3

[RAYA]

O castelo era exatamente como eu me lembrava.

Não — isso era uma mentira. Estava ainda mais grandioso. Mais opulento. Os salões por onde eu correra em criança durante visitas diplomáticas brilhavam agora com uma riqueza que na altura não existia. Aleksander construíra o seu império sobre as cinzas de famílias como a minha, e isso via-se em todo o lado.

Segui-o pelos corredores que fingia não reconhecer, mantendo a cabeça baixa e desempenhando o meu papel. A rapariga mendiga, grata pelo salvamento. Impressionada pela sua generosidade.

Interiormente, analisava cada detalhe. Postos de guarda. Rotas de fuga. O peso da pequena lâmina escondida no forro do meu vestido esfarrapado — a única arma que o Mestre Rovik me permitira trazer.

Uma oportunidade, pensei. A Deusa da Lua acabou de me oferecer uma oportunidade perfeita.

— Estes são os meus aposentos — disse Aleksander, abrindo uma pesada porta. — Aqui estás em segurança.

Entrei e, contra a minha vontade, o ar ficou preso na minha garganta.

O quarto era enorme. Uma cama com dossel dominava um dos lados, coberta com tecidos escuros que provavelmente custavam mais do que a maioria das pessoas ganhava num ano. Estantes de livros forravam as paredes, cheias de volumes encadernados a couro. Uma lareira crepitava com fogo fresco e aquecia o espaço. Através de outra porta, conseguia ver o que parecia ser uma zona de banho.

Aquilo não era um quarto de hóspedes. Era o quarto dele.

O meu pulso acelerou por razões que nada tinham a ver com a missão.

— Estás a trazer-me para os teus aposentos? — A pergunta saiu mais brusca do que eu pretendia.

Ele ergueu uma sobrancelha e encostou-se ao batente da porta com os braços cruzados. A postura fazia os seus ombros parecerem ainda mais largos, a sua presença ainda mais dominante.

— Preferirias as masmorras?

— Preferiria não invadir o espaço pessoal do Rei Alfa.

— Considera que não foi forçado. — Ele entrou no quarto e eu segui cada um dos seus movimentos como a predadora em que fora treinada. — Vais tomar banho, comer e descansar aqui. Amanhã veremos o que fazer contigo.

Amanhã já estarei longe. E tu estarás morto.

— Porquê? — perguntei, porque Raya — a rapariga mendiga — perguntaria. — Porque estás a fazer isto?

Ele examinou-me com aqueles olhos ardentes cor de âmbar e perguntei-me se ele conseguia ver através do meu disfarce. Se sabia exatamente o que eu era.

— Já te disse. Foste atacada no meu território.

— Existem abrigos. Orfanatos. Podias ter-me deixado em qualquer lado.

— Podia. — Ele aproximou-se e a minha mão estremeceu na direção da lâmina escondida. — Mas não quis.

A honestidade na sua voz perturbou-me mais do que qualquer mentira o teria feito.

— Vou mandar trazer comida — continuou ele, dirigindo-se à porta. — A zona de banho tem tudo o que precisas. Demora o tempo que quiseres.

Era isto. Ele ia deixar-me sozinha nos seus aposentos. Sem vigilância. Desprotegida.

Era quase demasiado fácil.

— Espera — chamei, antes que conseguisse deter-me.

Ele parou, com uma mão no batente da porta, e olhou para mim com expectativa.

— Obrigada. — As palavras souberam a cinza. — Por me teres salvado. Por… isto.

Algo brilhou na sua expressão. Surpresa? Satisfação? Fosse o que fosse, fez o meu estômago contrair-se de culpa, uma culpa que eu não tinha o direito de sentir.

— De nada, Raya. — A forma como pronunciou o nome falso fez a minha pele formigar. Como se o estivesse a saborear, a testar. — Volto já.

A porta fechou-se com um clique suave atrás dele.

Esperei exatamente trinta segundos antes de me mover.

A zona de banho era tão luxuosa quanto o quarto — uma grande banheira de cobre já cheia com água a fumegar, sabonetes e óleos alinhados com ordem. Em outras circunstâncias, talvez tivesse hesitado.

