Capítulo 4

Raya

Eu congelei.

E, por um instante, meu coração também parou.

Ele se virou lentamente, e só então percebi que minha lâmina estava pressionada contra seu peito, exatamente sobre seu coração.

Minha mão tremia tanto que, se eu não estivesse segurando a adaga com toda a força, ela teria caído no chão.

Eu deveria ter atacado imediatamente.

Deveria tê-la cravado em seu peito no instante em que ele falou.

Mas o choque me paralisou.

Ele olhou para a lâmina, depois para meu rosto.

Então sorriu.

Não era um sorriso cruel.

Nem sequer um sorriso irritado, como eu esperava.

Ele parecia...

Divertido.

Muito, muito divertido.

— Você não é uma mendiga — disse em tom casual, como se estivéssemos discutindo seu presente de aniversário e não o fato de que eu estava ameaçando sua vida naquele exato momento.

— Sua postura é treinada demais. Seus movimentos são precisos demais. E essa lâmina...

Ele fez um gesto com a cabeça em direção à adaga.

— ...é aço de assassino.

Estreitou os olhos para observá-la.

— Não pode ser rastreada. E é cara.

Muito, muito cara.

Minha garganta ficou seca.

— Solte-me.

— Para que você tente outra vez? Acho que não.

Ele deu um passo à frente, e, por instinto, pressionei a lâmina com mais força contra seu peito.

Uma única gota de sangue surgiu onde a ponta perfurou sua pele através da camisa.

Ele sequer estremeceu.

— Se pretende me matar, pequena assassina, é melhor fazer isso agora.

Sua voz caiu para um tom baixo e perigoso.

— Antes que eu decida parar de me divertir.

Minha loba choramingou, e minha mão tremeu ainda mais.

Faça isso.

Ataque.

Foi para isso que você treinou.

Foi para isso que você viveu.

Mate-o, Soraya.

Mas eu não conseguia me mover.

Meu Deus...

Eu simplesmente não conseguia fazer minha mão empurrar a lâmina para frente.

Seu cheiro me envolvia.

Tão masculino.

Tão irresistível.

E havia outra fragrância...

Algo que fazia minha cabeça girar.

O vínculo de companheiros nos puxava.

A nós dois.

Minha loba arranhava desesperadamente minhas barreiras mentais, implorando para sair.

Desesperada para se aproximar dele em vez de machucá-lo.

— O que houve? — perguntou Aleksander suavemente, mantendo aqueles olhos cor de âmbar presos aos meus. — Está tendo um segundo pensamento?

— Eu nunca tenho segundos pensamentos — retruquei entre os dentes.

— Então por que ainda estou respirando?

Boa pergunta.

Antes que eu pudesse responder, ele se moveu.

Mais rápido do que eu imaginava.

Foi apenas um borrão.

Num instante, a lâmina estava apontada para seu peito.

No seguinte, ele já havia torcido meu pulso, desarmando-me com uma facilidade humilhante.

A adaga caiu no chão com um ruído metálico.

Ele a chutou para longe.

Mas não soltou meu pulso.

Ficamos ali.

A centímetros um do outro.

Sua mão envolvia a minha.

Nós dois respirávamos com força.

Seus olhos permaneciam fixos em mim, procurando alguma coisa.

— Quem enviou você? — exigiu saber.

Ergui o queixo.

— Isso importa?

— Pode determinar se vou matar você agora... ou mais tarde.

Arqueei uma sobrancelha.

— Sou muito criativo quando quero matar alguém — disse ele. — Talvez você já tenha ouvido falar em arrancar línguas e...

— Então me mate.

As palavras escaparam antes que eu pudesse impedi-las.

Tentei me soltar, mas era inútil.

Meus olhos transbordavam tanto ódio e tanta raiva daquele homem que destruíra minha vida desde a infância.

— Mas nós dois sabemos que você não vai.

Os olhos dele se estreitaram.

— Tanta confiança. Por quê?

Porque cada instinto do meu corpo gritava que ele era meu.

Porque minha loba ronronava sob seu toque em vez de lutar.

