Mundo de ficçãoIniciar sessãoRaya
O castelo era exatamente como eu me lembrava.
Não, isso era mentira.
Era ainda mais grandioso e opulento.
Os corredores pelos quais eu corria quando criança durante as visitas diplomáticas agora reluziam com uma riqueza que não existia naquela época.
Aleksander havia construído seu império sobre as cinzas de famílias como a minha.
E isso era evidente.
E eu estava furiosa.
Segui atrás dele pelos corredores, fingindo não reconhecer nenhum deles, mantendo a cabeça baixa e interpretando meu papel.
A mendiga.
Grata por ter sido salva.
Comovida por sua generosidade.
Por dentro, eu calculava cada detalhe.
Posições dos guardas.
Rotas de fuga.
O peso da pequena adaga escondida no forro do meu vestido esfarrapado, a única arma que Mestre Rovik permitira que eu mantivesse comigo.
Uma oportunidade, pensei.
A Deusa da Lua acabou de me entregar uma oportunidade perfeita.
— Estes são meus aposentos particulares — disse Aleksander, empurrando uma pesada porta. — Aqui você estará segura.
Entrei e minha respiração falhou por um instante, apesar de mim mesma.
O quarto era enorme.
Tipo... enorme mesmo.
Uma cama de dossel dominava um dos lados do aposento, coberta por tecidos escuros que pareciam absurdamente caros.
Estantes repletas de livros encadernados em couro cobriam as paredes.
Havia uma lareira aquecendo todo o ambiente.
Por outra porta, consegui ver o que parecia ser uma sala de banho.
Espera.
Aquilo não era um quarto de hóspedes.
Era o quarto dele.
Meu pulso acelerou por motivos que não tinham absolutamente nada a ver com a missão.
Virei-me para encará-lo.
— O senhor vai me colocar nos seus aposentos? — A pergunta saiu rápida e afiada.
Ele arqueou uma sobrancelha, apoiando-se no batente da porta com os braços cruzados.
Aquela posição fazia seus ombros parecerem ainda mais largos e sua presença ainda mais dominante.
— Preferiria as masmorras?
— Eu preferiria não invadir o espaço pessoal do Rei Lykan.
— Considere que não está invadindo.
Ele entrou no quarto, e acompanhei cada um de seus passos como a assassina que fui treinada para ser.
— Você vai tomar um banho, comer e descansar aqui esta noite. Amanhã decidiremos o que fazer com você.
Amanhã eu já terei ido embora.
E você estará morto.
— Por quê? — perguntei, porque Raya, a mendiga, faria essa pergunta. — Por que está fazendo isso?
Ele me observou por alguns instantes, e eu me perguntei se conseguia enxergar através do meu disfarce.
Se sabia exatamente quem eu era.
— Eu já lhe disse. Você foi atacada no meu território.
— Existem abrigos, orfanatos. O senhor poderia ter me deixado em qualquer um deles.
— Poderia.
Ele deu mais um passo em minha direção, e minha mão estremeceu na direção da lâmina escondida.
— Mas eu não quis.
A sinceridade em sua voz me perturbou mais do que qualquer mentira poderia.
— Vou mandar trazer comida — continuou ele, caminhando até a porta. — A sala de banho tem tudo de que você precisa. Leve o tempo que quiser.
Era isso.
Sério?
Ele simplesmente ia me deixar sozinha em seus aposentos particulares.
Sem supervisão.
Sem guardas.
Era fácil demais.
— Espere — chamei antes que pudesse me impedir.
Ele parou, com a mão apoiada no batente da porta, olhando para mim em expectativa.
— Obrigada.
As palavras pareciam pesadas.
— Por me salvar. Por... isto.
Vi algo passar por sua expressão.
Era surpresa?
Satisfação?
Fosse o que fosse, fez meu estômago se contorcer com uma culpa que eu não tinha o direito de sentir.
— De nada, Raya.
A maneira como pronunciou meu nome falso fez minha pele se arrepiar.
— Voltarei em breve.
A porta se fechou atrás dele com um clique suave.
Esperei exatamente trinta segundos antes de me mover.
A sala de banho era tão luxuosa quanto o quarto.
Uma enorme banheira de cobre já estava cheia de água fumegante.
Sabonetes e óleos estavam cuidadosamente alinhados sobre uma prateleira.
Em outras circunstâncias, eu talvez tivesse me sentido tentada.
Mas eu não estava ali para tomar banho.
Estava ali para matar.
Retirei a lâmina de seu esconderijo dentro do vestido.
Não era grande.
Mal passava do comprimento da palma da minha mão.
Mas era afiada o suficiente para arrancar o coração dele.
Eu havia treinado aquele movimento milhares de vezes em bonecos de treinamento.
Mestre Rovik garantira que eu soubesse exatamente onde atacar.
Quão fundo perfurar.
O ângulo exato para garantir uma morte rápida.
— Sem hesitação — ele repetira inúmeras vezes. — A hesitação mata você. No instante em que surgir uma abertura, você a aproveita.
Voltei para o quarto, posicionando-me ao lado da porta.
Quando Aleksander retornasse, eu esperaria até que ele entrasse.
Até que suas costas estivessem voltadas para mim.
E então...
A porta se abriu.
Meu coração disparou, mas permaneci imóvel.
Lâmina em punho.
Cada músculo do meu corpo preparado para atacar.
Aleksander entrou carregando uma bandeja de comida.
O aroma de carne assada e pão fresco encheu o quarto, fazendo meu estômago traidor roncar.
Ele caminhou até a pequena mesa perto da lareira e colocou a bandeja sobre ela.
Suas costas estavam voltadas para mim.
Agora.
Movi-me exatamente como Rovik havia me ensinado.
Silenciosa.
Rápida.
Mortal.
Três passos foram suficientes para encurtar a distância entre nós.
Ergui a lâmina, mirando o espaço entre suas omoplatas.
O ponto perfeito para perfurar um pulmão.
Talvez alcançar seu coração, se eu acertasse o ângulo.
Um único golpe.
Era tudo de que eu precisava.
Pela minha família.
Pelos meus pais.
E por Nana, que morreu para me proteger.
Minha mão já avançava quando ele falou:
— Vai me esfaquear... ou está esperando um convite?