Mas eu não estava ali para tomar banho. Estava ali para matar.

Tirei a lâmina do esconderijo no meu vestido, o seu peso familiar centrando-me. Não era grande — mal maior do que a palma da minha mão —, mas era afiada. Suficientemente afiada para deslizar entre costelas. Suficientemente afiada para perfurar um coração.

Tinha treinado o movimento mil vezes em bonecos de treino. O Mestre Rovik certificara-se de que eu sabia exatamente onde acertar, quão fundo ir, qual o ângulo que garantia uma morte rápida.

— Sem hesitação — repetira ele. — A hesitação mata-te. No momento em que vires uma abertura, aproveita-a.

Regressei ao quarto e posicionei-me ao lado da porta. Quando Aleksander voltasse, esperaria até ele entrar, até me virar as costas, e então —

A porta abriu-se.

O meu coração parou, mas permaneci imóvel, a lâmina pronta, todos os músculos tensos para o ataque.

Aleksander entrou carregando um tabuleiro com comida. O aroma de carne assada e pão fresco encheu o quarto e fez o meu estômago traidor roncar. Ele dirigiu-se à pequena mesa junto à lareira e pousou o tabuleiro.

As costas dele estavam viradas para mim.

Agora.

Movimentei-me como Rovik me ensinara — silenciosa, rápida, mortal. Três passos cobriram a distância entre nós. Levantei a lâmina e mirei o espaço entre as suas omoplatas, o ponto que perfuraria o pulmão e talvez roçasse o coração se eu acertasse bem.

Um golpe. Era tudo o que era preciso.

Pela minha família. Pelos meus pais. Pela Nana, que morrera para me proteger.

A minha mão já estava em movimento quando ele falou.

— Queres apunhalar-me ou estás à espera de um convite?

Fiquei paralisada.

Ele virou-se lentamente e percebi que a minha lâmina estava pressionada contra o seu peito, mesmo por cima do coração. A minha mão tremia.

Devia ter atacado imediatamente. Devia ter cravado a lâmina no momento em que ele falou. Mas o choque paralisara-me.

Ele olhou para a lâmina, depois para o meu rosto. E sorriu.

Não era um sorriso cruel. Nem sequer zangado. Parecia… divertido.

— Tu não és mendiga — disse ele casualmente, como se estivéssemos a falar do tempo e não do facto de eu estar a ameaçar a sua vida. — A tua postura é demasiado treinada. Os teus movimentos demasiado precisos. E esta lâmina… — Ele acenou com a cabeça na direção dela. — …é aço de assassino. Não rastreável. Cara.

A minha garganta tinha ficado seca.

— Deixa-me ir.

— Para tentares outra vez? Acho que não. — Ele aproximou-se e, instintivamente, pressionei a lâmina com mais força contra o seu peito.

Uma única gota de sangue surgiu onde a ponta rasgou a pele através da camisa.

Ele nem sequer estremeceu.

— Se queres matar-me, pequena assassina, devias fazê-lo agora. — A sua voz tornara-se profunda e perigosa. — Antes que eu decida deixar de achar graça.

O meu lobo gemeu. A minha mão tremia ainda mais.

Faz isso. Crava a lâmina. Foi para isto que treinaste. Foi para isto que viveste.

Mas não conseguia mover-me. Não conseguia forçar a minha mão a empurrar a lâmina para a frente.

O cheiro dele envolvia-me — pinho, fumo e algo selvagem que me fazia a cabeça andar à roda. A ligação de companheiros gritava, o meu lobo arranhava para sair, desesperado por estar mais perto dele, em vez de o magoar.

— O que se passa? — perguntou Aleksander em voz baixa, os seus olhos cor de âmbar fixos nos meus. — Dúvidas?

— Eu nunca tenho dúvidas — consegui dizer.

— Então porque é que ainda estou a respirar?

Boa pergunta.

Antes que eu conseguisse responder, ele moveu-se — mais rápido do que eu esperava. Num momento a lâmina ainda estava contra o seu peito, no seguinte ele tinha torcido o meu pulso e desarmado-me com uma facilidade vergonhosa. A faca caiu no chão com um tinido e ele afastou-a com o pé.

Mas não soltou o meu pulso.