Porque fosse lá o que existisse entre nós, também o estava afetando.

Eu via isso na tensão de sua mandíbula.

No pulso acelerado em seu pescoço.

Na forma como suas pupilas haviam se dilatado.

Mas eu não podia dizer nada disso.

Porque eu só queria matá-lo.

Acabar com tudo de uma vez.

— Porque, se você realmente quisesse que eu morresse, eu já estaria morta — respondi.

Ele me encarou por um longo momento.

Algo indecifrável atravessou sua expressão.

Então, lentamente, soltou meu pulso.

Resisti ao impulso de esfregar o lugar onde seus dedos haviam estado.

Onde minha pele ainda formigava por causa do toque dele.

— Você tem razão — disse por fim. — Eu não quero matar você. O que é uma pena, porque está bastante claro que você veio aqui para me matar.

— Eu falhei. Pode se vangloriar agora.

— Ah, não estou me vangloriando.

Ele apanhou minha adaga e a examinou com interesse profissional.

— Isto é um trabalho de qualidade. Feita sob medida. E quem quer que tenha treinado você sabia exatamente o que estava fazendo.

Não respondi.

Apenas revirei os olhos, tomada pela raiva.

— Você não vai me contar nada, vai?

— Contaria, se estivesse no meu lugar?

Outro sorriso.

Desta vez, quase admirado.

— Não. Acho que não.

Ele guardou minha adaga no bolso.

Minha adaga.

— Bem... isso cria um dilema interessante. Tenho uma assassina nos meus aposentos que acabou de tentar me matar. O protocolo diz que eu deveria mandar executá-la.

Meu coração martelava no peito, mas mantive a expressão neutra.

Por que ele estava sendo tão gentil?

E por que parecia achar tudo aquilo tão divertido?

Eu apenas precisava jogar minhas cartas da maneira certa.

— Mas o protocolo também diz que eu jamais deveria ter trazido uma mulher desconhecida para meus aposentos particulares.

Ele se aproximou novamente, e me forcei a não dar um passo para trás.

— E o protocolo definitivamente não prevê o fato de que eu a considero absolutamente fascinante.

— Eu tentei matar você — lembrei, erguendo o queixo.

— Eu sei.

— Faz parte do seu charme.

Será que ele tinha enlouquecido?

Eu acabara de tentar assassiná-lo e ele estava...

Flertando?

— O que vai fazer comigo? — perguntei, odiando o quanto minha voz soou incerta.

Aleksander inclinou a cabeça, estudando-me como se eu fosse um mapa mal desenhado.

— Ainda não decidi. Mas você não vai sair deste quarto esta noite. E amanhã...

Seu sorriso tornou-se predatório.

— ...amanhã, pequena assassina, nós teremos uma conversa muito longa sobre quem você realmente é e por que a Deusa da Lua decidiu colocá-la no meu caminho.

A Deusa da Lua.

É claro.

O vínculo de companheiros.

Será que ele sabia?

Será que também conseguia senti-lo?

— Eu não sou ninguém — sussurrei, recorrendo à minha velha resposta.

— Mentirosa.

Ele disse aquilo quase com carinho.

— Você é importante o bastante para querer me ver morto. Isso faz de você alguém muito interessante.

Ele caminhou em direção à porta, e o pânico se acendeu dentro do meu peito.

— Espere... para onde está indo?

— Buscar uma fechadura para essa porta. Não posso deixar você escapar sorrateiramente e tentar terminar o serviço enquanto eu estiver dormindo.

Ele fez uma pausa na soleira.

— Ah, e Raya? Se esse for mesmo seu verdadeiro nome, o que eu duvido...

Seus olhos encontraram os meus, intensos e ardentes.

— ...você deveria comer. Vai precisar de forças para amanhã.

Então ele se foi.

A porta se fechou atrás dele com um clique firme.

Fiquei sozinha nos aposentos do Rei Lykan.

Sem armas.

Presa.

E completamente ferrada.

Minha missão acabara de dar terrivelmente errado.

E a pior parte?

A pior de todas?

Minha loba estava feliz com isso.

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