela.

Muita.

Sentado ao lado da cama estava Vicente.

Segurando sua mão.

Conversando baixinho.

Aurora não conseguiu ouvir as palavras.

Mas viu o sorriso.

Viu a forma como ele olhava para Lavínia.

Viu a maneira como ela o observava.

Como se aqueles sete anos nunca tivessem existido.

Como se nada tivesse mudado.

Como se ainda fossem eles.

Algo dentro dela doeu.

Não porque acreditava que Vicente estava traindo.

Mas porque percebeu uma verdade desconfortável.

Lavínia ocupava um espaço que jamais havia desaparecido completamente.

Aurora bateu na porta.

Os dois se viraram.

Vicente levantou imediatamente.

— Aurora.

O tom da voz dele denunciava surpresa.

Talvez até nervosismo.

— Achei que deveria vir conhecer a mulher que está monopolizando meu noivo.

Ela tentou transformar a frase em brincadeira.

Mas nem ela acreditou no próprio sorriso.

Lavínia sorriu.

Um sorriso gentil.

Delicado.

— Você deve ser Aurora.

— E você deve ser Lavínia.

As duas se observaram.

Medindo-se.

Estudando-se.

Como duas mulheres tentando entender o próprio lugar naquela história.

— Vicente fala muito sobre você — disse Lavínia.

Aurora quase perguntou quando.

Porque nos últimos dois dias ele parecia não falar de outra coisa além dela.

Mas se conteve.

— Espero que esteja se recuperando.

— Estou tentando.

A resposta veio acompanhada de um sorriso triste.

Tão triste que Aurora se sentiu culpada por qualquer ressentimento.

Talvez fosse exatamente por isso que aquela situação era tão perigosa.

Porque Lavínia não parecia uma vilã.

Não parecia manipuladora.

Não parecia má.

Parecia apenas uma mulher assustada.

Uma mulher morrendo.

E isso tornava tudo mais complicado.

Muito mais complicado.

No final da visita, quando Aurora já se preparava para sair, Lavínia chamou Vicente.

— Você pode ficar mais um pouco?

O pedido foi simples.

Inocente.

Mas Aurora viu a hesitação surgir no rosto dele.

A breve dúvida.

O conflito.

E depois a decisão.

— Claro.

A resposta veio sem esforço.

Sem reflexão.

Sem sequer olhar para Aurora.

Apenas claro.

Como se fosse óbvio.

Como se não existisse outra opção.

Aurora sorriu.

Ou fingiu sorrir.

Nem ela sabia mais.

— Eu vou indo.

Vicente finalmente a encarou.

— Eu te acompanho.

— Não precisa.

— Aurora...

— Fique.

Ela saiu antes que ele pudesse responder.

Naquela noite.

Vicente chegou em casa perto da meia-noite.

Aurora ainda estava acordada.

Sentada na varanda.

Observando as luzes da cidade.

— Você devia estar dormindo.

— Você devia estar aqui.

A frase escapou antes que ela pudesse impedir.

Vicente ficou imóvel.

— Não faz isso.

— Fazer o quê?

— Me fazer sentir culpado.

Aurora virou o rosto lentamente.

— Você está se sentindo culpado?

— Eu estou tentando ajudar alguém.

— E eu estou tentando entender por que isso está custando tanto ao nosso relacionamento.

O silêncio voltou.

Pesado.

Desconfortável.

Cada vez mais frequente.

— Ela fez um pedido hoje.

Aurora sentiu um arrepio.

— Que pedido?

Vicente passou a mão pelo rosto.

Como fazia quando estava nervoso.

— Ela quer realizar alguns sonhos antes de morrer.

Aurora não gostou da forma como aquilo soou.

Nem um pouco.

— Que sonhos?

— Coisas simples.

— Como o quê?

— Lugares que ela queria visitar.

Aurora permaneceu em silêncio.

Esperando.

Instintivamente esperando.

Porque sentia que havia mais.

Muito mais.

E havia.

— Ela queria ver o mar novamente.

— Certo.

— Então pensei em levá-la.

Aurora ficou imóvel.

— Você pensou em quê?

— É só um final de semana.

O coração dela afundou.

— Final de semana?

— Sim.

— O próximo final de semana?

Vicente desviou o olhar.

E isso foi suficiente.

Porque Aurora sabia exatamente o que aconteceria naquele final de semana.

A prova final do vestido.

A reunião com os padrinhos.

Os últimos ajustes do casamento.

O casamento deles.

O casamento que parecia começar a perder espaço para os últimos desejos de Lavínia.

E pela primeira vez desde que aquela mulher voltou...

Aurora sentiu medo.

Não medo de perder Vicente.

Mas medo de descobrir até onde ele estava disposto a ir por pena.

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