Mundo ficciónIniciar sesión— Onde a sua família mora, Serena? — ele continuou, mantendo o tom amigável, demonstrando um interesse que fazia parte do roteiro, mas que soava perigosamente real.
— No vilarejo ao leste — disse, sem tentar esconder ou florear o fato de que vínhamos do lado mais humilde e esquecido da cidade, longe do glamour das estações de esqui.
— Tem irmãos?
— Sim, um irmão mais novo. — Sorri genuinamente pela primeira vez no almoço ao me lembrar de Gustavo, que estava com onze anos e era cheio de energia.
— Como deve saber, eu tenho um irmão que mora na Itália — Lucca comentou, o olhar se tornando um pouco mais sombrio. — Ele ficou viúvo há pouco tempo.
— Sinto muito, eu soube — disse, tomando o cuidado absoluto de não citar a perda recente dos pais deles em um acidente, que havia abalado o império Ricci pouco antes.
— Ele virá para cá na próxima semana. É exatamente por isso que preciso que você continue com a farsa, de forma impecável — Lucca falou com tranquilidade, enquanto preparava o alimento no garfo com movimentos calculados.
— Você vai enganar o seu próprio irmão? — perguntei, a incredulidade escapando antes que eu pudesse me conter. No segundo seguinte, me arrependi da audácia.
— Vou enganar a todos. Só o Luigi sabe a verdade, e assim continuará sendo.
— Certo — disse, concordando e engolindo em seco. Afinal, eu estava ali para cumprir um contrato e receber o pagamento que salvaria as finanças da minha família, não para dar palpites morais na vida do meu chefe.
Tive um breve tempo para descansar na suíte após o almoço. À tarde, uma fisioterapeuta particular foi até o quarto e cuidou do meu braço e do meu tornozelo com tanta eficiência que eu já conseguia caminhar pelo tapete felpudo sem mancar visivelmente. No entanto, o verdadeiro teste físico e emocional foi encarar Meredith quando a encontrei no final da tarde, nos corredores de serviço.
— O que está acontecendo, Serena? Eu não sou boba, esse homem está te forçando a fazer isso, não está? — ela afirmou, segurando meus ombros. Sua voz, que sempre fora doce, alegre e expansiva, agora estava carregada de preocupação e de pura revolta.
Meu coração apertou. Eu não podia dizer a verdade de jeito nenhum; o contrato previa cláusulas de confidencialidade severas. Olhando nos olhos dela, apenas pedi para que acreditasse em mim. Expliquei, mentindo descaradamente, que estava bem, apaixonada e que não era necessário se preocupar. Mas Meri era intensa, amorosa e uma amiga de verdade; dava para ver em seu olhar que ela ainda desconfiava de cada palavra.
Para piorar a minha angústia, não consegui falar com os meus pais por telefone. O vilarejo onde moravam ficava bem além dos limites da cidade e soube, pelos funcionários da recepção, que havia nevado intensamente por lá nas últimas horas. Eles deviam ter ficado sem energia elétrica e sem sinal de internet, como sempre acontecia nas nevascas severas. Eu estava isolada em um mundo de luxo, enquanto minha mente permanecia na casa simples de madeira no leste.
Ao anoitecer, os funcionários do hotel deixaram o vestido de gala e tudo o que eu precisava para compor o visual daquela noite em minha suíte. Quando tirei a peça da capa protetora, perdi o fôlego. Eu nunca havia vestido nada tão elegante, caro e sob medida em toda a minha vida.
Eu sou mulher e preciso confessar: no fundo, não era algo ruim. Estar ali, vestindo tecidos nobres, com os cabelos tratados, unhas feitas e sendo arrumada como uma verdadeira princesa de contos de fadas tinha o seu encanto sedutor. O problema era que, à meia-noite, a carruagem de luxo voltaria a ser apenas um contrato de aparências, e o príncipe era o homem perigoso demais para o meu coração.
***
Lucca Ricci
Reservamos um espaço no hotel para o jantar, Leonardo e sua esposa também vem, pedi um lugar a mais na mesa e ao meu lado, quero ser o primeiro a chegar, afinal o hotel é meu. Quero ver a soberba de Leonardo cair à medida que me ver acompanhado, seus planos de me tirar do controle irão ruir e ele verá que eu não sou idiota.
