Mundo de ficçãoIniciar sessão[MEISTER ROVIK]
O esconderijo cheirava a pedra húmida e sangue velho. Eu estava à janela e observava as luzes da cidade a tremeluzirem ao longe como estrelas moribundas. O castelo erguia-se no topo da colina, as suas torres perfurando o céu noturno — um monumento ao poder, construído sobre as sepulturas dos inocentes. Atrás de mim, os meus três homens mais confiáveis esperavam em silêncio. Sabiam que era melhor não falar quando eu estava a pensar. Dmitri, a minha mão direita, encostava-se à parede com os braços cruzados. Os gémeos, Kasim e Kade, estavam sentados à mesa de madeira, os seus rostos idênticos como que talhados da mesma pedra brutal. Esperávamos há três horas. Raya já deveria ter regressado há muito. — Talvez esteja a ser cautelosa — arriscou Dmitri por fim. — A demorar o tempo necessário para não ser descoberta. Não disse nada. Os meus dedos percorreram as arestas bem aparadas da minha barba — a moldura quadrada que cultivava há anos. Um símbolo de controlo. De precisão. Tudo no seu lugar, afiado e deliberado. Exatamente como os meus planos. Mas os planos precisavam de peças que não falhassem. Passos ecoaram no corredor lá fora. Rápidos, apressados. Não o andar silencioso de Raya. A porta abriu-se de rompante e um dos nossos informantes das ruas entrou aos tropeções, ofegante. Um rapaz, mal tinha dezasseis anos, que pagávamos para vigiar o castelo e relatar movimentos. — Mestre Rovik — arquejou ele. — Há notícias. Más notícias. O meu maxilar contraiu-se, mas a minha voz permaneceu calma. — Fala. — Houve um incidente esta noite no castelo. Um intruso nos aposentos privados do Rei Alfa. Os guardas perseguiram-no… — Engoliu em seco. — Dispararam uma flecha. O intruso caiu da Grande Ponte para o canal. O quarto ficou mortalmente silencioso. — Encontraram o corpo? — perguntou Dmitri bruscamente. O rapaz abanou a cabeça. — Não, senhor. A corrente estava demasiado forte. Procuraram, mas não encontraram nada. O Rei Alfa ordenou que continuassem a busca ao amanhecer. Virei-me novamente para a janela, com as mãos entrelaçadas atrás das costas. As luzes da cidade turvaram-se ligeiramente. Se de raiva ou outra coisa, não saberia dizer. — Deixem-me sozinho — disse eu em voz baixa. O rapaz fugiu. Criança esperta. A porta fechou-se e mesmo assim não me virei. — Pode ter sido outra pessoa — sugeriu Kasim. — Talvez outro ladrão. — Foi ela. — A minha voz saiu plana, definitiva. — Tu sabes. Eu sei. Silêncio novamente. Raya. A minha pequena sombra. A rapariga que encontrara há onze anos, meio morta por envenenamento por fumo, com uma boneca queimada nas suas pequenas mãos. A única sobrevivente do massacre dos Fenrith. Vira-me a mim mesmo nela naquela noite. Outra criança, destruída pela crueldade das famílias governantes. Outra inocente, esmagada sob as rodas dos seus jogos de poder. Por isso, levei-a comigo. Treinei-a. Moldei-a numa arma perfeita. E amara-a. Pelos deuses, amara-a como à irmã que perdera. Mira. O nome da minha irmã era uma lâmina entre as minhas costelas, mesmo depois de todos estes anos. A doce Mira com o seu riso cristalino e a sua teimosa convicção de que tudo ficaria bem, de que a mãe encontraria trabalho na cidade seguinte, de que as acusações eram falsas e a verdade venceria. Morrera porque acreditara na justiça. Tola. — Quais são as vossas ordens, Mestre? — A voz de Dmitri arrancou-me dos pensamentos. Respirei lentamente e forcei a emoção para