Beatriz levou Rafael para conhecer cada canto do restaurante, apresentando tudo enquanto caminhavam.
— Você ainda lembra que, no ensino fundamental, meu maior desejo era abrir um restaurante?
— Lembro. Você disse que a decoração teria um estilo litorâneo europeu, que as paredes seriam cheias de quadros impressionistas, que as mesas e cadeiras seriam só em preto e branco, e que você mandaria fazer aromas personalizados, com um perfume de flor diferente a cada dia.
Ao ouvir Rafael repetir sem errar uma palavra do que ela tinha dito naquela época, Beatriz também ficou parada por um instante.
— Como você lembra melhor do que eu? Então você lembra também...
— Claro. Você disse que me daria trinta por cento da sociedade e me convidaria para ser bartender do restaurante. Esse combinado ainda vale?
Um brilho de alegria passou pelos olhos de Beatriz, e ela fez uma expressão sem jeito.
— Aquilo foi uma brincadeira de tantos anos atrás. Como você pode levar a sério? Além disso, mesmo não sendo mais comandante, você ainda tem uma fortuna para herdar. Virar bartender para mim seria desperdiçar demais o seu talento.
O olhar de Rafael escureceu um pouco. Seus lábios se entreabriram, mas, no fim, ele ficou em silêncio.
Helena observou tudo em silêncio. O peito dela ficou pesado, abafado, como se não houvesse ar suficiente.
Ela sabia que Rafael estava falando sério.
Ele queria mesmo ficar o tempo inteiro ao lado de Beatriz. Mesmo que fosse como bartender, mesmo que só pudesse vê-la de longe, para ele já seria suficiente.
Afinal, ele já tinha provado a dor de perder. Agora que podia ter de novo, valorizaria ainda mais cada chance de vê-la e estar com ela.
Como naquele momento. O olhar dele estava sempre em Beatriz, e ele não tinha olhado para trás nem uma vez.
Helena ficou sozinha no fim do caminho, esquecida, sem que ninguém percebesse.
Quando chegaram ao reservado, Rafael pegou o cardápio por hábito.
Beatriz também se sentou ao lado. Ao ouvir os pratos que ele pediu, falou de propósito:
— Rafael, por que você só pediu pratos que eu gosto? E sua esposa? Do que ela gosta? Você também devia cuidar dela um pouco.
A mão de Rafael parou por um instante sobre o cardápio. Ele olhou para Helena e, com naturalidade, passou o cardápio para ela.
— Eu também não sei do que você gosta. Pedi algumas coisas quaisquer. Escolhe o que quiser comer.
Ao ver aquele jeito indiferente dele, e o ar satisfeito no rosto de Beatriz, Helena perdeu o fôlego. Os dedos dela se cravaram fundo na palma da mão.
Ela sempre soube que Rafael era frio com quase tudo. Por isso, mesmo depois do casamento, quando ele não se lembrava dos aniversários, não preparava surpresas românticas e não levava em conta os sentimentos dela, ela ainda conseguia suportar.
Mas, depois de ver com os próprios olhos o quanto ele se importava com Beatriz, e então encarar o quanto ele a ignorava, Helena só sentiu uma tristeza cansada e sem saída.
Ela não pegou o cardápio. Com o rosto pálido, levantou-se e disse que ia ao banheiro.
Beatriz a seguiu com a desculpa de mostrar o caminho. Enquanto pedia o contato dela, foi dizendo frases de sentido nada inocente.
— Helena, não se incomode, tá? Eu e Rafael nos conhecemos há mais de dez anos. A gente é muito próximo. Ele lembra do meu ciclo, sabe que eu tenho cólicas e, um tempo atrás, ainda foi até a cidade vizinha para encontrar um médico muito bom para mim. Nos últimos anos, quando eu estava fora do país, em datas como Páscoa e Natal, ele sempre pedia para alguém levar presentes para mim...
Ao ouvir aquele tom que parecia explicação, mas era pura exibição, Helena sentiu algo preso no peito. Mal conseguia respirar.
Ela parou, virou-se para Beatriz e falou com pressa:
— E daí? O que você quer dizer com isso?
A expressão de Beatriz ficou levemente rígida, e um sorriso discreto surgiu no canto dos lábios.
— Não está óbvio? Quero te dizer que, mesmo sendo esposa do Rafael, você nunca vai tomar o meu lugar no coração dele. Mais cedo ou mais tarde, Rafael vai voltar para mim. Se você tiver um pouco de noção, devia sair dessa relação por vontade própria. Seria melhor para você, para mim e para Rafael. Não acha?
Helena sabia que tudo o que Beatriz dizia era uma verdade que ela não podia negar.
Ela baixou a cabeça e respirou fundo. Estava prestes a falar quando o acidente aconteceu.
O lustre luxuoso acima delas se soltou de repente e caiu direto na direção onde as duas estavam.
Os clientes ao redor viram a cena e começaram a gritar. O lugar inteiro virou um caos.
As duas ainda nem sabiam o que estava acontecendo. Quando levantaram a cabeça e viram a sombra despencando em alta velocidade, suas pupilas se contraíram.
No instante em que o lustre pesado estava prestes a atingir as duas, Rafael correu de alguns metros de distância, puxou Beatriz de uma vez e levou ela para uma área segura.
Helena ficou para trás, sozinha, atingida pelo lustre. Caiu no chão coberta de sangue.
A dor veio dos braços, das pernas, de cada parte do corpo, rasgando seus nervos sem parar.
O sangue escorreu pela testa e tingiu o mundo diante dela. Ela forçou as pálpebras a se abrirem e viu um grupo de clientes cercando Beatriz, a dona do restaurante, exigindo explicações.
Rafael estava ao lado dela como um cavaleiro, bloqueando todos os insultos e ataques por ela, protegendo-a enquanto a afastava do centro da confusão.
Olhando para aquelas duas figuras se afastando cada vez mais, Helena não aguentou mais. Tudo escureceu diante dos seus olhos, e ela perdeu a consciência...
Quando acordou de novo, Helena percebeu que estava no hospital.
Seu corpo inteiro estava coberto de curativos. Bastava se mexer um pouco para a dor fazê-la prender a respiração.
Mas não havia ninguém no quarto.
Ninguém cuidava dela.
Ela ficou em silêncio por muito tempo. Depois, suportando a dor, pegou a bolsa sobre a mesa, tirou de dentro a tabela de pontos e descontou mais dez pontos.
Depois de escrever, tentou guardar a folha de volta, mas não segurou direito. A tabela caiu da cama e foi apanhada pela enfermeira que acabava de entrar para a visita.
A enfermeira olhou por alto, cheia de curiosidade.
— Que tabela é essa? Como perdeu tantos pontos? O que acontece quando os pontos acabam?
O olhar de Helena ficou parado por um instante. Ela estendeu a mão, pegou a tabela de volta e respondeu em tom baixo:
— Uma tabela de pontos do casamento. A nota máxima é cem. Quando chegar a zero, tudo acaba.
— Acaba? Quer dizer divórcio? Mas só faltam dez pontos nessa tabela!
A enfermeira exclamou. No segundo seguinte, a porta do quarto foi aberta.
Rafael entrou com a testa levemente franzida, e o olhar dele se fixou em Helena.
— Que dez pontos?