CAPÍTULO 2
Helena foi até um escritório de advocacia.

Pediu que o advogado preparasse um acordo de divórcio e só depois voltou ao hospital, levando uma canja.

Assim que chegou à porta do quarto, viu Beatriz toda atrapalhada tentando cuidar de Rafael.

Ela serviu uma tigela de canja para levar até ele, mas acabou derramando em cima dele sem querer. Enquanto pedia desculpas, tentou limpar a roupa dele e acabou abrindo o ferimento. Depois quis cuidar do machucado e pegou o remédio errado.

Ao ver Rafael prender a respiração de dor, os olhos de Beatriz ficaram vermelhos na hora.

— Rafael, me desculpa. Eu sei que você entrou no fogo por minha causa e acabou se machucando desse jeito. Eu queria cuidar de você, mas não consigo fazer nada direito. Me desculpa.

Nos olhos sempre distantes de Rafael, passou um traço de impotência.

— Você cresceu cheia de cuidados e nunca passou dificuldade. É normal não saber cuidar de alguém. Eu só tive alguns ferimentos leves. Em poucos dias, melhora. Não precisa se preocupar, nem se sentir culpada.

Ao ouvir isso, Beatriz chorou ainda mais.

— Você está mentindo de novo. Que ferimentos leves? O médico já me contou. Suas queimaduras foram graves. Você nunca mais vai poder ser comandante, não é?

Ao ver as lágrimas dela, a expressão de Rafael se tornou difícil de ler.

Ele quis abraçá-la para consolar. Mas, quando estendeu a mão, percebeu que aquele gesto não cabia na situação entre os dois.

Então pegou alguns lenços e entregou a ela.

— Na verdade, eu já tinha preparado meu pedido de demissão. Pretendia sair este mês. Então, para mim, poder ou não continuar sendo comandante não importa nem um pouco. Isso nunca teve nada a ver com você. Para de chorar.

Beatriz ficou parada, atônita, olhando para ele com os olhos embaçados de lágrimas.

— Demissão? Por quê? Você não dizia que ser piloto era o seu sonho?

Rafael ficou em silêncio por um instante. Quando voltou a falar, havia algo difícil de definir em sua voz.

— Ser piloto nunca foi meu sonho. Foi porque, quando você tinha oito anos, elogiou um comandante e disse que ele era muito bonito. Disse também que, quando crescesse, queria se casar com um piloto para ele levar você pessoalmente pelo mundo. Achei que você lembrasse.

— Rafael!

Beatriz jamais imaginou que fosse esse o motivo. Não conseguiu mais se conter e se jogou nos braços dele.

Rafael também ficou imóvel por um segundo. Aquelas mãos, que tinham avançado e recuado em dúvida, acabaram abraçando ela.

Ao ver aquela cena, Helena sentiu como se uma faca tivesse atravessado seu peito. Doía como uma ferida aberta.

Ela apertou a mão com força, até os nós dos dedos ficarem brancos, e mordeu o lábio inferior até sangrar.

Engoliu à força toda aquela dor, deixou as coisas na porta e foi embora.

Assim que chegou ao térreo, encontrou alguns colegas de tripulação de Rafael vindo na direção dela.

Eles tinham ido visitá-lo. Depois de trocar algumas palavras, perguntaram sobre o estado dele.

Helena explicou por alto e informou o número do quarto.

Os colegas estavam prestes a subir quando receberam uma chamada para um voo urgente e precisaram voltar às pressas.

— Helena, agora precisamos voltar para o aeroporto. Por favor, mande nossos cumprimentos ao comandante Rafael. Ah, este é o pedido de demissão dele. A chefia já aprovou. Você pode entregar para ele por nós?

Depois de pegar o documento e os presentes, Helena viu o motivo que Rafael tinha dado para pedir demissão. Havia apenas um item.

"Desde que entrei na empresa, voei por três anos na rota para a Austrália. Toda vez que pousava naquela terra desconhecida, uma tristeza difícil de explicar tomava conta de mim. E, quando eu atravessava as nuvens, surgia em mim uma sensação irreal de não conseguir pisar em terra firme. Eu sempre sentia que tinha perdido o rumo. Até que, há pouco tempo, ouvi notícias de uma pessoa do passado e acordei de repente. Talvez aquilo que persegui a vida inteira nunca tenha sido o céu azul, mas a silhueta de alguém. Agora que ela voltou, encontrei meu rumo outra vez. Só quero que tudo finalmente se acomode."

Helena sempre achou que a fé de Rafael estava no céu sem fim e na liberdade de voar.

Mas não era isso. Aquilo em que ele acreditava nunca tinha sido o céu. Sempre tinha sido Beatriz.

Ele se tornou piloto para agradar ela. Virou comandante para poder ir à Austrália ver ela a qualquer momento. Até o pedido de demissão era porque ela tinha voltado.

Já Helena apenas ocupava em vão o lugar de esposa dele. Nunca tinha entrado no coração dele.

Ela fechou os olhos em desespero e se lembrou de Rafael discursando no auditório cinco anos antes, cheio de confiança e falando com tanta convicção.

Aquele tinha sido o momento em que ela se apaixonou por ele.

Também tinha sido o momento em que ele se esforçava para chegar mais perto de Beatriz.

Era triste.

E era ridículo.

Agora, a pessoa que ele esperava tinha voltado. Também estava na hora de Helena sair do caminho.

Depois de voltar para casa, Helena ligou para uma veterana da faculdade que vinha tentando convidá-la para uma parceria e aceitou abrir um estúdio de design com ela.

Depois da formatura, como Rafael tinha voos quase toda semana, Helena ficou em casa para cuidar melhor da família.

Agora que tinha decidido ir embora, também queria voltar a correr atrás do próprio sonho.

Ao ouvir a resposta dela, a outra mulher não escondeu a alegria na voz.

— Helena, na época da faculdade, os professores já diziam que você nasceu para o design. Todo mundo esperava ver você brilhar na área. Ainda bem que você pensou melhor! Amanhã eu pego um voo de volta para conversar com você sobre o contrato. Vamos deixar o endereço do estúdio na Cidade B. Afinal, você é casada. Assim também fica mais fácil cuidar da família.

Continue lendo este livro gratuitamente
Digitalize o código para baixar o App
Explore e leia boas novelas gratuitamente
Acesso gratuito a um vasto número de boas novelas no aplicativo BueNovela. Baixe os livros que você gosta e leia em qualquer lugar e a qualquer hora.
Leia livros gratuitamente no aplicativo
Digitalize o código para ler no App