— Você está andando muito rápido e o meu tornozelo ainda doi. — Serena disse, com expressão de dor em seu rosto.
— Me desculpe — respondi, diminuindo a marcha, Serena não é acostumada com saltos e vestido, imagina andar com saltos e com dor no pé.
Ela está linda com o vestido que escolhi, é vermelho e dá a ela um ar de mulher fatal, daquelas que não perdem o seu homem para ninguém e é exatamente essa a imagem que eu quero que ela passe. Em seu rosto não tem risadinhas ou bom humor, ela é assim seria, até parece um pouco brava.
— Você está com cara de que querem roubar o seu namorado.
— Juro que não é de propósito, é a dor. — ela se assustou quando a fiz entrar em uma salinha.
— O que foi?
— O anel, me dê sua mão. — falei, estendendo a mão a ela.
— Não precisa disso, me dê o anel. — ela se negou.
— Precisa sim, você me deve fidelidade, não quero ser corno.
— Você tem cada ideia. — ela disse estendendo a mão.
— Cadê a sua? — falou brava.
— O homem não precisa usar aliança de noivado. — argumentei tranquilo.
— Precisa sim. — Serena insistiu, me fez dar o anel a ela e o enfiou em meu dedo.
— Direitos iguais, sem gracinhas, Sr.Lucca — disse autoritária, ela esquece quem manda aqui.
Eu a conduzi exibido pelo salão, Serena entrou no personagem e agora tem uma postura altiva cumprimenta a todos de igual pra igual, inclusive com Charlotte que apesar de não ter beleza física me pareceu simpática e muito envergonhada com todo esse circo dos meus acionistas. Em um momento vi que as duas conversavam e Serena até sorriu, a esposa de Leonardo estava com elas, a mãe de Charlotte foi a única de cara feia. Conseguimos driblar as perguntas e com poucos gestos de carinho, todos acreditaram no nosso romance. Serena cora todas as vezes que a encaro por muito tempo, a abraço ou lhe dou selinhos.
O jantar tinha acabado, estávamos perto de nos despedirmos de todos, quando Alexander entra no salão com seus dois filhos, Ananda de três anos e Cristian de dois.
Os cumprimentei e Ananda tomou o meu colo para si. Alexander me disse baixinho.
— Porra, a suíte que as crianças ficam está ocupada.
— Não está ocupada, as coisas de Serena estão lá. — rebati, provocando.
— Então está ocupada. — disse irritado.
— Boca suja respeita a sua filha. — o repreendi, tampando os ouvidos da pequena que estava em meu colo.
— Eu vou dormir com o titio. — Ananda disse manhosa, me abraçando.
— Seu tio já tem companhia, Ananda. — Alexander disse alto e vi que Serena ouviu, pude ver a preocupação em seu rosto.
Pedi calma com meu olhar, a babá chegou e as coisas foram se acalmando, nos despedimos de todos e subimos com Alexander para os nossos aposentos.
— Querida, pegue uma roupa para usar amanhã cedo, depois peço para levarem as suas coisas para a minha suíte. — pedi e quando Serena abriu a porta, vi que as coisas das crianças já estavam no quarto, não demorou para que Serena voltasse de lá com uma sacola de papelão. Ela estava nervosa, isso mexe comigo, eu só não sei como. Será que ela nunca viu um homem? Pelo amor de Deus, ela suspirou buscando alívio.
— Eu não esperava por isso, sinto muito. — Me livrei do paletó e camisa, Serena continuava feito uma estátua, em pé perto da porta de saída. — Minha suíte é grande, tem sala, copa é quase um apartamento. Mas só tem um banheiro. — expliquei, tentando acalmá-la.
— O meu travesseiro e minha caneca de chá ficaram lá. — Serena sussurrou, deixando claro que não ouviu nada do que eu disse.
— Vai lá buscar, diga que esqueceu. — ela foi, mas está muito nervosa.
Tirei minha roupa e fiquei só de boxer, esqueci completamente que eu não poderia fazer isso hoje, que não estou sozinho. Preparei o meu uísque enquanto minha mente acelerada não me deixa em paz. Com Alexander na cidade, nossos hoteis na Itália ficam sem supervisão, mas mandarei Luigi até lá caso precise.







