CAPÍTULO 3
— Não precisa. Você está trabalhando na Cidade N agora. Vamos abrir o estúdio aí, perto de você. Eu vou me divorciar em breve. Me dá um tempo para resolver as coisas por aqui, e depois vou até você.

Helena falou sobre o divórcio com uma calma estranha. A veterana pareceu muito surpresa e ficou um bom tempo sem dizer nada.

Mas, por educação, não continuou perguntando e aceitou a proposta dela.

Depois que desligou, Helena encomendou vários livros e revistas e também separou os materiais da época da faculdade.

Ela não foi ao hospital, nem entrou em contato com Rafael. Ficou sozinha em casa estudando, tentando recuperar os conhecimentos profissionais que já estavam enferrujados.

Quando mergulhou de verdade naquilo, pouco a pouco, voltou a encontrar a Helena de antes.

Aquela Helena que não ficava presa a amor, que só tinha design nos olhos e queria se tornar uma designer de nível mundial.

Os dias foram passando. No dia do aniversário de casamento, Rafael voltou para casa.

Ao ver a mesa cheia de rascunhos, ele olhou para ela com surpresa.

— Você passou esses dias em casa desenhando projetos?

A mão de Helena, que segurava a caneta, parou por um instante. Depois, ela assentiu com calma.

— Estou pensando em voltar a trabalhar como designer. Neste período, preciso recuperar o ritmo. Não tenho tempo para cuidar de você.

Ao ouvir a explicação dela, Rafael sentiu algo estranho passar pelo peito.

Antes, quando ele tinha se machucado um pouco por causa de uma turbulência durante um voo, Helena soube da notícia e ficou três dias inteiros ao lado dele no hospital, sem sair nem por um passo. Chorou até os olhos incharem.

Desta vez, ele tinha se ferido muito mais. Mas ela nem perguntou. Também não teve reação nenhuma.

Rafael achou estranho. Mas, como nunca interferia na vida dela, também não insistiu.

— Tudo bem. Pode correr atrás do seu sonho sem se preocupar. Se o Professor Moraes soubesse que você voltou ao design, também ficaria feliz por você.

— Ele apoiaria qualquer decisão? Então... e o divórcio?

Helena perguntou sem pensar. Mas o celular de Rafael tocou bem naquele momento.

Ele atendeu e entrou no escritório. Parecia não ter ouvido o que ela disse.

Antes que a porta se fechasse, Helena ouviu de leve a voz de Beatriz. Então soltou uma risada baixa.

Ela respirou fundo e voltou a se concentrar no desenho. Já tinha perdido a noção do tempo.

No fim da tarde, Rafael abriu a porta e saiu. Como se fosse algo sem importância, comentou:

— Reservei um restaurante. Vamos jantar fora?

Depois de passar o dia inteiro sentada, Helena realmente estava com um pouco de fome, então aceitou.

Rafael deixou ela perto do restaurante e foi procurar uma vaga.

Quando voltou, trazia uma caixa na mão esquerda e um buquê de rosas cor-de-rosa no braço direito.

Ele caminhou até ela e entregou as flores para que ela segurasse. Naquele instante, Helena ficou imóvel.

Em três anos de casamento, era a primeira vez que recebia flores dele. Uma onda de emoções confusas subiu dentro dela.

Ela quis perguntar por que ele, de repente, tinha comprado rosas. Quis perguntar o que havia na caixa. Quis perguntar se era para comemorar o aniversário de casamento.

As palavras já estavam na ponta da língua. Mas, quando estava prestes a falar, viu uma figura conhecida.

Beatriz estava parada na entrada do restaurante recém-inaugurado. Com um sorriso no rosto, veio ao encontro deles.

— Rafael, aqui! Por que você demorou tanto? Esta deve ser sua esposa, não é? Olá, prazer em conhecer você. Sou amiga do Rafael, Beatriz Soares.

Ela cumprimentou Helena com naturalidade e ainda estendeu a mão primeiro.

A expressão no rosto de Helena congelou por alguns segundos. Depois voltou ao normal, e ela apertou a mão dela.

— Olá. Helena Moraes.

Depois do cumprimento, Rafael entregou a caixa de presente a Beatriz, com uma expressão tranquila.

— É o primeiro dia de funcionamento do seu restaurante. Como eu poderia vir de mãos vazias? Preparei um presentinho e flores. Por isso acabei me atrasando um pouco.

Ao ouvir isso, Helena baixou os olhos para as rosas abertas e vistosas em suas mãos.

Então o presente e as flores eram para Beatriz?

O peito de Helena se fechou, e uma amargura sem fim se espalhou por dentro dela.

Com a mão tremendo de leve, ela entregou as flores a Beatriz e fez o possível para parecer tranquila.

Beatriz recebeu o presente. Quando abriu e viu a bolsa dentro da caixa, os olhos dela se encheram de surpresa.

— Como você sabia que eu estava procurando essa bolsa em todos os lugares? Ela é limitada a dez unidades no mundo inteiro. Você gastou demais. E esse buquê também é lindo. Não acredito que, depois de tantos anos, você ainda se lembra que eu só gosto das rosas cor-de-rosa dessa floricultura.

Rafael disse, sem dar importância, que tinha comprado a bolsa por acaso e que a floricultura ficava no caminho.

Mas Helena sabia que não existiam tantas coincidências assim no mundo.

Tudo aquilo tinha sido preparado por ele de propósito.

E o jantar que ele dizia ter marcado com ela era apenas uma desculpa para ver Beatriz.

Do começo ao fim, Helena não passava de uma peça usada por ele.

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