baixo, cada vez mais fundo no lugar escuro onde guardava tudo o que me poderia enfraquecer. — Destruam os aposentos dela — disse eu. — Mestre… — começou Kasim. — Gaguejei? — Virei-me, e fosse o que fosse que viram no meu rosto, fez com que todos se endireitassem. — Ela falhou. Tinha uma tarefa e falhou. Tudo o que lhe pertencia, cada vestígio da sua existência na nossa operação — queimem. Esta noite. — Mas se ela sobreviveu… — tentou Kade. — Se sobreviveu, está comprometida. — As palavras souberam a cinza. — Foi atingida por uma flecha, ferida, arrastada para um canal gelado. Se sobreviveu por milagre, ou está presa ou inútil para nós. Em qualquer caso, é um risco. Mentiras. Tudo mentiras. Se tivesse sobrevivido e regressado a mim, eu próprio teria tratado das suas feridas. Tê-la-ia abraçado e dito que estava tudo bem, que tentaríamos novamente. Mas não podia mostrar-lhes essa fraqueza. Não podia mostrar-lhes como o pensamento do corpo dela a flutuar naquela água escura abria algo no meu peito e o fazia sangrar. — Entendido — disse Dmitri em voz baixa. Ele sabia. Sabia sempre. Mas não o diria. — Vão. Quero que esteja feito dentro de uma hora. Saíram e deixaram-me sozinho com os fantasmas. Dirigi-me ao armário no canto e tirei uma garrafa de uísque que raramente tocava. O copo pesava na minha mão. O líquido queimou-me a garganta, mas não aqueceu o frio que se espalhava no meu peito. Raya estava morta. A minha arma. A minha vingança. A minha filha em tudo menos no sangue. Partida. Fechei os olhos e voltei a ser um rapaz. Doze anos, sujo e desesperado, ajoelhado perante o trono do falecido Rei Alfa. — Por favor, Vossa Majestade! A minha mãe e a minha irmã… elas não fizeram nada! São inocentes! Por favor, ouça-me… O Rei Alfa olhara para mim com aqueles olhos frios e impiedosos. Os mesmos olhos cor de âmbar que o seu filho herdaria. — As provas são claras, rapaz. A tua mãe conspirou com inimigos do bando. A tua irmã ajudou-a. Foram consideradas culpadas pelas famílias governantes. — Mas não fizeram nada! O meu pai mente! Está a proteger-se a si próprio… — O teu pai — disse o Rei Alfa com voz cortante — é um respeitado membro de uma das quatro famílias governantes. Tu não és nada. Um bastardo com delírios. Sê grato por eu não te executar junto com elas. — O exílio é o mesmo que a morte! — gritara eu. — Elas não sobreviverão lá fora! Por favor, tenha misericórdia! Ela é apenas uma criança… a Mira tem apenas oito anos! O rei inclinara-se para a frente e eu vira. A diversão cruel no seu rosto. — Então talvez devesses ter nascido legítimo. Acenara com a mão e os guardas tinham-me arrastado para fora do salão do trono. A última coisa que vi foram a minha mãe e a minha irmã, levadas em grilhões, o pequeno rosto de Mira coberto de lágrimas. Nunca mais as vi vivas. O copo estilhaçou-se na minha mão. Olhei para o sangue que jorrava da minha palma e se misturava com o uísque no chão. A dor estava distante, insignificante. Morreram no inverno. Congeladas, logo fora do território do bando, incapazes de caçar, incapazes de se transformar porque a magia do exílio lhes roubara os lobos. Eu próprio encontrara os seus corpos, duas semanas depois, quando finalmente escapara das ruas e seguira o seu rasto. Mira agarrara-se aos braços da nossa mãe. Ainda a tentar manter-se quente. Ainda a acreditar que alguém as salvaria. Ninguém o fizera. As famílias governantes mantiveram-se unidas. O Rei Alfa mostrara a sua “força” protegendo um dos seus, mesmo quando este mentira e traíra o próprio sangue para encobrir os seus crimes. E eu ficara apenas com raiva e um juramento, proferido sobre o corpo congelado da minha irmã. Vou destruí-los. A todos. Tudo o que construíram. Todos os que amam. Um nobre chamado Marcus encontrara-me um mês depois na sarjeta. Era velho, rico e sem filhos. Vira algo em mim — potencial talvez, ou simplesmente um projeto para preencher os seus anos vazios. Tomara-me sob a sua proteção. Educara-me. Ensinara-me poder, paciência, o jogo a longo prazo. — A vingança — dissera ele uma vez — é um prato que se serve frio. Mas tem de ser servido na perfeição. Um erro e perdeste tudo. Eu aprendera. Pelos deuses, como aprendera. Elevara-me do nada à posição que agora ocupava — detentor de cargos, conselheiro de confiança, o homem que conhecia todos os segredos, todas as fraquezas. Sorrira no funeral do falecido Rei Alfa. Servira o seu filho com lealdade impecável. E durante todo esse tempo planeara a sua destruição. Soraya fora o instrumento perfeito. Jovem o suficiente para ser moldada. Suficientemente quebrada para precisar de um propósito. Suficientemente talentosa para realmente ter sucesso. Eu dera-lhe esse propósito. Derá-lhe um alvo para a sua raiva. E em troca, ela dera-me algo que eu pensara ter morrido com Mira. Esperança. Família. Amor. Velho tolo. A porta abriu-se. Dmitri regressou, com o rosto sombrio. — Está feito. Os aposentos dela estão a arder. Assenti uma vez. — Ótimo. — Mestre, eu… — Hesitou. — Lamento. Eu sei que ela significava… — Ela não significava nada. — A mentira saiu agora com facilidade, suave como seda. — Era uma ferramenta. As ferramentas partem-se. Arranjamos novas. O olhar de Dmitri revelou que não acreditava em mim. Mas baixou a cabeça. — Qual é o nosso próximo passo? Olhei novamente para o castelo na colina. Aleksander celebraria em breve o seu aniversário. Uma grande festa, todos os líderes importantes dos bandos presentes. Vulnerável. Distraído. Tinha planeado usar a infiltração de Soraya como distração para um golpe maior. Mas os planos mudavam. A adaptabilidade era sobrevivência. — Continuamos — disse eu. — Com ou sem ela. O Rei Alfa tornou-se complacente, rodeado de bajuladores e políticos. Acha-se intocável. — E? Sorri, frio e afiado. — Vamos dar-lhe a mesma lição que o pai dele me deu. Que o poder é uma ilusão. Que tudo o que amas te pode ser tirado num instante. A minha mão latejava. O sangue pingava constantemente para o chão. — Preparem os homens. Temos dois dias até à festa dele. Dois dias para colocar tudo no lugar. — Olhei Dmitri nos olhos. — Desta vez, eu próprio me encarrego. — Tem a certeza? Se for descoberto… — Não serei. — Passara vinte anos a construir este disfarce. Não o arriscaria por menos que a perfeição. — Confia em mim. Ele assentiu e saiu novamente. Sozinho, permiti-me um momento. Um suspiro de fraqueza. — Desculpa, pequena sombra — sussurrei no quarto vazio. Para o fantasma da rapariga que me chamara Mestre, mas me olhara como a um pai. — Falhei contigo tal como falhei com Mira. Mas juro pelas memórias de ambas… eles vão pagar. As famílias governantes, o Rei Alfa, todos os que mantêm este ciclo de crueldade. — Vou queimar tudo. A vela na minha secretária tremeluziu e apagou-se, mergulhando o quarto na escuridão. Ótimo. Há muito aprendera que os monstros trabalham melhor no escuro. E eu tornara-me o maior monstro de todos.