Ficámos ali, a centímetros um do outro, a mão dele fechada em torno da minha, ambos a respirar com dificuldade. Os seus olhos queimavam-se nos meus, como se procurasse algo.

— Quem te enviou? — exigiu ele.

Ergui o queixo.

— Isso importa?

— Pode decidir se te mato agora ou mais tarde.

— Então mata-me. — As palavras saíram mais calmas do que eu me sentia. — Mas ambos sabemos que não o farás.

Os olhos dele estreitaram-se.

— Tão confiante. Porquê?

Porque todos os instintos do meu corpo gritavam que ele me pertencia. Porque o meu lobo ronronava sob o seu toque, em vez de lutar. Porque aquela coisa entre nós também o afetava — via-o na tensão do seu maxilar, na pulsação rápida na sua garganta, na forma como as suas pupilas se tinham dilatado.

Mas não podia dizer nada disso.

— Porque já estaria morta se quisesses matar-me — disse eu em vez disso.

Ele fitou-me durante um longo momento, algo ilegível atravessando as suas feições. Depois soltou lentamente o meu pulso.

Resisti ao impulso de esfregar o local onde os seus dedos tinham estado, onde a minha pele ainda formigava com o seu toque.

— Tens razão — disse ele por fim. — Não quero matar-te. O que é lamentável, porque é óbvio que estás aqui para me matar.

— Falhei. Podes triunfar agora.

— Oh, não estou a triunfar. — Ele pegou na minha lâmina e examinou-a com interesse profissional. — Isto é trabalho de alta qualidade. Feito por medida. Quem quer que te tenha treinado sabia exatamente o que estava a fazer.

Fiquei em silêncio.

— Não me vais dizer nada, pois não?

— Farias isso no meu lugar?

Um novo sorriso, quase admirado desta vez.

— Não. Provavelmente não. — Ele guardou a lâmina — a minha lâmina. — Bem, isto coloca-nos numa posição interessante. Tenho uma assassina nos meus aposentos que acabou de tentar matar-me. O protocolo diz que deveria mandar executar-te.

O meu coração martelava, mas mantive a expressão neutra.

— Mas o protocolo também diz que eu não devia ter trazido uma mulher desconhecida para os meus aposentos privados. — Ele aproximou-se e forcei-me a não recuar. — E o protocolo certamente não prevê o facto de eu te achar absolutamente fascinante.

— Tentei matar-te — lembrei-o.

— Estou ciente. Faz parte do teu charme.

Estaria ele louco? Eu acabara de tentar assassiná-lo e ele… estava a flertar?

— O que vais fazer comigo? — perguntei, odiando o quão insegura soava.

Aleksander inclinou a cabeça e examinou-me como se eu fosse um enigma que ele precisava desesperadamente resolver.

— Ainda não decidi. Mas não vais sair deste quarto esta noite. E amanhã… — O seu sorriso tornou-se predatório. — …amanhã, pequena assassina, vamos ter uma conversa muito longa sobre quem tu realmente és e porque é que a Deusa da Lua achou correto colocar-te no meu caminho.

A Deusa da Lua. A ligação de companheiros. Saberia ele? Sentiria ele também?

— Eu não sou ninguém — sussurrei, recorrendo à minha velha resposta.

— Mentirosa. — Ele disse-o quase com carinho. — És alguém suficiente para me quereres morto. Isso torna-te extremamente interessante.

Dirigiu-se à porta e o pânico flamejou no meu peito.

— Espera… onde vais?

— Buscar um ferrolho para a porta. Não posso arriscar que te escapes e tentares acabar o trabalho enquanto eu durmo. — Parou no limiar. — Ah, e Raya? Se esse for o teu nome verdadeiro, o que duvido… — Os seus olhos encontraram os meus, intensos e ardentes. — …devias comer. Vais precisar das tuas forças para amanhã.

Depois desapareceu, a porta fechando-se com um clique decidido atrás dele.

Fiquei sozinha nos aposentos do Rei Alfa, desarmada, presa e completamente arrasada.

A minha missão acabara de falhar de forma catastrófica.

E o pior de tudo? O absolutamente pior?

O meu lobo estava feliz com isso.

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